A insustentável situação do Sporting continua gerando desdobramentos desde o final da temporada. Há um claro racha entre o elenco e o próprio presidente Bruno de Carvalho, algo que se escancarou durante a campanha na Liga Europa. A gota d’água veio com o execrável episódio de agressão aos atletas e a membros da comissão técnica, em invasão de encapuzados (alegadamente, ultras da Juve Leo) ao centro de treinamentos sportinguista – que levantou diversas suspeitas e hipóteses, inclusive com uma possível participação do mandatário. Findadas as competições, ainda assim, os jogadores tomam uma postura enérgica contra a diretoria. Nos últimos dias, os primeiros futebolistas passaram a anunciar a rescisão unilateral de seus contratos, diante da falta de condições de trabalho.

Um dos líderes do movimento, o goleiro Rui Patrício foi o primeiro a solicitar a rescisão com justa causa. Pretendido por Napoli e Wolverhampton para a próxima temporada, o arqueiro titular da seleção portuguesa escreveu uma carta de 34 páginas ao Sporting, justificando a sua decisão. O camisa 1 diz temer pela própria vida, assim como acusa a direção de criar uma pressão exagerada junto à torcida, ao questionar publicamente o profissionalismo dos atletas. Segundo Patrício, a reunião realizada após as críticas pela derrota ante o Atlético de Madrid aumentaram as rusgas, com o estopim ocorrendo durante a invasão do CT.

“Estamos perante fatos que de forma muito clara apontam que a invasão se tratou de uma ação preparada e que era previsível, não tendo a direção do Sporting agido da forma que lhe era exigida para evitar o sucedido e para garantir as condições de segurança aos jogadores. Com efeito, nesta altura, tinham já ocorrido demasiados episódios de agressividade e ameaças contra os jogadores para que fosse imperioso prever e prevenir a sua continuação, no mínimo, reforçando as condições de segurança. O que, pura e simplesmente, não aconteceu. Parecendo, até, que estas foram, pelo menos, aligeiradas. Acresce que, além do mais, as condutas do presidente foram adequadas a criar nos torcedores e em particular nos ultras sentimentos exacerbados contra os jogadores, que já tinham tido afloramentos em momentos próximos”, assinala Rui Patrício, antes de levantar uma série de suspeitas quanto à atuação do Sporting.

O goleiro indaga a antecipação do treino e a invasão no momento em que os jogadores estavam nos vestiários, não no campo, quando a dispersão seria maior; também a caminhada dos invasores diretamente aos vestiários, cuja localização poucos sabem; ainda sobre o trajeto até os vestiários, sem qualquer aviso para prevenir os jogadores; questiona a presença do antigo presidente da Juve Leo, Fernando Mendes, que falou a Jorge Jesus no momento em que este corria para alertar seus comandados; e, por fim, levanta observações do antigo diretor do CT, que garantiu que uma regra básica era sempre manter os portões fechados durante os treinamentos, com alguém vigiando a imagem das câmeras numa sala de controle, o que aparentemente não ocorreu no incidente fatídico.

“Estamos, pois, perante uma conduta de negligência grosseira (se é que não se vem a averiguar que foi até mais do que isso) que confere justa causa de resolução do contrato de trabalho. Por outro lado, não pode deixar de se referir que a conduta do presidente, subsequente ao acontecido, foi inaceitável a absolutamente reveladora da mais profunda falta de respeito e consideração pelos jogadores. As suas primeiras declarações foram absolutamente chocantes para os jogadores, que as consideraram aviltantes e até ofensivas, parecendo que o presidente estava a ‘gozar’ com o sucedido. Os jogadores estiveram durante horas a prestar depoimentos à polícia sem que tivessem sido acompanhados por qualquer elemento da direção ou representante desta, numa atitude de perfeito desprezo pela situação”, complementou Rui Patrício.

Enfim, a gota d’água veio antes da final da Taça de Portugal, na qual o Sporting enfrentou o Desportivo das Aves  – perdendo posteriormente o título aos desafiantes. Rui Patrício afirma que Bruno de Carvalho, em vez de apoiar os jogadores, resolveu vitimizar e culpar os próprios atletas. Segundo as palavras do camisa 1, uma hipocrisia e um desrespeito por aquilo que sofreram.

“O representante máximo criticou-me publicamente, ofendeu-me, suspendeu-me, acusou-me, processou-me. Atiçou, diversas vezes, a ira dos adeptos contra mim e contra meus colegas, bem sabendo que alguns deles, em particular nas organizadas, reagem de forma primária e irracional a quaisquer declarações proferidas pelo presidente. E no ponto máximo da crise, em pleno local de trabalho, vivi momentos de puro terror, sem que a direção do Sporting tenha revelado qualquer preocupação com a segurança dos seus atletas, deixados à mercê de um grupo violento de ultras”, sentencia o camisa 1.

“Face a todos os fatos relatados, que consubstanciam, por um lado, uma conduta continuada de violência psicológica, que colocam em causa a minha dignidade pessoal e profissional e que contribuíram para a degradação das minhas condições de trabalho; e, por outro lado, perante os fatos ocorridos no CT, que colocaram em risco a minha integridade física (e mesmo a vida), nada tendo sido feito para o evitar, revela-se totalmente insustentável a subsistência da relação de trabalho”, finaliza. “Tais fatos, que traduzem um incumprimento contratual grave e culposo do empregador, tornaram impossível a manutenção da relação de trabalho”.

Na esteira de Rui Patrício, o atacante Daniel Podence também apresentou sua carta de rescisão ao Sporting. Outro que também teria se manifestado neste sentido, segundo a imprensa portuguesa, é William Carvalho. Ao lado do goleiro, o meio-campista é um dos líderes do elenco e igualmente teria colidido com Bruno de Carvalho. O empresário do camisa 14, contudo, não confirma e nem desmente o pedido. Assim como o arqueiro, é outro que possui propostas para seguir a outro clube na próxima temporada.

Em coletiva de imprensa, Bruno de Carvalho comentou apenas o caso de Rui Patrício. O presidente disse que o goleiro terá sete dias para pensar em sua posição, até que o clube acione os meios legais para tentar barrar a rescisão por justa causa. Inclusive, indicou que o camisa 1 está agindo por interesses, vislumbrando uma transferência, e que ele tem a “possibilidade de sair do Sporting de outra forma, pela porta grande, como merece”. “Espero que o Rui reflita bem, porque alguém contou a ele uma história mal contada”, opinou o dirigente.

Segundo dois dos principais jornais esportivos portugueses, A Bola e Record, há uma possibilidade para os jogadores desistirem da rescisão. Entretanto, ela passa pela renúncia de Bruno de Carvalho. Os atletas também desistiriam da ação se o presidente permitisse que novos dirigentes pudessem negociar eventuais transferências, sem novos transtornos. Caso a rescisão unilateral realmente aconteça, os jogadores ficam livres para negociar com quem bem entenderem, sem qualquer retorno ao clube. Dor de cabeça tamanha ao dirigente, mas que significa pouquíssimo ante o terror vivenciado por atletas e comissão técnica – com consequências psicológicas graves, a exemplo do preparador físico que decidiu abandonar a carreira no futebol. Mais do que a rescisão, seria necessária também uma indenização pelo ocorrido.