Arsenal e Manchester City se enfrentam neste domingo, em Wembley, com as mesmas pretensões, mas atravessando momentos distintos. O título da Copa da Liga Inglesa, que não seja o mais importante da temporada, possui uma representatividade particular a cada um dos finalistas. Aos Citizens, seria a primeira conquista para marcar a temporada fantástica do time de Pep Guardiola e diminuir o impacto da frustração contra o Wigan na FA Cup. Ao Arsenal, é um suspiro diante da falta de perspectivas em diferentes frentes – e, quem sabe, uma útil garantia de presença nas copas europeias em 2018/19. Quanto à parte da glória, há uma lembrança em comum que une o passado de ambos os clubes.

Joe Mercer pode ser considerado uma das figuras mais vitoriosas do futebol inglês. São 15 títulos em um currículo extenso, vitorioso nos tempos de jogador e de treinador. E o auge em cada uma das fases da carreira se deu nos finalistas desta Copa da Liga. Pelo Arsenal, o capitão liderou um dos momentos mais condecorados do clube, logo após a Segunda Guerra Mundial. Já no Manchester City, foi o treinador da fase áurea anterior às petrolibras, que inclui títulos em seis competições diferentes – a reconquista do Campeonato Inglês e a Recopa Europeia, bem como uma Copa da Liga. Personagem respeitabilíssimo que merece a lembrança nesta ocasião especial.

Arsenal

Nascido em Ellesmere Port (distante pouco mais de 20 quilômetros de Liverpool) em 9 de agosto de 1914, Mercer se profissionalizou como jogador no Everton, ao qual chegou com 18 anos, em setembro de 1932. Conquistou a titularidade a partir de 1935, convocado à seleção inglesa três anos depois e conquistando com os Toffees o título de 1938/39, na última temporada completa antes de ser deflagrada a Segunda Guerra Mundial. O conflito interrompeu a perspectiva de outras conquistas para um bom time do Everton, além de roubar sete anos da carreira de Mercer, bem no que se imaginava o auge de sua forma.

 

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Durante o conflito, serviu no Exército inglês e disputou amistosos não-oficiais pela seleção. Num deles, contra a Escócia, sofreu uma lesão grave que, no fim das contas, acabaria provocando sua saída do clube. Theo Kelly, dirigente dos Toffees, acusou Mercer de não se esforçar naquela partida. Embora o jogador recorresse até a um ortopedista para confirmar a gravidade da lesão, Kelly não se convenceu, o que levou Mercer a ter que arcar sozinho com os custos da cirurgia.

Decepcionado, o jogador abandonou o clube e se voltou para cuidar de seu armazém na região de Wirral. Até o Arsenal persuadi-lo a retomar a carreira. A transferência foi acertada entre os dois clubes já com a temporada 1946/47, a primeira do pós-Guerra, em andamento. Theo Kelly chegou a levar as chuteiras de Mercer para as negociações, para que o jogador não precisasse voltar ao clube nem mesmo para se despedir dos companheiros.

O acerto com o Arsenal permitiu a Mercer uma rotina bastante peculiar: ele continuaria morando em Merseyside e cuidando de seus negócios quando possível. Treinaria sozinho em Anfield para manter a forma e se deslocaria para juntar-se aos companheiros apenas nos dias de jogos – trazendo na bagagem diversos alimentos de seu armazém para os jogadores, num tempo de comida ainda racionada no país. Os Gunners também ganhariam um experiente médio-esquerdo – posição que, no sistema WM comum ao futebol inglês da época, numericamente um 3-2-2-3, equivalia a um volante por aquele lado.

Mercer estreou pelos Gunners no dia 30 de novembro de 1946, num empate em 2 a 2 com o Bolton em Highbury. Time mais vitorioso do país na década de 1930, o Arsenal não vinha bem no pós-Guerra e amargava a penúltima colocação com dez derrotas em seus primeiros 16 jogos. Com a chegada do médio, perderia apenas sete em 26 partidas, desempenho que permitiu ao clube londrino fugir da ameaça de degola e terminar num aceitável 13º posto.

A reação da segunda metade da temporada anterior prosseguiu pela seguinte, na qual Mercer, além de dono da camisa 6 reservada à posição, já ostentava também a braçadeira de capitão. O time enfileirou seis vitórias logo de saída e se manteve invicto por 17 partidas até o fim de novembro. Ao longo da temporada, cumpriu trajetória espetacularmente consistente, perdendo apenas seis de seus 42 jogos, levando o título ainda com quatro partidas por fazer e terminando nove pontos à frente do vice Manchester United.

