José Mourinho não ganhou tantos títulos à toa. Tem muitas qualidades como treinador. Uma delas, não a principal, mas ainda assim importantíssima, é a falta de vergonha na cara. Seja para recuar o seu time e se defender como se fosse um troiano diante da invasão grega ou mesmo para ser incoerente e criticar a retranca do adversário. Foi com esse espírito que o português viajou a Madrid e conseguiu acrescentar à semifinal da Liga dos Campeões um adjetivo poucas vezes associado a esse tipo de partida: entediante.

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Vamos deixar claro. Mourinho não é um técnico essencialmente defensivo, não enche o time de volantes, não sente prazer extra na vitória por apenas 1 a 0 ou na quase fraudulenta partida que termina sem gols e sem chances. É um estrategista que se adapta ao que tem nas mãos e às demandas do jogo. Se for preciso, defende. Fez isso com a Internazionale e com o Real Madrid quando enfrentou o Barcelona de Guardiola. Algumas vezes deu certo, outras não.

A diferença é que não há uma distância tão grande entre os jogadores do Chelsea e os do Atlético de Madrid como nesses duelos. No papel, é possível até argumentar que os ingleses são superiores tecnicamente, embora os espanhóis sejam um time mais entrosado, que joga junto há mais tempo e sabe o que fazer melhor que o adversário. Alguma coisa convenceu Mourinho de que seria melhor estacionar o tal do ônibus na sua área e especular. Correr o mínimo de riscos possíveis.

Somente ele pode responder com exatidão, mas pode ter sido os desfalques de Hazard, melhor jogador do Chelsea na temporada, e Samuel Eto’o; a impressionante campanha do Atlético de Madrid em casa, onde foi derrotado apenas uma vez na temporada (na Copa do Rei, pelo Real Madrid); ou mesmo a característica do time de Diego Simeone, excepcional no contra-ataque.

Aposto na última hipótese. O conceito básico dessa tática é que o adversário precisa atacar (não diga!), e Mourinho abdicou disso desde a escalação. Deixou Oscar e Schürrle no banco de reservas. Escalou o Chelsea mais fechado que conseguiu imaginar, com David Luiz e Mikel na frente da área, Ramires à direita, Lampard à esquerda, Willian à frente, e Fernando Torres isolado no ataque, buscando uma bola de vôlei para chamar de Wilson.

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Simeone, talvez prevendo isso, deixou David Villa no banco, Raúl García, mais aberto pela direita, e escalou um meia criativo na posição de camisa 10. Diego foi o armador, o maestro, o responsável por orquestrar as jogadas ofensivas do time da casa. E desafinou. Não chegou exatamente a jogar mal, mas não se destacou. Não foi decisivo. Deu apenas um passe para finalização. Tentou seis chutes e apenas dois superaram a muralha defensiva pintada de preto.

O resultado foi uma partida quase sem chances de gol porque restou muito pouco para o Atlético de Madrid. Os chutes de fora da área foram os que mais levaram perigo, especialmente um de Mário Suárez, aos 34 minutos do primeiro tempo. Na verdade, quase exclusivamente. Foram 13 tentativas de longe. Apenas duas, ambas de Diego, fizeram Schwarzer se mexer. Mas não muito.

Houve também os cruzamentos. Porque uma vez com a bola no campo de ataque, sem jogadores especialistas no drible, com o seus meias criativos em atuações no máximo razoáveis e diante de defensores experientes e incansáveis, o que mais pode ser feito, além de cruzamentos? Foram 44 (!), apenas dez corretos – oito pela direita, quatro desses de Juanfran.

O jogo ficou travado e físico, burocrático e previsível, entediante e chato. A torcida do Atlético de Madrid xingou, os telespectadores acharam o jogo ruim, manifestaram preferência pela Libertadores e vão chamá-lo de retranqueiro? Mourinho não se importa com nada disso. Foi para Madrid com um plano e executou quase à perfeição – o ideal seria achar um golzinho. Se ele decidir que em casa o melhor é continuar a se defender até o infinito e o além, fará isso, mesmo que a torcida do Chelsea reclame. Porque Mourinho não se importa com nada disso.

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