Julinho Botelho é venerado na maioria dos clubes que defendeu. Em 1996, quando a Fiorentina realizou uma votação para eleger o melhor jogador de sua história, o ponta direita venceu. Também sempre aparece nas equipes de todos os tempos de Palmeiras e Portuguesa. Mas a passagem de um dos maiores craques da década de 1950 pela Seleção mal é lembrada. Não deveria. Por diversas circunstâncias, Julinho deixou de fazer mais do que poderia com a camisa amarela. Ainda assim, o veterano colecionou alguns episódios marcantes na equipe nacional. Certamente se manteve orgulhoso de tais feitos até sua morte, em 10 de janeiro de 2003, há exatos 13 anos. Histórias que merecem ser relembradas.

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Nascido em São Paulo, Julinho passou na base por Juventus e Corinthians, mas estourou mesmo na Portuguesa. Com os verderrubros, conquistou duas edições do Torneio Rio-São Paulo. Tamanho sucesso que o levou à Seleção em 1952, estreando aos 22 anos. No ano seguinte, o ponta direita se firmou entre os titulares e disputou a Copa América, anotando quatro gols nos 8 a 1 sobre a Bolívia – que o ajudaram a terminar o torneio como vice-artilheiro, além de vice-campeão. O sucesso necessário para torná-lo protagonista do time na Copa de 1954.

Ao lado de Djalma Santos, Julinho Botelho terminou o Mundial como um dos poucos brasileiros elogiados internacionalmente. E com motivos. O ponta anotou dois gols nos três jogos da campanha. Duas pinturas. Na estreia contra o México, fechou a goleada por 5 a 0 fazendo fila pela direita, antes de soltar um belo chute cruzado. E ainda balançou as redes do lendário Gyula Grosics, na eliminação para os Mágicos Magiares da Hungria. O paulistano diminuiu a diferença com um petardo da entrada da área, que não adiantou tanto para mudar o desfecho da Batalha de Berna, com vitória dos húngaros por 4 a 2.

Julinho permaneceu com fama na Europa após a Copa. A ponto de ser levado a peso de ouro pela Fiorentina, na maior contratação do clube na época. Valeu o dinheiro. Era o destaque do maior esquadrão já formado pela Viola. Logo na primeira temporada no Artemio Franchi, conquistou o scudetto. Nos dois anos seguintes, o clube terminou a Serie A duas vezes em segundo, enquanto acabou com o vice da Champions, derrotado pelo Real Madrid na final.

Só que o sucesso na Europa também teve sua contrapartida. Julinho era cotado para ser titular do Brasil na Copa de 1958, embora não jogasse pela equipe nacional desde a eliminação em 1954. No entanto, três meses antes do Mundial, escreveu uma carta à CBD. Indicou que não considerava pertinente a sua convocação, diante das dificuldades em participar da preparação do elenco. “Meu contrato com a Fiorentina termina na dependência do último encontro do certame italiano. Dessa forma, não poderei participar dos treinos. Deve, portanto, a entidade meditar sobre a situação, porque é imensa a responsabilidade das duas partes. Ainda mais porque acho que o atleta deve estar integrado ao plantel e suficientemente preparado com os demais companheiros”, afirmou o atacante. Dias depois a CBD anunciou a decisão de dispensar os serviços de Julinho, levando Garrincha e Joel para a Suécia.

julinho garrincha

Ainda em junho, Julinho Botelho voltou ao futebol brasileiro. Por razões particulares resolveu retornar ao país, ainda que a Fiorentina pretendesse seguir contando com os serviços do craque. Acabou levado pelo Palmeiras, que começava a formar a sua Academia. Arrebentando com os alviverdes, o ponta recebeu novamente uma chance na seleção em maio de 1959. O jogo mais emblemático de sua carreira, enfrentando a Inglaterra no Maracanã abarrotado.

Antes da partida, Vicente Feola deixara sua dúvida entre escalar Garrincha ou Julinho. Optou pelo paulista, deixando os 130 mil presentes nas arquibancadas furiosos. O jogador do Palmeiras começou a ser vaiado pela multidão. Mas o público logo percebeu seu erro, já que também poderia ver o espetáculo do novo ponta direita. Provocado, Julinho começou a abusar dos dribles e precisou de apenas quatro minutos para abrir o placar com um golaço. Motivo o suficiente para que, então, começasse a ser aplaudido. Não parou mais. Entortou os marcadores e ainda participou do gol de Henrique, que definiu a vitória por 2 a 0.

“Se eu ficasse na reserva, estaria feliz e com muita honra. Garrincha é o maior ponta brasileiro, o homem que deslumbrou plateias na Europa. Não seria desonra ser seu suplente. Entretanto, a torcida não compreendeu que poderia jogar ele ou eu. Éramos os dois da posição. Preferiram-me”, respondeu após o jogo, em entrevista ao Última Hora. “Confesso que recebi profundamente consternado as vaias da torcida. Fiquei triste. Vi que me esqueceram depressa, pelo tempo que fiquei fora do scratch. Mas a vaia não me liquidou. Serviu-me de estímulo. Parti para a reação. Fiz o gol para o time, embora servisse para reconquistar a simpatia do público. Não dei show para me vingar. Joguei para mostrar que ainda não acabei e podia ser útil ao time”.

A partir de 1960, Julinho voltou a se tornar nome costumeiro na Seleção, quase sempre se alternando com Garrincha – embora também tivesse a concorrência de Dorval e Sabará. Entretanto, perdeu a chance de disputar a Copa de 1962. O ponta iniciou a preparação ao Mundial do Chile, mas uma distensão muscular o obrigou a pedir dispensa do elenco pré-selecionado. De novo, viu de longe o sucesso de Mané, desta vez com Jair da Costa na reserva. Julinho ainda faria mais três jogos pelo Brasil, já em final de carreira, entre 1964 e 1965. Mais uma vez causou pesadelo nos ingleses, marcando um dos gols na goleada por 5 a 1 na Taça das Nações. Encerrou sua carreira com a Seleção somando 31 partidas e 12 gols. E a honra de ter feito grandes partidas, mesmo sem poder brilhar no bicampeonato mundial.

Vale conferir também as reportagens do Correio da Manhã sobre a atuação de Julinho contra a Inglaterra. Clique em “abrir em nova aba” para ampliar as imagens, cedidas pelo amigo e jornalista Emmanuel do Valle:

correio da manhã - 14 de maio 1959

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