KAISERSLAUTERN, GERMANY - MAY 02:  FUSSBALL: 1. BUNDESLIGA 97/98 KAISERSLAUTERN - WOLFSBURG 4:0 am 02.05.98, KAISERSLAUTERN DEUTSCHER MEISTER 1998/TEAM und Trainer Ottto REHHAGEL  (Photo by Bongarts/Getty Images)

Kaiserslautern subiu da segundona para desbancar timaços e ser campeão logo de cara

A façanha do Kaiserslautern não é tão rara assim. Olhando para o passado das cinco grandes ligas europeias, nove equipes conseguiram emendar o acesso na segunda divisão ao título na primeira – cinco na Inglaterra e três na França. No entanto, em outros tempos, quando a concorrência era bem mais modesta e os milhões de euros estavam longe de pesar tanto no que acontecia dentro de campo. O último deles, o Nottingham Forest de Brian Clough em 1977, que ainda assim era considerado um verdadeiro milagre. Por isso mesmo, o que os alemães conseguiram foi tão espantoso.

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O Kaiserslautern tinha camisa e um elenco de respeito, que conquistara a Bundesliga no início dos anos 1990. O rebaixamento dos alvirrubros em 1996 já foi um susto, até pela qualidade dos jogadores. A conquista da segundona era praticamente uma obrigação. Mas o quarto título alemão do clube parecia impossível, até pelo cenário que se desenhava. Os grandes candidatos eram Bayern de Munique e Borussia Dortmund, então donos da Bundesliga e da Champions League.

Entretanto, os Diabos Vermelhos foram muito além das expectativas. O time treinado por Otto Rehhagel liderou por 30 das 34 rodadas, não sucumbiu à pressão dos gigantes e ainda botou a faixa no peito com uma rodada de antecedência. Um feito e tanto, ainda mais nas perspectivas atuais, em que a Lei Bosman e o dinheiro dos direitos de TV distribuem tantas cartas no jogo.

O passado de glórias havia voltado

Fundado em uma pequena cidade do oeste da Alemanha, o Kaiserslautern foi o resultado das sucessivas uniões dos clubes da região. No entanto, os alvirrubros eram pouco significantes dentro do futebol alemão até a década de 1930. Mais uma fusão, combinada com a reforma do futebol local durante o nazismo, permitiu a ascensão dos Diabos Vermelhos, que se tornaram potência local e passaram a disputar o título nacional. Mesma época em que surgia na base do clube Fritz Walter, atacante talentoso nascido na cidade.

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Só depois da Segunda Guerra Mundial, porém, é que o Kaiserslautern conseguiu se estabelecer como um grande clube nacional. Paraquedista e prisioneiro soviético durante os conflitos, Walter se recuperou de uma malária para comandar o Kaiserslautern rumo aos títulos de 1951 e 1953 – um ano antes de ser o capitão da seleção alemã na conquista da Copa de 1954, ao lado de outros quatro companheiros de clube. Porém, a aposentadoria da geração dourada fez com que o time se afastasse do topo. Fundadores da Bundesliga em 1963, os alvirrubros se firmavam como time de meio de tabela. Até a década de 1980, nunca tinham ido além da terceira posição.

Fritz Walter, com a Jules Rimet nas mãos

Fritz Walter, com a Jules Rimet nas mãos

A primeira vez que o Kaiserslautern surpreendeu na Bundesliga foi em 1990/91. Nos anos anteriores, os alvirrubros se mantiveram distantes até mesmo da disputa pelas vagas na Copa da Uefa, mas tinham demonstrado potencial ao vencerem a Copa da Alemanha em 1990. Já no ano seguinte, a equipe comandada por Karl-Heinz Feldkamp se encaixou ainda mais. Os Diabos Vermelhos não largaram a liderança a partir da 22ª rodada e desbancaram o Bayern, dono de cinco dos seis títulos anteriores. Como consequência, os bávaros tiraram dos rivais o atacante Bruno Labbadia, um dos destaques na campanha vitoriosa.

Por mais que a base do elenco tenha se mantido, o Kaiserslautern não conseguiu repetir o sucesso nos anos seguintes. Eliminados pelo Barcelona nas preliminares da Champions League, os alvirrubros seguiram na parte de cima da tabela durante as quatro temporadas seguintes. Em 1993/94, foram vice-campeões. Última alegria até que o desastre acontecesse.

