Jogador de basquete, capitão da Roma, só 12 jogos na Celeste: o Ghiggia que você não conhece

Aos 23 anos, ele era o terceiro mais jovem em campo. Mas não foi a idade que o impediu de se tornar o grande protagonista. E o que por mais tempo pôde recontar o que viveu dentro de campo. Alcides Ghiggia foi o último sobrevivente dos 22 homens que escreveram o Maracanazo. Justo ele, o homem que silenciou 200 mil pessoas nas arquibancadas para dar aos uruguaios um título que já era dado como certo pelos brasileiros. E, mais ironia do destino ainda, falecido exatamente no 16 de julho, 65 anos depois da partida histórica.

VEJA TAMBÉM: As revanches esquecidas que reuniram os veteranos do Maracanazo 15 anos depois

Em uma seleção uruguaia de jogadores tarimbados, Ghiggia era um dos mais inexperientes. Amante também do basquete, o garoto cresceu jogando os dois esportes no Parque Central. E, aos 13 anos, chegou a ser convidado para entrar em quadra pelo Nacional. Não deu certo. Sua família era fervorosa pelo Peñarol, assim como ele, e o futebol começava a surgir como um caminho concreto para o seu futuro. Apesar da rigidez de seu pai, abandonou o curso de mecânica na Universidade Técnica do Uruguai para iniciar sua carreira profissional. Defendeu o pequeno Sudamérica antes de tentar a sorte na Argentina. Em 1947, teve uma passagem fugaz pelo Atlanta, em que falhou nos testes para atuar no time que também tinha Pedernera.

Não foi pela dispensa que Ghiggia desistiu. Sua predestinação falava mais alto. Na volta ao Sudamérica, ele flertou outra vez com o Nacional, mas sua mãe ameaçou expulsá-lo de casa se assinasse com os rivais. Só então fez o agrado dos familiares, vendido ao Peñarol em 1948, ao lado de outras duas promessas do Sudamérica. Aos 21 anos, o atacante ainda demorou alguns meses para ganhar sua chance. E o acaso novamente trabalhou a seu favor. Ortíz e Britos eram as principais opções para a ponta direita, nomes corriqueiros nas convocações da seleção uruguaia. Porém, logo em sua primeira semana de trabalho, o técnico húngaro Emérico Hirsch apontou para o garoto. Os dirigentes presentes no treino ainda tentaram mudar a ideia do comandante, mas ele foi irredutível. “Vai jogar este”. E assim montou-se um ataque mítico.

gig4

Em maio de 1949, o Peñarol escalou pela primeira vez no ataque Ghiggia, ao lado de Hohberg, Míguez, Schiaffino e Vidal – os três últimos, também titulares na Copa de 1950. O quinteto formado por jovens goleou o Sudamérica por 5 a 1, com um tento de Ghiggia. Nascia ali a linha conhecida como Esquadrilha da Morte. Com a formação, os carboneros conquistaram 52 dos 54 pontos disputados no ano, com incríveis 118 gols marcados, além de ficar com a taça do Campeonato Uruguaio. Um dos três confrontos com o Nacional naquela temporada acabou conhecido como “clássico da fuga”: os aurinegros já venciam por 2 a 0 no primeiro tempo quando, com medo da goleada, três rivais teriam ido embora do Estádio Centenário ainda no intervalo.

VEJA TAMBÉM: Um encontro com os heróis derrotados de 1950

Apesar do sucesso com o Peñarol, Ghiggia demorou um pouco para ser chamado para a seleção uruguaia. Ainda assim, a tempo de se consagrar. Suas primeiras partidas aconteceram apenas em maio de 1950, nas célebres partidas contra o Brasil pela Copa Rio Branco. A Celeste venceu a primeira por 4 a 3, mas acabou derrotada nas duas seguintes e perdeu a taça. Sem se destacar muito, o ponta direita ainda era um desconhecido dos brasileiros. Que começou a despontar na Copa do Mundo. Autor de um gol na goleada sobre a Bolívia, na primeira fase, manteve a média no quadrangular decisivo. Abriu o placar no empate contra a Espanha e também fez o primeiro de sua seleção na vitória sobre a Suécia. Até o fatídico 16 de julho. A passagem sem a marcação de Augusto, às costas de Juvenal, para acertar o canto deixado por Barbosa. Para se tornar o carrasco do Maracanazo e um dos maiores personagens das Copas.

“Inteligente, frio e calculista para jogar. Valente, daqueles que se arriscam para ir à frente e não se amedrontam. E era responsável, tinha um conceito formado das coisas e do valor delas. Contava com uma habilidade incrível e uma grande capacidade de decidir. Fazia gols importantes, mas também fazia os outros converterem. Era muito esperto para encarar os rivais e tinha outra grande virtude, dificilmente encontrável: uma passada muito larga, mas com a vantagem de saber levar a bola sempre no pé”.

