No futebol, João Ubaldo Ribeiro abandonou um dos princípios básicos da Constituição dos torcedores: não foi fiel. Quer dizer, sempre flertou, flertou muito com a sensualidade, de quem se insinua para vários times e acaba tendo vários e vários casos. Começou torcedor do Confiança, se afeiçoou pelo Vasco e torcia pelo Vitória. “O [clube] Confiança, porque eu morava em Sergipe, morava em Aracaju. Mas meu primeiro time foi o Vasco. Sou torcedor do Vitória também, não vou renegar nunca o Vitória, um time ligado à minha história pessoal”, disse o escritor ao G1.

Apesar dessa infidelidade marota, foi especialmente lúcido em detectar algumas mudanças sérias pelas quais o futebol estava passando. Para João Ubaldo, o talento começava a rarear no país que se autointitulou “país do futebol”. Ele fez isso não apenas comparando o futebol atual com o futebol do passado, mas observando de perto como o futebol jogado aqui começou a mudar nos seus fundamentos mais profundos – o esporte como recreação.

As mudanças

O ídolo de Ribeiro era Quarentinha. O ponta brilhou pelo Vitória, em 1953. Mas seu auge, mesmo, aconteceu no Botafogo. Entre 1954 e 1964, ele jogou pelo Botafogo ao lado de Didi, Zagallo e Garrincha – com que formou um dos ataques mais letais do futebol brasileiro. Quarentinha era um jogador que se caracterizava tanto pelo chute forte de pé esquerdo quanto pelo apetite pelo gol. Ele marcou muito  pelo Botafogo quanto pela Seleção Brasileira – são 17 gols em 17 jogos.

Em um texto assinado na revista Placar, João Ubaldo Ribeiro lembra do seu tempo de jogador amador e de como o espírito desportivo varia de acordo com a necessidade de vitória. No Roda Viva, da TV Cultura, ele falou sobre a sua passagem por posições do ataque.

Comecei a jogar mal na ponta-direita. Fiz umas experiências como o que naquela época se chamava center-forward, depois virou centroavante, agora nem existe mais, agora é tudo diferente, mas no meu tempo era… no meu tempo era “dáblio-mê”, como se diz em… em nordestês, WM [esquema tático 3-4-3 ou, mais especificamente, 3-2-2-3, com três jogadores na defesa, três no ataque e quatro homens no meio campo (dois para auxiliar o ataque e dois pela defesa)]. Era fulano, fulano e fulano; fulano, fulano e fulano, e mais cinco: [com sotaque francês, acentuando a última sílaba] Garrinchá, Didi, Vavá, Pelé e Zagalô, ou qualquer coisa assim [risos]. Como dizia o sujeito na França, eu ouvia na rádio da França, aquela Copa de [19]58. Eu comecei a carreira na ponta-direita, fiz umas breves incursões como center-forward, e encerrei, pendurei as chuteiras na lateral direita depois de não conseguir marcar nem a custa de carrinhos.

Em outro artigo, na Academia Brasileira de Letras, critica os pernas de pau, o que, para ele, é o maior problema do futebol brasileiro, acima de árbitros, cartolas, calendário. Ele cita, ainda na entrevista do Roda Viva, que o futebol está morrendo. E faz isso com absoluta clarividência, ainda mais em uma entrevista de 2001 – um ano antes de o Brasil viver a euforia do pentacampeonato, na Copa do Japão e da Coreia do Sul.

Paulo Markun: Como é que você está vendo a situação do futebol brasileiro? E, por favor, não me diga que você não tem competência para opinar, porque…

João Ubaldo Ribeiro: Não, não tenho, não, eu não acompanho mais, não. Mas eu acho que o futebol brasileiro está acabando.

Paulo Markun: A gente abre a página de futebol, parece a de polícia. Abre a página de política, parece a de polícia, abre a página de polícia, parece a página de polícia…

João Ubaldo Ribeiro: Não, eu acho que está acabando mesmo, está acabando a… Nós não somos mais o país que… eu acho isso desempenha – também eu nunca pensei organizadamente sobre o assunto -, mas eu acho que isso desempenha um papel básico. Não só o incremento dos outros esportes, como o fato de que o Brasil não tem mais terreno baldio, nossa juventude de classe média virou juventude de playground. Ou o playground do condomínio…

Paulo Markun: Ou o do shopping center…

João Ubaldo Ribeiro: … ou o playground do vizinho. Não temos mais a bola de meia, não temos mais o campinho da pelada, o terreno baldio ali, ou a própria rua. Eu cansei de jogar em rua… eu tenho vários amigos, eu não fui criança no Rio de Janeiro, fui criança em Salvador e adolescente em Salvador. E, adolescente em Salvador, joguei bola no meio da rua, onde passava carro. Na hora que o carro passava, a gente parava um pouquinho, e continuava a jogar bola no meio da rua…”

O futebol, para João Ubaldo Ribeiro, vinha em decadência técnica. Uma visão comum  a quem viu tantos craques e, de alguma forma, não achava que as mudanças que o jogo sofreu foram benéficas. Em um mundo onde o futebol não é mais jogado nas ruas, mas sim nas escolinhas e nos condomínios, o escritor não via com bons olhos o futuro daquela que era uma das grandes paixões nacionais.  E faz algum sentido.

João Ubaldo Ribeiro era especialmente sensível para compreender mudanças milimétricas no país.  Livros como “Viva o povo brasileiro”, “A casa dos Budas ditosos” e “Sargento Getulio” buscam reinterpretar o Brasil, seguindo a tradição de outros craques da literatura, como Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. Vale a pena prestar atenção no diagnóstico dele feito na revista da Academia Brasileira de Letras e no Roda Viva.

Não é preciso concordar, claro. Mas é preciso prestar atenção. A literatura é muito hábil em captar grandes mudanças no mundo antes mesmo de elas acontecerem.