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Juninho fazia bem ao futebol, e nós mostramos o porquê

Uma das trajetórias mais respeitáveis do futebol brasileiro termina de ser escrita. O Vasco confirmou a aposentadoria de Juninho Pernambucano, pronto para fazer seu anúncio oficial na próxima semana. Aos 39 anos, o meia encerra a carreira após 20 anos na elite, com 29 títulos conquistados e mais de 800 partidas disputadas. Entre os maiores da história do Vasco e do Lyon, amado também no Sport e no Al Gharafa, presente em uma Copa do Mundo defendendo a seleção brasileira.

Juninho merece aplausos por diversas razões. A classe dentro de campo é a mais óbvia. A quantidade de feitos, outra. E as várias provas de caráter também o marcam, dono de uma leitura de mundo pouco comum dentro do futebol. Por tudo isso, listamos oito razões que, além de engrandecerem o veterano, também demonstram como ele fazia bem ao esporte:

Porque ele reinou em um dos maiores clubes do Brasil

Seis títulos em seis anos. Se o Sport revelou Juninho, foi no Vasco que o meia se tornou um craque, vivendo o período mais vitorioso da história do clube. O pernambucano chegou à Colina com 20 anos. Teve tempo suficiente para amadurecer e assumir o protagonismo do time, conquistando um Carioca, um Rio-São Paulo, dois Brasileiros, uma Mercosul e uma Libertadores – que o consagrou graças ao gol decisivo contra o River Plate na semifinal. Só faltaram mesmo os Mundiais, Interclubes e da Fifa, em duas finais em que Juninho se empenhou bastante. No entanto, não foram esses percalços que diminuíram a imagem do ídolo para os cruzmaltinos.

Porque ele respeitava a sua torcida

Uma das cenas mais tristes da história do Vasco ocorreu na decisão da Copa João Havelange. A queda do alambrado de São Januário deixou dezenas de feridos. Ainda assim, mesmo com várias pessoas estiradas no gramado, alguns jogadores cruzmaltinos tiveram a audácia de pegar o troféu e dar a volta olímpica quando a suspensão do jogo foi confirmada. Juninho Pernambucano foi um dos poucos que se recusaram a festejar, tanto em respeito às vítimas quanto por esperar uma decisão oficial. Sua comemoração só veio dias depois, quando o confronto com o São Caetano foi retomado no Maracanã.

Notícia do dia seguinte à final suspensa da Copa João Havelange (Reprodução)

Notícia do dia seguinte à final suspensa da Copa João Havelange (Reprodução)

Porque ele ajudou a transformar um médio em gigante na França

Até 2001, os maiores orgulhos do Lyon eram os três títulos da Copa da França, o último deles conquistado em 1973. Naquele ano, Juninho desembarcou em Gerland. E os Gones foram heptacampeões da Ligue 1. Obviamente, o craque do time não era o único responsável pela transformação. Mas teve sim papel central em tornar o clube, até então mediano, no mais dominante da história do futebol francês. É o sétimo com mais aparições (344 jogos) e o quarto maior artilheiro (100 gols). O último ano de Juninho foi o único sem botar a faixa de campeão, depois de levantar 14 taças nas sete temporadas anteriores.

Porque ele cobrava faltas como ninguém

Juninho foi um dos melhores cobradores de falta das últimas décadas. Para alguns, ainda mais do que isso. Segundo Ken Bray, físico especialista em futebol, o brasileiro foi o melhor da história. O estudioso avalia que nenhum outro foi tão versátil quanto ele, ninguém mais sabia aplicar diferentes efeitos sobre a bola com tanta perícia. A maneira como ele se posicionava e chutava eram únicos. Juninho conseguia aliar precisão e força em seus arremates, letais a qualquer distância.  Os mais de 70 gols de falta na carreira apenas servem para reforçar a teoria de Bray.

Porque ele se orgulhava de suas origens

A torcida do Sport alimentou certa mágoa de Juninho em sua volta ao Brasil, por sua opção pelo Vasco – e o meia chegou até a fazer gestos obscenos aos rubro-negros, quando foi hostilizado durante jogo do Brasileiro de 2012. A paz, no entanto, foi recuperada no ano passado, em sua última partida profissional no Recife, contra o Náutico. Os vascaínos fizeram sua preparação na Ilha do Retiro e o veterano reafirmou seu afeto pela antiga casa e por sua cidade natal. “É sempre especial e passa aquele filme na cabeça. Já tenho 20 anos como profissional e saí do Recife há muito tempo, mas é sempre bom ser recebido dessa forma. Não foi assim no ano passado, mas o carinho sempre foi muito grande”, afirmou. Por isso mesmo, nunca se desapegou do apelido ‘pernambucano’, que carregou durante a maior parte da carreira.

Porque poucos deram tanta importância à camisa da Seleção

Juninho só teve chance de disputar uma Copa. Era um dos nomes mais tarimbados em 2006, embora fosse reserva. Quando ganhou sua chance, porém, demonstrou uma vontade exemplar. Vibrou demais ao marcar na goleada por 4 a 1 sobre o Japão. Já contra a França, o meia chorou durante a execução do hino nacional e não escondeu sua insatisfação com a derrota. “É uma enorme decepção, principalmente porque não jogamos no nível que deveríamos jogar. A tristeza no Brasil me preocupa. Estamos tão tristes quanto todos os que estão no Brasil”, declarou na época, anunciando também sua aposentadoria da seleção: “Para mim já deu”.

Já no ano passado, em seus últimos dias na apagada passagem pelo New York Red Bulls, Juninho sugeriu até mesmo que a seleção cantasse o hino de costas para a bandeira durante a Copa das Confederações, em prol das manifestações que ocorriam no país: “Penso que o futebol tem que participar disto tudo. Seria uma grande oportunidade para os jogadores mostrarem que estão acreditando na mudança do nosso país. Assim, mostrariam que entendem que o futebol não é mais importante que o povo brasileiro. Seria um gesto de solidariedade em um momento de esperança numa real mudança”.

Porque ele não quis explorar ninguém em sua volta ao Brasil

Tanto no início de sua segunda passagem pelo Vasco quanto na terceira, Juninho recebeu apenas o salário mínimo. Isso mesmo, cerca de R$ 600 por mês. A realidade que é comum para muitos trabalhadores espanta em meio às fortunas pagas na elite de futebol. “Eu e o Vasco somos parceiros, na alegria e na tristeza. Eu volto para ganhar um salário mínimo, porque preciso ser justo com o torcedor. Tenho que dar resultado e, se acontecer, sou premiado”, afirmou em 2011. Somente a partir de 2012, quando o alto rendimento estava mais do que provado, é que ele passou a ganhar um salário condizente ao seu talento.

Porque ele jogava demais

Bom, nenhuma dúvida quanto a isso, não é? Passes precisos, visão privilegiada, ótimo senso tático. O vídeo abaixo mostra todas as ações do meia na partida contra o Real Madrid, pela Liga dos Campeões, considerada uma das melhores de sua carreira – naquele ano de 2005, foi o 12º na eleição da Bola de Ouro, à frente até de Zidane. Uma atuação para admirar tanto talento. E, a partir de agora, também para sentir saudades.