A reconstrução a partir de baixo

O desmanche do bom elenco do Kaiserslautern foi gradual na primeira metade da década de 1990. Os grandes clubes do país continuavam levando os destaques do elenco, como Uwe Scherr (Schalke 04), Guido Hoffmann (Bayer Leverkusen) e Marcel Witeczek (Bayern). Mas as maiores perdas ficaram para a temporada 1995/96. Craque do título de 1991, Stefan Kuntz se encaminhava para o fim de carreira e seguiu para o Besiktas. Sem o veterano, a principal liderança técnica era Ciriaco Sforza, que também acabou atraído pelos milhões do Bayern, na terceira maior negociação do futebol alemão daquela temporada.

Com dinheiro em caixa, o Kaiserslautern não gastou tanto de início e os reforços estavam longe de satisfazer. Com apenas três vitórias durante todo o primeiro turno, a equipe já deixava claro que era candidata ao rebaixamento. Na janela de inverno, os dirigentes até tentaram mudar os rumos, investindo alto no meia Arílson, um dos destaques do Grêmio campeão da Copa Libertadores de 1995. Porém, o jogador brasileiro mais caro do futebol alemão até então não vingou no Estádio Fritz Walter. Os Diabos Vermelhos despencaram ainda mais na tabela e acabaram rebaixados, na antepenúltima posição.

Miroslav Kadlec esteve nos dois títulos do Kaiserslautern

Miroslav Kadlec esteve nos dois títulos do Kaiserslautern

De qualquer forma, a própria temporada da degola deixava clara a capacidade do Kaiserslautern em surpreender. O time treinado por Eckhard Krautzun se sagrou campeão da Copa da Alemanha naquele mesmo ano. Depois de eliminar o Schalke 04 e o Bayer Leverkusen nas fases anteriores, o clube derrotou o Karlsruher na decisão, com Martin Wagner anotando o gol da vitória por 1 a 0. Ainda que a principal preocupação fosse o retorno à elite da Bundesliga, os alvirrubros se classificaram para a Recopa Europeia.

Um dinossauro da Bundesliga para comandar o retorno

Não foi o rebaixamento que desmanchou o elenco do Kaiserslautern. Algumas peças pontuais saíram, como o próprio Arílson, enquanto o clube também se reforçou com moderação, trazendo nomes como o veterano Wynton Rufer e o desconhecido brasileiro Ratinho. O mais importante é que os principais jogadores que caíram com os alvirrubros permaneceram para ajudar o time a se reerguer. Entre eles, muitos medalhões, como Andreas Brehme, Olaf Marschall, Pavel Kuka, Alex Roos e Miroslav Kadlec – os dois últimos, remanescente do título de 1991. O acesso não parecia problema.

As principais mudanças aconteceram no comando. Hubert Kessler se tornou o presidente e trouxe o craque aposentado Hans-Peter Briegel, jogador do clube entre as décadas de 1970 e 1980, para ser o diretor esportivo. Já o novo técnico era outro velho conhecido da casa, Otto Rehhagel. Zagueiro do clube por sete anos, o comandante tinha feito carreira no Werder Bremen, com o qual tinha sido duas vezes campeão alemão. No entanto, o veterano estava em baixa após uma passagem de nove meses pelo Bayern, onde seus métodos centralizadores não foram bem aceitos pelos astros, especialmente Klinsmann e Matthäus. O trabalho no Estádio Fritz Walter também era a chance de Rehhagel refazer o seu nome.

Rehhagel ergue a Salva de Prata

Rehhagel ergue a Salva de Prata

O Kaiserslautern foi eliminado logo na primeira fase da Recopa Europeia, caindo para o Estrela Vermelha de Dejan Stankovic. Na segunda divisão alemã, ao menos, o clube nadou de braçada e conquistou o título. Dono do melhor ataque e da melhor defesa, o time de Rehaggel fechou a campanha com 10 pontos de vantagem para Wolfsburg e Hertha Berlim, os outros dois que conseguiram o acesso. Na última rodada, a festa ficou completa com a vitória épica por 7 a 6 sobre o Meppen. Pavel Kuka foi o artilheiro da equipe, com 14 gols. Já outro veterano que brilhou foi Brehme, autor do gol do título da seleção alemã na Copa de 1990.  Aos 36 anos, o lateral fez a sua última temporada em alto nível.

