Jorge Campos destacava-se de várias formas. Era um goleiro de baixa estatura, aproximadamente 1,70 metros, era bom com a bola nos pés e tinha uma personalidade expansiva, que se refletia em seus uniformes. Desenhos diferentes e cores vivas fizeram parte da carreira deste homem natural de Acapulco que defendeu a seleção mexicana e, por pouco, não defendeu as suas metas em campanhas histórias na Copa do Mundo – perdeu nos pênaltis para a Bulgária, em 1994, e da Alemanha, quatro anos depois, com um gol de Bierhoff a quatro minutos do fim.

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Em conversa com a Trivela, no México, ao lado de outros jornalistas, Jorge Campos afirmou que provavelmente teria mais dificuldades para se expressar livremente no vestuário por causa da interferência das autoridades nos uniformes dos jogadores. “Infelizmente, não se decide mais qual uniforme colocar. São os árbitros que decidem. Incrível. Não entendo. Eu os mataria. O árbitro vai dizer como me vestir, quando o goleiro é o único jogador que se veste diferente?”, afirmou.

Confira os principais trechos da conversa, em que também se falou sobre futebol brasileiro, seleção mexicana e muitas outras coisas.

De qual goleiro que você gosta mais?

Bravo, Neuer, que que é um dos melhores goleiros do mundo. Goleiros que estão revolucionando essa posição.

Pensa que deu um primeiro passo em goleiros que jogam com os pés, adiantados?

Eu acredito que podemos falar de Higuita, um dos primeiros que fizeram isso, de jogar com os pés e jogar adiantado. Eu sou um dos que iniciou isso tudo (também).

Acha que haverá outro goleiro como Rogério Ceni no Brasil?

Acho que não. Será difícil. Um goleiro fazer tantos gols assim, de falta. Tem uma técnica especial. É super dotado. E, sobretudo, que o treinador tenha muita confiança. E, também, o futebol vai se revolucionando muito.

Como faria para inovar, hoje em dia?

Eu mudaria o desenho dos uniformes de goleiros. Gostaria que deixassem os goleiros jogar com seus desenhos especiais. Os goleiros sempre usam roupas diferentes. Agora quem decide as cores que você vai usar são os árbitros.

O que é mais importante para você, um uniforme que você gosta ou um com a mais recente tecnologia, mas que foi imposto?

Se juntasse os dois, seria ideal, porque você pode gostar de um uniforme, mas, nesta época, há uniformes que absorvem a água, o suor. Eu gostava tanto de futebol que não pensava se estava pesado, se a chuteira era pesada, a única coisa era que queria me sentir cômodo. Agora, há muita tecnologia. Mas, infelizmente, não se decide mais qual uniforme se coloca. São os árbitros que decidem. Incrível. Não entendo. Eu os mataria eles. O árbitro vai dizer como me vestir, quando o goleiro é o único jogador que se veste diferente?

Outra distinção sua era ser um goleiro de baixa estatura. Como foi isso?

Eu pulava muito. Eu treinava muita potência nas pernas para poder substituir a altura. Isso me ajudou a compensar a estatura.

Quando foi transferido do Atlante para o Galaxy, houve um momento em que jogou em dois clubes ao mesmo tempo. Como foi essa experiência?

Eu jogava lá e vinha jogar aqui. Uma vez joguei uma final com a seleção do México, e depois joguei pelo Galaxy, no mesmo estádio. Jogamos a final contra os Estados Unidos a final. Depois, joguei pelo Galaxy, pela MLS. Sempre gostei muito de jogar. Sempre joguei no meu bairro duas partidas por dia, de manhã e à tarde. No dia seguinte, jogava outras duas. Era difícil. Porque, no profissional, há muitas coisas, mas eu conseguia jogar na MLS e depois vinha para cá. Até porque a temporada era muito curta, era de três, quatro meses.

O México é um país que gosta muito de futebol, como o Brasil, tem dinheiro. Por que nunca foi longe em um Mundial?

É difícil entender. A federação, os processos. É difícil manter um processo muito longo, e isso nos afetou, porque temos grandes jogadores. Hoje, vejo diferente, vejo que essa seleção é especial, pelos jogadores. Espero chegar ao Mundial e chegar às finais, pelo menos uma final.

Sua geração perdeu nos pênaltis na Copa do Mundo e uma derrota nos últimos minutos. Pensa que poderia ter chegado mais longe?

Poderíamos, mas não chegamos. Pênaltis são sorte. Caímos fora contra a Bulgária, mas era uma equipe muito boa, muito especial. A Bulgária chegou às semifinais. O México chegaria à semifinal também. A Itália jogou antes contra a Bulgária. Tínhamos uma grande equipe. Mas, conversando com os búlgaros, dizem que é a melhor seleção que tiveram na história. Aconteceu o mesmo. Longo processo de treinador e aí mudou tudo. Na fase de grupos, empatamos com a Itália e depois empatamos com a Bulgária, duas grandes equipes que jogaram a semifinal.

Gosta do Juan Carlos Osório?

É um bom professor, está indo bem. Tem um grande trabalho. Só perdeu um jogo.

Mas o jogo que perdeu foi para o Chile, por 7 a 0.

E o Brasil perdeu da Alemanha por 7 a 1. Nem por isso quer dizer que é ruim. Não sei quantos jogos o Osório comandou, 20 ou 30, e perdeu um. Acho que se jogarmos de novo contra o Chile não perderemos por 7 a 0. O Chile jogou muito bem, foi um dia perfeito. Não é por causa de uma partida que é a pior seleção.

O que pensa de os clubes mexicanos não disputarem mais a Libertadores?

É muito bem que o México esteja disputando a Libertadores. Acredito que jogar contra equipes sul-americanas é bom para o México.

E o que pensa de um torneio unificado entre a Libertadores e a Concacaf?

Não sei. É difícil pensar o que é melhor. Como ex-jogador, posso dar mil ideias, mas são as federações que decidem. O que importa são os interesses.

Você disse que se sentia livre quando jogava. Você foi um libertário em sua carreira?

Tomei muitas liberdades nesse aspecto, jogava livre, nenhum técnico nunca mudou minha forma de jogar. Sempre quis ajudar a equipe, o mais importante era a equipe, mas eu me sentia assim.

Na vida também?

Também. Sendo sempre alegre, desfrutando, há coisas piores no mundo e na vida, que às vezes não percebemos e acabamos lamentando. Todos têm momentos difíceis. E temos que desfrutar, e a vida segue caminhando. Você não vai perder toda sua vida por um tropeço.

O repórter viajou ao México a convite da Nike.