O Tottenham fez duas grandes partidas contra a Juventus. Em termos matemáticos, foi superior em períodos muito maiores que a adversária. Conseguiu o empate em Turim, depois de estar perdendo por 2 a 0, e abriu vantagem em Wembley, abafando e dominando um dos maiores clubes do mundo. Mas em um lapso curto, de três ou quatro minutos, sofreu os dois gols que o eliminaram da Champions League. Um lapso é tudo que a Juventus precisa para subir em cima dos seus adversários. É um time experiente, organizado e capaz, acostumado às grandes ocasiões. E, nesse lapso, virou o jogo de volta para 2 a 1 e avançou às quartas de final.

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Foi cruel com o Tottenham, que apresentou um belo futebol a competição inteira. Até liderou o seu grupo, à frente do atual bicampeão europeu, o Real Madrid. Mas, na hora decisiva, não conseguiu competir, em postura, no mesmo nível da Juventus. Ao contrário de Turim, quando não se deixou abater pelos dois gols que sofreu no começo da partida e buscou o empate. Essa oscilação é natural. Trata-se de uma equipe jovem, com pouca experiência europeia. A eliminação dói, mas serve de lição para confrontos como este. É assim que se desenvolve uma equipe vencedora.

A Juventus entrou em campo com  três zagueiros, Barzagli, Chiellini e Benatia, como foi contra a Lazio, no último fim de semana. Mas, ao contrário da partida pelo Campeonato Italiano, Lichtsteiner ficou no banco de reservas, e não houve um ala direito definido. Em certos momentos, Barzagli abria como lateral em uma linha de quatro na defesa. Em outros, Khedira aparecia pelo setor para ajudar na saída de bola e na marcação. Na esquerda, jogou Alex Sandro, este sim lateral ou ala de origem.

Estava muito fácil entrar pelos lados. Principalmente pela esquerda, onde Son teve duas grandes oportunidades de marcar. Mas na direita também, onde Trippier teve muita liberdade. A combinação entre os dois havia exigido a primeira grande defesa de Buffon na partida, em uma cabeçada do sul-coreano, completando o cruzamento do lateral direito. Em outra jogada, Son recebeu livre, avançou em direção à grande área, pedalou para cima de Chiellini e bateu cruzado com perigo.

A facilidade que o Tottenham tinha de entrar pelos lados não significa que não houve jogo pelo meio. Dele Alli descolou um bom passe para Kane, que ganhou de Chiellini no corpo, driblou Buffon e chutou para fora. E foi por ali que começou a jogada do gol. Kane voltou à linha central e tocou para Eriksen, que tocou para Alli. Buffon saiu para abafar, e o rebote ficou com Trippier, que cruzou para Son. O sul-coreano chutou mascado e deu um pouco de sorte. A bola adquiriu um efeito meio maluco que enganou Chiellini, preparado para bloquear. De qualquer maneira, novamente Trippier e Son tiveram muita liberdade pelos lados para completar a jogada iniciada pelo meio.

Para quem precisava fazer gols de qualquer maneira, para vencer ou para empatar com mais tentos marcados fora de casa, a Juventus teve uma produção ofensiva muito ruim na etapa inicial. A primeira finalização surgiu apenas depois do gol de Son, por volta dos 40 minutos, com Pjanic de fora da área. Alex Sandro ainda cabeceou com certo perigo. A Velha Senhora reclama de um pênalti de Vertonghen em Douglas Costa. O belga tentou o desarme com um carrinho. Em um primeiro momento, não parece tocar o brasileiro, mas, no fim do movimento, suas chuteiras derrubam Costa.

Allegri esperou os 15 minutos do segundo tempo para fazer a correção. Nesse período, havia conseguido acrescentar apenas mais uma finalização ao seu cartel, um chute para fora de Dybala. Reforçou a marcação nas duas laterais, com Asamoah na esquerda, adiantando Alex Sandro, e Lichtsteiner na direita. No ataque, ofereceu um pouco mais de amplitude à Juventus, que passou a ter saídas melhores pelos flancos.

Outro fator importante foi o despertar da dupla de ataque. Dybala movimentou-se muito bem, e Higuaín fez o que dele se espera. Dybala flutuou para a direita e deu o passe para Lichtsteiner cruzar. Khedira desviou de cabeça e Higuaín apareceu para completar. Três minutos depois, Chiellini encontrou Higuaín na intermediária. O centroavante fez um belo trabalho de pivô e soltou no buraco criado por Sánchez, que abandonou a linha de quatro para pressionar Higuaín. Dybala projetou-se, auxiliado por Trippier, que preferiu levantar o braço para pedir impedimento em vez de pressionar o adversário, entrou na área e bateu alto, sem chances para Lloris – que poderia ter saído do gol com mais velocidade para fechar os ângulos do atacante.

O Tottenham tentou bravamente marcar o gol que levaria a partida para a prorrogação. Pressão total por aproximadamente 15 minutos. Mas a Juventus defendeu-se muito bem. Os ingleses conseguiram uma boa chance em virada de jogo para Son, que emendou de primeira para Kane. Chiellini apareceu com um corte providencial. Em cruzamento de Davies, Kane, em posição de impedimento, cabeceou para baixo e acertou a trave de Buffon. O rebote pulou em cima da linha antes de ser cortado. Pochettino colocou Llorente para reforçar sua presença de área e esticar as bolas, sem conseguir muitos resultados concretos.

As alterações táticas melhoraram a Juventus, mas o preponderante foi o aproveitamento de um breve momento em que o Tottenham reduziu a sua intensidade e nível de concentração, espelhados na liberdade de Higuaín no primeiro gol e de Dybala no segundo. A Juventus, ao contrário, manteve-se com o pé no acelerador o tempo inteiro, aguardando a oportunidade para abocanhar o adversário. Uma postura que equipes acostumadas aos grandes jogos conseguem encarnar com mais naturalidade. É prática. Quando se fala em  “peso de camisa”, fala-se em um clube com cultura de vitórias criando e desenvolvendo jogadores com mentalidades vitoriosas, se retroalimentando em um grande ciclo. Sem ignorar outros fatores importantes de uma partida de futebol, alguns até mais, mas este também é um deles. E dá para achar com facilidade exemplos melhores do que Juventus, Buffon, Chiellini e companhia?