Mais importante nesse processo de recuperação é que a torcida não abandonou o clube. A média de público no Estádio Fritz Walter tinha passado dos 30 mil espectadores por jogo pela primeira vez em 1990. O ápice foi em 1994/95, com 37,2 mil pagantes de média. E, mesmo na segundona, os alvirrubros registraram sua segunda maior marca até então, com 36,7 mil pessoas por jogo. Tanto quanto manter a atmosfera nas arquibancadas, os torcedores também garantiam um bom aporte financeiro para os Diabos Vermelhos.

Como a surpresa se formou

O Kaiserslautern retornou à primeira divisão com uma equipe cotada para passar longe da briga contra o rebaixamento. Mas que, no entanto, também não era vista para brigar pelo título. Sem sofrer grandes desfalques, o elenco ganhou bons reforços logo de cara. A maior contratação foi, na verdade, o retorno de um antigo ídolo. Sforza não se firmou no Bayern de Munique e foi repassado à Internazionale na temporada. O suíço voltava ao Estádio Fritz Walter para ser não apenas o dono do meio-campo, como também para assumir a braçadeira de capitão depois que Brehme passou a ficar no banco de reservas.

Sforza era o capitão e o cérebro daquele Kaiserslautern

Sforza era o capitão e o cérebro daquele Kaiserslautern

No mais, vários negócios certeiros dos Diabos Vermelhos. O meio-campo também ganhou Marian Hristov, reserva da seleção búlgara, e Andreas Buck, bastante rodado pelo Stuttgart. A aposta mais arriscada era em um garoto de 20 anos que havia arrebentado na terceira divisão com o Chemnitzer: ninguém menos do que Michael Ballack. O meia não chegava como titular absoluto ao time de Rehhagel, mas foi um acréscimo primoroso.

O problema é que, no papel, o Kaiserslautern passava muito longe das grandes forças da Bundesliga naquela temporada. Favorito de praxe, o Bayern buscava o bicampeonato com um elenco recheado de craques. Matthäus era o dono do time, muito bem acompanhado por Oliver Kahn, Élber, Basler e Lizarazu – a mesma base que seria vice-campeã da Champions na temporada seguinte. O então dono da Europa era o Borussia Dortmund, com um timaço estrelado por Chapuisat, Möller, Kohler e Sammer, embora tenha perdido alguns nomes importantes. Com Kirsten e Paulo Rink no ataque, o Bayer Leverkusen vinha em ascensão. Já o Stuttgart tinha sido um dos destaques do mercado, fechando com Murat Yakin e Akpoborie.

O primeiro sinal de que o título era possível

Apesar da forte concorrência, o Kaiserslautern provou que poderia surpreender a todos logo na primeira rodada. Os alvirrubros tinham pela frente um dos jogos mais difíceis da temporada, visitando o Bayern no Estádio Olímpico de Munique. E conseguiram arrancar a inesperada vitória por 1 a 0 contra o time de Giovanni Trapattoni. Os visitantes seguraram a pressão durante a maior parte do tempo e garantiram o triunfo aos 35 do segundo tempo, com um gol do zagueiro Michael Schjonberg, de cabeça.

“Nós percebemos que poderíamos competir com qualquer um. Pode até parecer estúpido, mas as muitas vitórias que tivemos na segunda divisão nos deixaram acostumados a vencer, e só queríamos seguir com isso”, analisou Schjonberg, em entrevista à revista 11 Freund. E a sequência consistente dos Diabos Vermelhos logo de início os colocou na liderança na quarta rodada, após passarem por cima do Schalke 04 de Jens Lehmann e Marc Wilmots. Vitória por 3 a 0, com show de Marschall e Sforza, que já se destacavam como protagonistas da equipe. O time de Rehhagel sequer tinha sofrido gols na liga.

Olof Marschall anotou 21 gols em 24 jogos naquela campanha

Olaf Marschall anotou 21 gols em 24 jogos naquela campanha

A partir daquele momento, o Kaiserslautern não largou mais a primeira posição. A equipe somou seis vitórias e um empate nas sete primeiras rodadas, batendo também o forte Stuttgart por 4 a 3, com direito a hat-trick de Marschall. Ao longo do primeiro turno, os alvirrubros sofreram apenas duas derrotas para, Hertha e Werder Bremen. O ataque, sobretudo, estava inspirado naquela arrancada: foram 38 gols anotados em 17 jogos, balançando as redes pelo menos três vezes em oito partidas. Sozinho, o artilheiro Marschall acumulou 13 tentos em 13 rodadas.