Os Gunners tiveram poderio ofensivo suficiente para contar com o artilheiro do campeonato, o também veterano Ronnie Rooke, 36 anos de idade e 33 gols marcados. Mas aquela foi uma campanha baseada sobretudo num sólido sistema defensivo, comandado por Mercer: a equipe sofreu apenas 32 gols, disparado a menos vazada da liga. E serviu ainda para cimentar as bases de um Arsenal novamente forte naquela virada para a década de 1950.

Dois anos depois de conquistar a liga, Mercer capitaneou o Arsenal na terceira conquista da FA Cup na história do clube, ao bater o Liverpool em Wembley por 2 a 0, curiosamente vestindo camisas de tom alaranjado. Em meio a nomes históricos dos Gunners, como o goleiro George Swindin e os irmãos Leslie e Denis Compton, coube ao atacante Reg Lewis marcar os dois gols. E a Joe Mercer, incansável aos 35 anos de idade, receber a taça e ser carregado em triunfo pelos companheiros. Foi ainda eleito o melhor jogador da temporada pela imprensa esportiva inglesa.

O médio-esquerdo venceria mais uma liga com o Arsenal em 1953, numa disputa acirrada com o Preston North End, superado apenas na última rodada pelo critério do “goal average”. Uma vitória dramática sobre o Burnley por 3 a 2 valeu a conquista pela diferença de 0,099 na divisão dos tentos marcados pelos sofridos, como previa o regulamento. Foi o sétimo título da liga para os Gunners, que na ocasião se tornaram os maiores vencedores da competição, superando Aston Villa e Sunderland, donos de seis conquistas (Everton e Liverpool vinham logo atrás com cinco cada).

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Tão emocionado quanto exausto, Mercer subiu nas tribunas do estádio e proclamou: “Este foi o dia mais esplêndido da minha vida”, anunciando ainda o fim da carreira. Esta segunda afirmação não seria cumprida, na verdade. O camisa 6 continuaria jogando pela temporada seguinte, até sofrer dupla fratura na perna num jogo contra o Liverpool, em abril de 1954. Só mesmo depois disso ele não teve outra saída senão, aos 39 anos de idade, pendurar de vez as chuteiras, já como parte da história do clube.

Manchester City

A segunda parte da história começa com Joe Mercer de volta a seu comércio em Merseyside, do qual só seria persuadido a sair em agosto de 1955 para abraçar a carreira de treinador, após receber convite do Sheffield United, cujo treinador havia falecido semanas antes. Mercer ficou nos Blades até dezembro de 1958, quando pediu demissão para assumir o Aston Villa. No clube de Birmingham, lançou vários jovens que formaram a base da equipe. Em tempos de Busby Babes, seu time receberia o apelido de “Mercers Minors” e venceria a edição inaugural da Copa da Liga, em 1960/61.

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Em 1964, Mercer teria que se retirar temporariamente após sofrer um infarto. Recuperado, voltou ao clube em julho apenas para ser informado de que havia sido demitido. Após nova aposentadoria da bola que durou exatamente um ano, recebeu outro convite, agora para comandar o Manchester City. Em sua primeira temporada em Maine Road, conquistou o título da segunda divisão com relativa tranquilidade, trazendo os Citizens de volta à elite após três anos, sem perder um jogo sequer em casa.

Pouco tempo depois de aportar no clube, contratou o jovem Malcolm Allison como seu assistente. A dupla faria o Manchester City embarcar em um de seus períodos mais gloriosos. Ambos se completavam: se Allison (o responsável mais direto pelo dia a dia dos treinos) era obstinado, impetuoso e falastrão, Mercer (que estabelecia o estilo de jogo e escolhia os titulares e as principais contratações) era uma figura mais paterna, sóbria e simpática. Em 1966/67, a equipe faria uma campanha de meio de tabela, com o objetivo de se assentar de novo na elite. A era dourada viria nos anos seguintes.

O favorito destacado ao título em 1967/68 era o outro time de Manchester, o United. Favorito ao bicampeonato, na verdade. Suas credenciais atendiam pelos nomes de Bobby Charlton, George Best e Denis Law (a chamada “Santíssima Trindade”), além do já lendário técnico Matt Busby. Nem mesmo a disputa da Copa dos Campeões em paralelo – e com boas chances de título – diminuía seu status na liga.

E, por um bom tempo, as expectativas foram confirmadas. O time assumiu a liderança após vencer o Liverpool em Anfield em meados de novembro e a conservou (exceto por algumas breves oscilações) até o fim de abril. Em princípio, seu maior perseguidor era o ascendente Leeds, mas quando o time dirigido por Don Revie começou a falhar seguidamente, foi a vez do Manchester City entrar na briga.

O grande ponto de virada veio em 27 de abril, quando o United foi surpreendido e goleado por 6 a 3 em sua visita ao West Bromwich Albion (que levaria a FA Cup naquela temporada). Dois dias depois, o City bateu o Everton em Maine Road por 2 a 0 e assumiu a liderança, com vantagem também no “goal average”, a duas rodadas do fim. Na penúltima, os Red Devils se recuperaram esmagando o Newcastle por 6 a 0, mas os Citizens se mantiveram à frente ao baterem o Tottenham em White Hart Lane.