Juan López, técnico do Uruguai em 1950, sobre Ghiggia

Ghiggia seguiu fazendo sucesso com o ataque potente do Peñarol. Em 1951, a taça voltou às mãos do capitão Obdulio Varela, com dois pontos de vantagem sobre o Nacional. E a conquista permitiu aos uruguaios voltarem ao Maracanã, convidados para a disputa da Copa Rio de 1952 – na qual os carboneros caíram para as semifinais, contra o Corinthians. Aquela seria a última chance do atacante vencer um título com a camisa aurinegra. Dias depois, se envolveu em uma confusão no clássico contra o Nacional, acusado de agredir o árbitro Juan Carlos Armental. Acabou suspenso por 15 meses, o que acelerou sua venda à Roma.

VEJA TAMBÉM: A dor de Obdulio e a condenação dos 11 brasileiros de 1950

Em tempos nos quais as seleções contavam apenas com jogadores que atuavam no país, a despedida de Ghiggia aconteceu nos Jogos Panamericanos de 1952. Teve a chance de reencontrar o Brasil de Ademir de Menezes, Friaça e Bauer. Perdeu por 4 a 2, no que foi considerado por muitos como uma pequena revanche pelo Maracanazo. A história da Copa do Mundo, porém, ninguém apagaria. Aquele foi o último dos 12 jogos que Ghiggia disputou pela Celeste. Marcou quatro gols, justamente nas quatro partidas do Uruguai no Mundial.

gig1

Na Itália a partir de 1953, Ghiggia se tornou a contratação estelar da Roma, que acabara de retornar à primeira divisão e se mudara ao recém-inaugurado Estádio Olímpico. Seus números podem não ser tão espetaculares assim, com poucos gols. Mas era importante principalmente na criação e na recomposição. Ao lado de Dino da Costa e Giacomo Losi, o ponta era um dos principais responsáveis a levar o elenco a boas campanhas na Serie A. Os giallorossi terminaram na terceira colocação em 1954/55 e costumeiramente permaneciam entre os seis primeiros. A importância de Ghiggia era tanta que ele começou a ser convocado para a seleção italiana a partir de 1957, ao lado do compatriota Schiaffino. Entretanto, a dupla fracassou na tentativa de se classificar à Copa de 1958. A Azzurra caiu diante da Irlanda do Norte, na única vez em que não passou pelas Eliminatórias.

VEJA TAMBÉM: Ghiggia e uma das mais belas histórias do futebol

Apesar de receber a braçadeira de capitão em algumas partidas, Ghiggia começou a perder espaço em suas duas últimas temporadas na Roma, justamente quando teve de novo a companhia de Schiaffino. Nesta época, ganhou seu único título na capital: a Copa de Feiras de 1960/61, na qual os giallorossi derrotaram o Birmingham na final. A fama do uruguaio na Itália ainda permitiu que ele se transferisse ao Milan, que formava um time forte. Em sua única temporada no San Siro, disputou apenas quatro partidas, mas conquistou o Scudetto – que valeu vaga para a Copa dos Campeões, vencida pelos rossoneri em 1963.

Aos 35 anos, já era o momento de retornar ao Uruguai. De início, iria rodar pelo país com veteranos em amistosos para arrecadar fundos a hospitais infantis. Acabou convidado a defender o Danubio. Apesar da idade, Ghiggia atuou por cinco anos no clube. Chegou a tentar a carreira de técnico por alguns meses, antes de trabalhar no Cassino de Montevidéu, trabalho garantido pelo governo aos campeões de 1950. Permaneceu amigo dos ex-companheiros, que costumavam se reunir para churrascos. E também dos brasileiros, a quem fazia e recebia visitas frequentes.

gighia barbosa
Aposentado, Ghiggia se tornou um personagem ainda maior. Passou a ser frequentemente requisitado a entrevistas, em que gostava quase sempre de brincar: “Apenas o Papa, Sinatra e eu calamos o Maracanã”. Todavia, o senhor nunca faltava com respeito aos adversários. Sequer tocava no assunto quando os encontrava. Mesmo que fosse no centro do gramado do Maracanã, como fez com Barbosa, nos 20 anos da partida fatídica.

VEJA TAMBÉM: Enfim, o gol de Ghiggia se transformou em vibração

Um a um, Ghiggia perdeu os colegas. Quando já era o único sobrevivente, em 2013, foi ao Centenário, para ver a multidão rever o seu gol no telão e comemorar de novo. E o velhinho se emocionou com a vibração que nunca teve o direito de sentir no Maracanã. Também compareceu ao sorteio da Copa de 2014, de volta ao Brasil, e poderia muito bem estar presente na final – um erro enorme da organização. Aos 88 anos, o ex-atacante levava uma vida simples no subúrbio, em uma casa pequena, mas acolhedora a quem batesse. Chegou a ficar entre a vida e a morte, após um acidente de carro. Resistiu. Para se despedir nos 65 anos do Maracanazo, por um enfarte. Há 65 anos como uma lenda.