Se você pegar os álbuns de figurinhas ou os guias do Brasileirão do final dos anos 1990, ele estará lá. Um zagueiro jovem, promissor, que apontava ao futuro do Flamengo. E, por alguns anos, Juan foi um presente brilhante aos rubro-negros. Viveu algumas boas alegrias, incluindo a conquista da Copa Mercosul de 1999. Mas o talento, já se sabia, o levaria muito além da Gávea. Fez uma carreira sólida na Europa, disputou duas Copas do Mundo como titular da Seleção. Contam-se nos dedos de uma mão os zagueiros brasileiros tão técnicos quanto ele neste século. Qualidade acima da média que continua saltando aos olhos, mesmo quando os 38 anos de idade pesam sobre o físico. Nesta quinta, a altivez do camisa 4 impulsionou o Flamengo. Segurou as pontas em um jogo difícil ao time de Reinaldo Rueda. E, em uma vitória que saiu na base da vontade, o ídolo estava lá. Balançou as redes, abrindo o caminho para a virada por 2 a 1. Resultado essencial diante das virtudes do Junior de Barranquilla, dando um passo à frente nas semifinais da Copa Sul-Americana.

A presença de Juan no miolo de zaga do Flamengo, depois de se lesionar justamente no jogo da classificação contra o Fluminense, era um alívio enorme para os rubro-negros. O veterano já tinha jogado contra o Coritiba e desta vez também contou com a companhia de Réver, outro regressando à equipe. Além deles, também se sobressaía a escalação de Mancuello, respaldado após a boa atuação contra o Corinthians, compondo a trinca de meias ao lado de Éverton Ribeiro e Diego. Do outro lado, de qualquer forma, havia um adversário que inspirava respeito. O Junior de Barranquilla investiu bastante nos últimos meses. Conta com jogadores de destaque, especialmente Teo Gutiérrez e Yimmi Chará, além de coadjuvantes eficientes, a exemplo de Victor Cantillo. E na casamata, há a presença de um técnico histórico ao clube, Julio Comesaña, com amplo currículo nas competições continentais.

Em um Maracanã que estava longe da lotação, mas que pulsava forte, o Flamengo começou melhor. Teve primeiros minutos mais agressivos, dominando a posse de bola e pressionando o rival no ataque. A primeira finalização, aliás, viria com Juan. Uma cabeçada na qual o zagueiro pegou mal na bola, mandando para fora. Os rubro-negros continuaram em ritmo forte por cerca de 15 minutos. A marcação era alta e as antecipações do camisa 4, vitais, onipresente para dar o combate. Além disso, Trauco e Mancuello apareciam bastante pelo lado esquerdo, chamando a responsabilidade. Aos 11, o argentino arrancou o grito de alguns mais apressados, em uma bola que balançou a rede pelo lado de fora.

Quando o Junior de Barranquilla cresceu, no entanto, feriu o Flamengo na alma. E de diferentes maneiras. Mesmo Juan cometeu os seus deslizes neste momento. Um erro triplo da defesa, incluindo uma tentativa de cabeçada mal calculada pelo camisa 4, acabou sendo fatal aos 16 minutos. A bola que passou por todo mundo sobrou limpa para Yony González, de frente para o gol. Diego Alves precisou sair de maneira arriscada para salvar. Tão arriscada que, no choque com o colombiano, fraturou a clavícula, causando um enorme problema aos rubro-negros. Muralha entraria em campo, gerando reações distintas nas arquibancadas, entre aqueles mais desesperados e os que gritavam o nome do goleiro.

Fato é que o Flamengo inteiro se desconcentrou neste momento. O erro defensivo custou um goleiro confiável e quase pôs a perder os 90 minutos no Maracanã. Segundos depois da retomada do jogo, em uma disputa de bola com Téo Gutiérrez, Juan escorregou e ficou no chão. O lance continuou e Matías Mier deu uma belíssima enfiada para González. O ponta chegou à linha de fundo, nas costas de Pará, e cruzou. Alex Muralha, totalmente frio, não alcançou a bola, passando sob a sua mão. E o próprio Gutiérrez, se projetando no espaço vazio, apareceu no segundo pau apenas para escorar. O centroavante estava disposto a desestabilizar os cariocas, irritando em cada gesto. Mas também é o típico jogador capaz de resolver em um lance.

