Ao grande público, o nome de Jimmy Armfield talvez não seja de reconhecimento imediato. O lateral direito compôs o elenco da Inglaterra campeã do mundo em 1966, mas como um mero reserva, que sequer entrou em campo ao longo da campanha triunfante dos Three Lions. E o destino do defensor poderia ter sido bastante diferente. Talvez, a braçadeira fosse entregue por Sir Alf Ramsey a ele, e não a Bobby Moore, o real responsável por erguer a Jules Rimet. Fato é que uma lesão num dedo do pé forçou o veterano a perder o momento de maior exposição da carreira, mas não diminui a trajetória que construiu, digno de ser eternizado com uma estátua bem em frente ao estádio do Blackpool. Referência de lealdade e profissionalismo no futebol inglês que faleceu nesta segunda, aos 82 anos.

Se a história do Blackpool costuma ser atrelada, com razão, a Stanley Matthews e Stan Mortensen, o lugar de Armfield no panteão do clube se equipara à dupla. O lateral direito foi descoberto em um treinamento pelo emblemático técnico dos Tangerinas, Joe Smith. E na chance que ganhou para ser testado, anotou os quatro gols em uma goleada por 4 a 1, atuando como ponta esquerda. Aos 17 anos, em 1954, assinou o seu primeiro contrato profissional. Ingressava no elenco apenas um ano depois da lendária conquista da Copa da Inglaterra de 1953, atuando ao lado de gigantes como Matthews e Mortensen. Certamente aprendeu um bocado com os veteranos, especialmente a conduta para chegar tão longe em sua condecorada carreira.

Naquele momento, o Blackpool era um time acostumado a frequentar as primeiras posições do Campeonato Inglês. Em 1955/56, terminou com o vice-campeonato da liga, atrás apenas dos Busby Babes do Manchester United. E o novato aproveitou do ambiente favorável para se firmar. Viraria titular na segunda metade da década e, em 1959, foi eleito o jogador jovem do ano. Naquela temporada também iniciaria sua trajetória na seleção inglesa principal, com um desafio e tanto. Aos 23 anos, enfrentou o Brasil, campeão do mundo, diante de 120 mil torcedores no Maracanã. Teve a incumbência de marcar Canhoteiro. Mas o pior aconteceu do outro lado do campo, na famosa atuação de Julinho Botelho, que, de vaiado por entrar no lugar de Garrincha, saiu ovacionado ao determinar a vitória canarinho por 2 a 0.

A partir da década de 1960, a carreira de Armfield deslanchou. Virou capitão do Blackpool, disputou a Copa do Mundo de 1962, passou a ser apontado entre os melhores laterais do planeta. E a maior responsabilidade viria após o Mundial do Chile. Seguindo a linha sucessória de Billy Wright e Johnny Haynes, acabou eleito o novo capitão da seleção inglesa. Armfield sustentou a faixa ao longo de um ano e meio, inclusive no jogo que celebrou os 100 anos da consolidação das regras do futebol, em amistoso entre a Inglaterra e a “seleção do mundo”. Porém, os problemas de lesão limitaram suas aparições pelos Three Lions. Diante da ausência, outro companheiro de defesa foi o escolhido de Alf Ramsey: Bobby Moore, que assumiu a função em amistoso contra o Uruguai.

A falta de sequência atrapalhou Armfield. Mas ele se recuperou a tempo para integrar a Inglaterra rumo à Copa do Mundo de 1966. Após dois anos longe da equipe nacional, participou de amistosos contra Iugoslávia e Finlândia, às vésperas do torneio. E na ausência de Bobby Moore naqueles compromissos, exerceu o papel de capitão em ambos os confrontos. Todavia, pouco antes da estreia, uma nova contusão, no dedão, minou as chances do lateral direito entre os titulares. Georgie Cohen, que vinha sendo o substituto, assumiu a posição. Já a braçadeira permaneceu com Bobby Moore, sobretudo na consagração em Wembley. O zagueiro seguiria como capitão até 1973 e, até lá, apenas uma vez não esteve na função enquanto defendia os Three Lions – no centésimo jogo de Bobby Charlton, quando cedeu a honraria ao amigo.

“Isso foi muito difícil. Ele se estabeleceu como o lateral direito antes da Copa e, então, George entrou. Ele sempre lidou bem com isso ao longo dos anos, com grande dignidade, uma atitude típica de Jimmy. Isso deve ter sido um grande golpe, como você imagina, não jogar naquele campeonato e se ausentar na final. Mas ele encarou isso sem qualquer amargura. Ele sempre foi parte da equipe”, comentou Geoff Hurst, um dos protagonistas naquela campanha, em entrevista à Associated Press sobre o companheiro falecido.

Depois disso, a trajetória de Armfield esteve totalmente dedicada ao Blackpool. O clube seria rebaixado em 1967, mas o defensor se empenharia a levar os Tangerinas de volta à elite em 1970. Já na temporada seguinte, aos 35 anos, decidiu se aposentar. Despediu-se do clube com 569 partidas pela liga, marca que permanece como recorde em Bloomfield Road. E as maiores exaltações de seus feitos estão no estádio, onde atravessou toda a carreira profissional. Em 2010, o Blackpool batizou o setor sul das arquibancadas com o nome de Jimmy Armfield, acompanhando o que já havia sido feito a Stan Mortensen e Stanley Matthews. Já no ano seguinte, em frente ao local, foi inaugurada uma estátua de bronze do veterano.

A aposentadoria de Armfield, no entanto, não significou seu afastamento do futebol. Ele atuou por oito anos como treinador. Primeiro, dirigiu o Bolton, levando o tradicional clube à segunda divisão. Já os maiores sucessos vieram à frente do Leeds. Foi ele quem assumiu os Whites depois da conturbada passagem de Brian Clough. Conseguiu recuperar o ambiente e levar a equipe a um desempenho memorável na Copa dos Campeões, alcançando a final. Sob as ordens do ex-lateral, eliminaram Újpesti, Anderlecht e Barcelona. Na decisão, contudo, o Bayern de Munique acabou por celebrar o bicampeonato continental, com a vitória por 2 a 0 consumada no Parc des Princes.

Por quatro anos, Armfield domou as rédeas do Leeds sem Don Revie. Em 1978, deixou o posto para uma nova empreitada: virou jornalista. E por mais de 30 anos foi uma das vozes mais famosas das jornadas esportivas da BBC. Além disso, também trabalhou como conselheiro da Football Association. Já em 2010, outro sinal de sua grandeza. Como a Fifa havia entregue medalhas apenas aos 11 titulares do Mundial de 1966, a FA liderou uma campanha para o reconhecimento dos reservas. Armfield recebeu o seu prêmio das mãos do primeiro ministro Gordon Brown. Aos 82, faleceu vítima de um câncer. Sua trajetória inquebrantável, todavia, eleva seu nome além dos pódios e da vida.