O negócio já era dado como certo desde o último mês. Ainda assim, restava a oficialização, o que aconteceu nesta quarta: Jô foi apresentado como o novo reforço do Nagoya Grampus Eight. A venda do protagonista do Corinthians no título do Campeonato Brasileiro soava como irrecusável, diante dos €11 milhões oferecidos pelo clube japonês. Por mais que o centroavante tenha sido fundamental ao time de Fábio Carille, o valor é bastante satisfatório, considerando seus 30 anos de idade. Vai para ser tornar o grande astro de uma equipe tradicional, mas que passou a última temporada na segunda divisão e retorna agora à elite da J-League.

A contratação de Jô é um tanto quanto atípica, tendo em perspectiva as ações dos japoneses no mercado durante os últimos anos. Por mais que grandes nomes do futebol brasileiro tenham passado pela J-League, esses negócios de maior peso se reduziram drasticamente a partir da década passada. Cada vez menos medalhões foram para o Japão, enquanto a maioria dos brasileiros que se consagraram por lá não tinham tanta projeção por aqui ou sequer eram conhecidos do grande público. Jô representa uma quebra neste sentido, até pelo tamanho da aposta feita pelo Grampus em sua reconstrução.

Ao longo de sua história, todavia, o clube de Nagoya se acostumou a possuir grandes ídolos estrangeiros. E sem economizar nas contratações. Basta ver pela primeira edição da J-League. Controlado pela Toyota, o time almejava a compra de Diego Maradona. Os problemas do craque argentino com doping frearam o negócio, mas ainda assim o Grampus trouxe um astro internacional eternizado em Copas do Mundo: o inglês Gary Lineker, que estava no Tottenham. Curiosamente, o artilheiro estreou justamente em um amistoso contra o Corinthians, na pré-temporada de 1992. As lesões, todavia, atrapalharam o impacto que se imaginava.

Neste momento histórico, o Nagoya Grampus tinha outros estrangeiros, inclusive brasileiros. O meio-campista Jorginho Putinatti, símbolo do Palmeiras nos anos 1980, foi o primeiro a emplacar. Figurou na seleção do Campeonato Japonês em duas temporadas consecutivas, antes do advento da J-League. Se o veterano tinha o status de ídolo, outros passaram por Nagoya sem tanta longevidade, como Pita e Elivélton – este, trazido após a repercussão no São Paulo multicampeão de Telê Santana.

O grande acerto do Nagoya Grampus, de qualquer forma, aconteceu em 1994. Naquele ano, o clube da Toyota deu sua grande cartada ao buscar Dragan Stojkovic, em baixa com o Olympique de Marseille. O sérvio desembarcava no Japão às vésperas de completar 30 anos, mas ainda poderia ser considerado um dos jogadores mais talentosos do mundo. E foi exatamente o que se viu. O maior ídolo da história do Grampus foi eleito o MVP da J-League em seu primeiro ano, era nome frequente na seleção do campeonato, faturou duas vezes a Copa do Imperador. Por mais que o time não tenha chegado ao topo do Campeonato Japonês, era inegável que seu patamar se elevava com o camisa 10. E também com a ajuda de um tal Arsène Wenger, que treinou a equipe por um ano, antes de iniciar sua história à frente do Arsenal.

Stojkovic teve diversos brasileiros entre os companheiros. Alexandre Torres foi o mais duradouro, comandando o sistema defensivo por cinco anos. Além dele, Valdo passou duas temporadas em Nagoya, após deixar o Benfica, orquestrando o time ao lado do sérvio. A aposentadoria de Stojkovic, em 2001, deixou uma evidente lacuna no Grampus. E as tentativas de revitalizar o ataque foram compradas no Brasil. Marcelo Ramos não deu muito certo, ficando apenas uma temporada. Quem conseguiu ser ídolo foi Uéslei, levado do Bahia e que empilhou gols nos cinco anos que passou no clube, chegando mesmo a receber a Chuteira de Ouro da J-League. Ao final de sua passagem, o baiano ganhou a companhia de Marques, que estava no Vasco, após deixar o Atlético Mineiro. Pois o atacante também se destacou, eleito em uma de suas três temporadas à seleção da J-League.

Contratado junto ao São Paulo, Luizão foi escolhido para manter a linhagem, mas anotou apenas quatro gols em Nagoya. O próximo brasileiro a construir uma reputação um pouco maior no Grampus foi Magnum, ex-Paysandu, que passou três temporadas no elenco, de 2008 a 2010. No mais, a rotatividade dos estrangeiros foi maior neste período, sem apostas tão midiáticas entre os brasileiros. O único a realmente marcar seu nome nesta década foi Marcus Túlio Tanaka, ex-zagueiro da seleção japonesa que passou seis anos no Grampus, a partir de 2010. Já entre os outros ídolos forasteiros, as principais menções cabem ao colombiano Danilson Córdoba e ao australiano Joshua Kennedy. Tanaka, Córdoba e Kennedy estiveram na seleção da J-League quando o Grampus conquistou seu primeiro (e, até hoje, único) título da liga, em 2010, treinado justamente por Stojkovic.

Na última temporada, o Nagoya Grampus se voltou novamente ao Brasil, almejando conquistar o acesso na segundona. O camisa 9 sueco Robin Simovic foi o único estrangeiro a permanecer no elenco após o rebaixamento, ocorrido em 2016. A partir de então, a diretoria contou com Gabriel Xavier, emprestado pelo Cruzeiro, além de Felipe García e Washington, ambos trazidos do Brasil de Pelotas. Acabaram auxiliando a volta do time à primeira divisão, de onde nunca tinha saído desde a criação da J-League. A contratação de Jô, de certa forma, marca o elo entre o passado vivido e a visão de futuro que impera no clube, buscando as glórias que foram tão comuns durante as décadas anteriores.