A decisão ficaria para o último dia, 11 de maio, quando o United receberia o Sunderland enquanto o City viajaria para encarar o Newcastle. Num jogo muito movimentado em St. James’ Park, o time de Joe Mercer venceu por 4 a 3 e confirmou a conquista, ainda ajudado pela surpreendente derrota dos rivais Red Devils em casa por 2 a 1. Era o segundo título dos Sky Blues na liga, 31 anos depois do primeiro. Dali a alguns dias, o United se sagraria o primeiro time inglês a levantar a Copa dos Campeões. Mas os torcedores do City se mantiveram orgulhosos: se o rival era o novo dono da Europa, em casa quem mandava eram eles.

Embora, em seu tempo de jogador, tivesse comandado defesas sólidas e sem medo de recorrer a chutões para onde o nariz apontasse (foi assim, por exemplo, nos minutos finais do jogo do título da liga de 1953 pelo Arsenal), como técnico Joe Mercer gostava de equipes de estilo fluente, ofensivo e técnico. Aquele Manchester City entrou para a história justamente por essas características, levadas adiante pela trinca de ases formada por Francis Lee, Colin Bell e Mike Summerbee, todos nomes que se tornariam históricos no clube. E todos trazidos para Maine Road por Joe Mercer.

Depois do título da liga, Mercer conduziria o City a seu quarto título na FA Cup em 1969, derrotando o Leicester por 1 a 0 em Wembley. E na temporada seguinte seriam dois canecos. Em março, o clube levaria a primeira das quatro Copas da Liga de sua história, batendo o West Bromwich Albion por 2 a 1 também no palco londrino. E em 29 de abril, depois de deixar pelo caminho Athletic Bilbao, Lierse, Acadêmica de Coimbra e Schalke 04, o time viajaria a Viena para conquistar a Recopa, único título europeu de sua história, batendo o polonês Górnik Zabrze do atacante Wlodzimierz Lubánski por 2 a 1 no Praterstadion.

Em três temporadas, pelas mãos de Mercer (e Allison), o Manchester City havia saído da segunda divisão para conquistar todos os três principais títulos do futebol inglês, mais uma inédita taça continental. Tristemente, para os torcedores, a parceria não duraria por muito mais além daquilo. Em 1971, em meio às disputas administrativas dentro do clube, Joe Mercer e Malcolm Allison apoiaram lados distintos. Uma nova diretoria, comandada por Peter Swales, e com o apoio do auxiliar técnico, assumiu o comando, promovendo Allison ao cargo de técnico, enquanto transferia Mercer para um cargo de supervisão, diminuindo sua influência.

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Ao fim da temporada 1971/72, quando o City de Allison perdeu um título da liga considerado praticamente ganho, Joe Mercer se viu demitido do clube de uma forma muito pouco sutil: ao chegar para trabalhar, viu sua vaga no estacionamento do clube desmarcada e sua mesa de trabalho encostada em um canto de uma escadaria. Seguiu então para o Coventry, onde permaneceu por duas temporadas, até receber o convite para comandar interinamente a seleção inglesa, entre a saída de Alf Ramsey, após a queda do time nas Eliminatórias para a Copa de 1974, e a chegada de Don Revie.

Mercer permaneceu dois meses no cargo (entre maio e julho de 1974), comandando os ingleses em sete jogos, entre amistosos e a disputa do Campeonato Britânico, o qual conquistou dividindo o título com os escoceses. Mas mais do que resultados convincentes, seu carisma e simplicidade ajudaram a descontrair o ambiente da seleção, tempos antes de ela novamente mergulhar em desconfiança durante a gestão de Revie. Após aqueles dois meses, retornou ao Coventry num cargo administrativo, aposentando-se em 1981.

Após sua retirada, voltou a morar em Merseyside e participou esporadicamente de programas esportivos de televisão, até descobrir que sofria do Mal de Alzheimer. O homem lembrado por sua calma teve morte tranquila, sentado em sua cadeira de balanço, no dia de seu aniversário de 76 anos. Hoje, Joe Mercer está imortalizado nos estádios de Arsenal e Manchester City (e também do Everton). O ex-treinador batiza uma das suítes do Etihad, e uma rua nas imediações do estádio. No Emirates, por sua vez, há um painel enorme com jogadores lendários, entre eles o ex-médio-esquerdo, vestindo a camisa 6.

Com toda a sua generosidade, Joe Mercer certamente ficaria contente com quem quer que fosse o vencedor da decisão deste domingo, no mesmo estádio de Wembley onde acumulou tantas glórias.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no Mundo Rubro-Negro.