Jô, centroavante que tem a confiança de Felipão e deve ir para a Copa (AP Photo/Felipe Dana)

Jô, a questão de confiança de Felipão na convocação e a zona leste

Todos temos algumas manias, as nossas questões pessoais que orientam as nossas tomadas de decisão. Felipão, em seus trabalhos, costuma ter a confiança como um quesito chave. Na seleção brasileira, isso fica ainda mais evidente. Há meses se fala em um reserva de Fred, porque Jô, ainda que tenha ido bem na seleção desde a Copa das Confederações, no Atlético Mineiro fez um segundo semestre de 2013 ruim. Mas Fred também fez. E ainda que o segundo seja fundamental e o primeiro não, ambos parecem compartilhar da confiança de Felipão, e isso faz o técnico gaúcho se sentir seguro.

As especulações sobre quem poderia ser o centroavante convocado levavam em conta a má fase técnica de Jô, além de uma desconfiança por um jogador de carreira irregular. É uma discussão que a imprensa em geral levanta, porque é algo que está nas ruas. Quando se fala o nome de Jô para o torcedor do Corinthians, ele olha com desconfiança. O do Internacional também. Ver que o lugar onde ele mais se destacou foi na Rússia, no CSKA Moscou, e falhou no Manchester City, Galatasaray e Everton também não dá segurança a ninguém.

A discussão sobre um centroavante para a seleção brasileira é tão forte que se tornou tema da semana na Trivela. Afinal, por que se fala tanto nisso? O problema é base? São questão que serão tratadas no especial.

Jô fez um excelente Campeonato Brasileiro em 2012, sendo decisivo para o segundo lugar conquistado pelo Atlético. Em 2013, o desempenho foi excelente no primeiro semestre e durante toda a Libertadores, com sete importantes gols em 14 jogos disputados. No Brasileiro, fez seis gols em 21 jogos e teve desempenho bem abaixo do que se esperava.

Só que na seleção, Jô brilhou. Foi convocado de última hora para a Copa das Confederações por causa da lesão de Leandro Damião. Entrou e fez gol em dois jogos da primeira fase e passou a ser uma ameaça até mesmo para Fred, que começou mal o torneio. O centroavante do Fluminense se recuperou e terminou como um dos destaques do time, mas Jô também ganhou a sua parcela de confiança. Fez três gols, dois contra a Austrália e um contra Portugal, em setembro, e depois caiu um pouco de rendimento, como toda a seleção, aliás.

Felipão trabalha com confiança. Alan Kardec é um jogador versátil e esforçado e não dá para dizer que não tem talento. Diego Tardelli, companheiro de Jô no Atlético Mineiro, é possivelmente o melhor atacante do Brasil e seria a escolha deste colunista para a seleção, ao menos para um teste. Mas parece que ficou tarde demais para ele, que não ganhou nenhuma chance antes. Agora, Felipão parece inclinado a manter-se dentro da zona de conforto. Tardelli, assim como Kardec, talvez estejam no plano B de Felipão, caso um dos seus convocados se machuque. E olhe lá.

A confiança que Felipão tem pode ser confundida às vezes com teimosia, mas ela é importante em muitos casos. Em 2002, Rivaldo vinha de lesão grave e era alvo de críticas por sua irregularidade na seleção. Felipão não só apostou nele como ainda disse que ele teria que fazer 10 jogos ruins para pensar em tirá-lo. O resultado foi aquele que nós vimos, Rivaldo destaque e o considero o melhor jogador daquela Copa.

Confiança é um decisão segura do técnico. Não quer dizer que seja a melhor, mas é aquela que ele sente que pode apostar sem muito medo. Jô a conquistou pelo que jogou em campo com a camisa amarela, apesar de ser realmente estranho pensar em Jô titular do Brasil na Copa caso a seleção precise, em uma eventual lesão ou suspensão de Fred. Imagine que Fred fique suspenso em um jogo semifinal e Jô seja escalado contra, digamos, a Alemanha. Mas essa é uma aposta segura de Felipão, já testada. E com ela que ele vai. Mesmo com toda a desconfiança que isso possa gerar.

Ainda que considere que há opção melhor do que Jô, ele deve estar na estreia do Brasil contra a Croácia, no dia 12 de junho, na Arena Corinthians, em São Paulo. O estádio é na zona leste, região onde Jô cresceu, no bairro de Sapopemba. A zona leste é a mais populosa de São Paulo, com cerca de 3,3 milhões dos 10,88 milhões de habitantes da cidade. É uma das mais carentes por transporte, lazer e trabalho, já que a maior parte dos moradores trabalha em outras regiões da cidade. Quando você vê aquelas fotos terríveis do metrô de São Paulo na estação Sé, no centro de São Paulo, em geral são fotos no sentido estação Corinthians-Itaquera, ou seja, sentido zona leste.

Por tudo isso, Jô jogar em Itaquera seria curioso. Provavelmente a maior parte dos que estarão no estádio sejam pessoas que não são da região. Jô talvez não seja o centroavante dos sonhos de ninguém, mas representará, simbolicamente, uma região da cidade que tanto é maltratada. Jogar uma Copa do Mundo é uma grande emoção, imagine então jogar em um estádio na região que você cresceu? Jô pode ter essa chance. Nesse aspecto, é uma boa história para se contar.