A partir de então, o primeiro passo para o Flamengo se recuperar na partida era colocar a cabeça no lugar. O time acordou nos minutos seguintes e criou duas ótimas chances, primeiro em um chute perigoso de Mancuello, depois em uma cabeçada de Vizeu lambendo a trave. Contudo, os rubro-negros logo sentiriam a tensão. O Fla se adiantava em campo, mas não conseguia construir as jogadas, insistindo demais pelas laterais. Já o Junior apostava nas ligações diretas, com os zagueiros precisando manter atenção máxima na antecipação. Nestas, Juan demonstrava ainda mais a sua importância, ao lado de Réver. Mas também ficava evidente a qualidade de Chará, sempre o mais perigoso dos Tiburones, dando muitíssimo trabalho a Trauco na marcação. O ponta, aliás, quase ampliou em uma arrancada pela direita, forçando uma defesa no susto de Muralha.

Faltava lucidez ao Flamengo na construção de jogo. Os laterais apareciam, especialmente Pará, mas dificilmente as jogadas tinham sequência depois de chegarem em seus pés. Vizeu estava encaixotado, Diego errava mais do que deveria. Cuéllar fazia um trabalho burocrático, enquanto William Arão tentava em vão. Se alguém parecia um pouco mais capaz de criar, era Everton Ribeiro, mas não tinha a penetração necessária. Os rubro-negros careciam de aproximação para as triangulações. E também sentiam um jogo pegado, no qual o árbitro mudava de critério na marcação das faltas a cada cinco minutos, o que irritou os dois lados.

O apito do intervalo escancarou a insatisfação da torcida. Antes um tanto quanto silenciosa, ela voltou a fazer barulho para vaiar o time e cobrar “raça”. E o segundo tempo começou bem mais intenso, com jogadas para os dois lados. O Flamengo atacou primeiro, em cabeçada de Diego que assustou. Mas logo o Junior responderia, em avanço que González não aproveitou a finalização. Enquanto isso, Chará dava ainda mais canseira na marcação, buscando o jogo e abusando da velocidade.

Reinaldo Rueda realizou sua segunda alteração aos oito minutos. Mancuello, que apagou ao longo do tempo, deu lugar a Vinícius Júnior. Serviu para levantar a torcida. E a adoração pelo garoto não se dá apenas pelo fato de ser um prata-da-casa, por realmente apontar um futuro imenso. Mas também por ser aquele que parte para cima, que tenta algo diferente, que arrisca. Algo que não se vê em outros medalhões, com muito mais lastro, que acabam se escondendo. O jogo claramente se dava nas duas pontas, o que tornava a entrada do adolescente providencial.

O problema é que o Flamengo não se cansava de errar. Trauco era outro que caiu bastante de rendimento. E se os erros no ataque apenas esvaíam as esperanças, na defesa eles quase resultaram no segundo gol do Junior. Um passe de Pará na fogueira, entre Juan e Réver, permitiu que Chará roubasse a bola. Passou a Téo, que ajeitou a Luis Díaz, mas o substituto acabou desarmado por Réver na hora exata. Os rubro-negros se adiantavam em campo, com os zagueiros trabalhando a partir da linha de meio-campo. Juan, mais uma vez, merecia o destaque pela maneira como orientava a construção do jogo. Terminou a noite como o atleta de mais passes certos, 44 no total.

