Não havia outro herói possível. Tinha que ser ele. Tinha que ser Jô, em uma noite delirante em Itaquera. Noite em preto e branco, noite de sofrimento e vitória, noite de campeão. Afinal, poucos jogadores do elenco de Fábio Carille se identificam tanto com o Corinthians quanto o centroavante. O garoto da Zona Leste, crescido na Cohab, formado no Terrão. Que deu muitas voltas no mundo até retornar ao Parque São Jorge. E que, por essas andanças, se tornou justamente a cara deste Corinthians. Um time desacreditado, de jogadores que pareciam não viver o seu melhor momento, cotado para ser figurante nas competições que disputaria. Mas que levantou a poeira. Que sobrou no Campeonato Brasileiro, apesar dos percalços. Que se reergueu, como Jô, capaz de carregar o time em tantos jogos. Enfim, heptacampeão.

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Quando o Corinthians anunciou a contratação de Jô para comandar o seu ataque em 2017, poucos colocavam a mão no fogo pelo centroavante. A carreira de altos e baixos parecia em espiral. Deixou o Atlético Mineiro em baixa, depois da participação apagada na Copa do Mundo de 2014. Marcou seus gols no Al Shabab e no Jiangsu Suning, mas longe dos holofotes, esquecido no Oriente. Quando os alvinegros resgataram o nome de seu prata da casa, havia quem acreditasse que era desperdiçar dinheiro, especialmente pela falta de comprometimento demonstrada tantas e tantas vezes. O próprio Fábio Carille declarou que os comentários não eram nada animadores, após conversar com ex-companheiros do artilheiro no Internacional e no Galo, seus dois clubes anteriores no Brasil.

Mas o exílio fez bem a Jô. A família. A idade. A maturidade. E ele transformou-se em um líder. Assumiu a linha de frente do time em diferentes momentos, também nos microfones. Nem sempre foi unanimidade por seus posicionamentos, principalmente diante do episódio ocorrido após o gol com o braço contra o Vasco. De qualquer maneira, se tornou um homem de confiança de Carille. Um homem, que nem de longe parecia aquele garotão baladeiro e problemático de outros tempos. Mais importante que a seriedade do centroavante em seu trabalho, no entanto, foi sua capacidade de resolver em campo. Resolveu, muitas vezes.

Inicialmente cotado como reserva, Jô virou a maré logo no primeiro clássico do ano. Saiu do banco para decidir contra o Palmeiras, na fase de classificação do Paulistão. E o poder de fogo contra os rivais elevou demais o moral junto à torcida. Santos e São Paulo também sofreram com a fome de gols do artilheiro corintiano. Acabou campeão estadual. Até que iniciasse a campanha do Brasileirão como um dos protagonistas. Como um dos grandes responsáveis pela arrancada surpreendente dos alvinegros no primeiro turno.

Em um time que nem sempre marca tantos gols, Jô se encaixou como uma luva. Era o matador necessário. Bom no jogo aéreo, capaz de abrir espaços aos companheiros que vêm de trás, dono de um ótimo senso de posicionamento, perigoso nos contra-ataques. Assim, foi balançando as redes, acumulando tentos importantes. Ajudou a ditar o ritmo alucinante na primeira metade do campeonato, enquanto foi o salvador nas sofridas vitórias durante o returno. Contra o Palmeiras, fundamental, sofreu o pênalti e converteu a cobrança com uma frieza enorme, trabalhando bastante para que o coletivo funcionasse no Dérbi do renascimento corintiano. Até que veio o jogo do título. O jogo que, dentro da Arena Corinthians abarrotada, terminou de consagrar o artilheiro do hepta.

O Fluminense abriu o placar logo nos primeiro minutos e fazia os torcedores mais descrentes pensarem no pior. Mesmo com a fé da massa alvinegra, o passar dos minutos só aumentava a aflição comprimindo o peito. Era uma partida sofrida. Sofrida como tantas outras grandes partidas corintianas. E a partir do segundo tempo, Jô despontou como o salvador. O responsável por libertar o grito de campeão. Logo no primeiro minuto, abriu a jogada e apareceu na área para completar o cruzamento de Clayson. Na sequência, ainda faria o segundo, numa pitada de sorte por estar no lugar preciso para emendar o rebote que vinha da trave. Depois, viu Jadson fechar a conta em 3 a 1. Até que a apoteose viesse nos instantes finais.

Depois que a névoa branca dos sinalizadores tomou o gramado da Arena e se dissipou, a placa surgiu à beira do campo. Carille usou sua última substituição para fazer duas homenagens. Ao colocar Danilo, o veterano que continua adorado pelos corintianos, reconhecido por seu trabalho silencioso e sem vaidades ao apenas compor o grupo. E também ao substituir Jô. O autor de 18 gols no Brasileirão saía ovacionado. Merecedor de tantos aplausos. Os aplausos que poucos apostavam que ele receberia neste retorno ao Corinthians. Neste recomeço de sua carreira, voltando a ser o goleador que se espera, mas nem sempre correspondeu.

O ofício do centroavante é ingrato. Depende primordialmente da regularidade em balançar as redes. Se a seca aparece, as vaias não demoram. Apesar disso, Jô parece pronto a se firmar no Corinthians por um bom tempo, se assim desejar e continuar trabalhando duro. Aos 30 anos, terá mais algumas temporadas para render. Está no clube que conhece tão bem, aclimatado ao ambiente, funcional no esquema do atual técnico, centrado em manter a sua forma. Que as expectativas do início de sua carreira não tenham se cumprido totalmente, será ao menos a referência. E já estará marcado. Mesmo em um time tão homogêneo como este que ganhou o hepta, o artilheiro serve de símbolo. Sua trajetória e a história do título estarão para sempre entrelaçadas, entre tantos paralelos possíveis na redenção compartilhada.