O Flamengo, de qualquer forma, carecia de criatividade. Dependia demais da bola área, o que era uma fraqueza do Junior, mas não exatamente se aproveitava da melhor maneira. Aos 22, porém, quase o empate saiu. Réver cabeceou firme da entrada da área, para Sebastián Viera voar no canto e operar um milagre. Logo depois, Rueda queimou sua última alteração. Everton Ribeiro, sentindo os problemas físicos recentes, saiu para Lucas Paquetá dar novo gás à linha de frente. O jeito era apostar em vários garotos.

A teimosia, por fim, daria resultado aos 30 minutos. Em mais um escanteio, Trauco mandou para o miolo da área. Juan se antecipou à marcação e mandou no canto. Parecia o herói predestinado para aquela noite, por tudo o que fazia na zaga. E, mais importante, ajudou o Maracanã a se incendiar. Neste momento, a torcida entrou em transe. Passou a fazer bastante barulho, a estourar fogos, a cantar mais alto. Ainda haveria a provação, com a resposta imediata do Junior, com Muralha rebatendo uma bola e outra finalização passando ao lado da meta. Mas, acima dos sustos, era o Fla que crescia. A movimentação de Vinícius Júnior e Paquetá era importante, assim como as subidas de William Arão.

Já aos 36, aconteceu a virada. Vale frisar o papel de Diego no lance, que de novo não fez uma boa partida, mas teve paciência para prender a bola na lateral e clarear a jogada. Encontrou Trauco livre na intermediária, e o peruano cruzou para Arão. Bola inteligentemente ajeitada pelo volante, até que Vizeu se consagrasse. Pouco ativo na maior parte da noite, o centroavante acertou um chute de felicidade imensa, sem deixar a bola cair, no ângulo de Viera. Explodiu o Maraca, que via diante de seus olhos a vitória sair não por qualidade na construção das jogadas ou por organização tática. Era um triunfo da vontade, da insistência, do ímpeto. Da tal raça que cobravam.

Já nos minutos finais, o Flamengo claramente se postou atrás. Chamou o Junior ao ataque. Para sorte, a única vez em que Chará (sempre ele) teve espaço para arriscar, Muralha rebateu e Díaz estava impedido na hora de completar. Os rubro-negros ainda tentaram alguns contra-ataques, com Paquetá fazendo boa jogada individual em um deles, mas não dariam em nada. Ao final, acima da objetividade pelo terceiro gol, sobressaiu o alívio por virar o placar e assegurar a vitória em casa. O resultado que dá um pouco mais de tranquilidade no reencontro no Estádio Metropolitano Roberto Meléndez, certamente pulsante.

A vitória saiu de excelente tamanho por aquilo que o Flamengo produziu. As ameaças foram constantes e, pela fama de alguns jogadores, faltou percepção do jogo para fazer o time crescer, sem se desvencilhar da bem armada defesa do Junior pelo chão. O abafa ao menos deu certo, mas é necessário ter consciência para os problemas na volta. Diego Alves é o maior lamento, sobretudo em um momento no qual o veterano vinha realmente crescendo na meta rubro-negra. Agora, é saber lidar com os velhos temores. Além do mais, os Tiburones partirão para cima em Barranquilla. A proteção nas laterais, por onde caem Chará e González, precisará ser maior. E sem cair na pilha de Teo Gutiérrez, ainda mais à vontade pra provocar.

Na base da consciência, quem desponta mais uma vez é Juan. O líder que pode não ser a voz mais enérgica em campo, mas que dá o exemplo com uma leitura de jogo impressionante. Terá que ser ainda mais onipresente no Estádio Metropolitano. E, conhecendo tantos atalhos em campo, mostrar também o caminho das pedras ao Fla rumo à decisão continental. Uma direção que, no clube, ele é o único que conhece.

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PS: É inadmissível que o Flamengo, em uma semifinal continental, jogue para apenas 41 mil presentes no Maracanã. O estádio inflamou em momentos importantes, mas poderia ter intimidado ainda mais, não fosse o preço exorbitante dos ingressos. Na reta decisiva da temporada, a prioridade precisa ser encher as arquibancadas, não as planilhas.