Como funcionava a equipe de Rehhagel

A consistência do Kaiserslautern começava pela sólida defesa montada por Otto Rehhagel, uma constante nos trabalhos do treinador. A preferência era por uma equipe que tivesse bastante força física e altura em sua linha defensiva, além de um ataque com presença de área e velocidade para explorar os lados do campo. E por mais que os alvirrubros tenham tomado mais gols do que deveriam em algumas partidas, o entrosamento ofensivo compensou.

A base era armada pelo técnico no 3-5-2, que por vezes se tornava um 4-4-2 com quatro zagueiros. No gol, Andreas Reinke vinha de quatro temporadas como titular no clube. A segurança do arqueiro era garantida pela linha de três zagueiros, liderada por Miroslav Kadlec. O capitão da seleção tcheca se aproveitava da boa leitura de jogo para atuar como líbero. Seu parceiro de maior renome era Schjonberg, titular da Dinamarca na Copa de 1998, junto de Harry Koch. Todos em perfeita sintonia, em campo por pelo menos 31 das 34 rodadas.

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No meio-campo, Sforza tornou-se o principal vértice, garantindo o equilíbrio e a qualidade nos passes. O suíço era acompanhado na faixa central por Axel Roos, veterano do Stuttgart trazido para ser o principal cão de guarda na cabeça de área, além do meia brasileiro Ratinho, revelado pelo Atlético Paranaense e que havia feito seu nome na Europa jogando por clubes suíços. O setor mais bem servido do time ainda tinha boas opções no banco com Hristov e Ballack. E as jogadas de lado de campo eram garantidas pelos alas Andreas Buck e Martin Wagner, ambos com boa capacidade ofensiva.

Já no comando do ataque, o nome intocável era o de Marschall, autor de 21 gols em 24 aparições. O veterano de 31 anos parecia ter saído de outros tempos do futebol alemão, o típico tanque que dominava a área e tinha um senso de oportunismo imenso. Porém, apesar da fase esplendorosa que o goleador vivia, suas lesões permitiram uma boa rotação entre os seus parceiros. Camisa 9 da seleção tcheca, Kuka era o companheiro mais tarimbado, mas acabou perdendo espaço para Jürgen Rische, atacante de maior mobilidade que anotou gols importantes na reta final da campanha.

A ameaça constante do Bayern

O Kaiserslautern iniciou o returno ainda em 1997. E venceu mais uma vez o Bayern de Munique, anotando 2 a 0 no Estádio Fritz Walter, com gols de Hristov e Dietmar Hamann (contra). Ainda que tenha perdido na rodada seguinte para o Hertha Berlim, a equipe conseguiu fechar o ano com quatro pontos de vantagem sobre os bávaros. Terceiro colocado, o Stuttgart já aparecia nove pontos atrás, enquanto o Borussia Dortmund fazia temporada sofrível no meio da tabela.

Todavia, mesmo com a pausa de inverno, os Diabos Vermelhos sofreram com a ausência de Marschall. O artilheiro teve uma sequência de lesões que o afastou do time entre novembro e março. Sem o veterano em sua melhor forma mesmo quando retornou ao time, os líderes começaram a patinar. Entre a 24ª e a 30ª rodada, acumularam cinco empates e só uma vitória em sete partidas. A sorte é que o Bayern também havia passado por maus bocados no início de março, mas, depois de ficarem a nove pontos de distância, já aparecia a dois.

Sem margem para o erro, o Kaiserslautern deu sua guinada rumo ao título nas quatro rodadas finais. Justamente quando Marschall recuperou sua fome de gols. Em um jogo histórico no Fritz Walter, o artilheiro buscou uma virada sensacional contra o Borussia Mönchengladbach. Os visitantes abriram dois gols de vantagem, mas o veterano balançou as redes três vezes, fechando o triunfo por 3 a 2 aos 45 do segundo tempo.

Na 32º rodada, o Bayern voltou a ficar dois pontos atrás após o empate dos Diabos Vermelhos com o Arminia Bielefeld, que tinha atrapalhado os próprios bávaros dias antes. Já a consagração aconteceu mesmo em Kaiserslautern, contra o Wolfsburg. Os anfitriões não tiveram piedade no duelo contra os Lobos e enfiaram 4 a 0, com Marschall mais uma vez brilhando ao anotar dois gols. Acabou sendo suficiente para que o time de Rehhagel ficasse logo com a taça, depois que o Bayern não saiu do 0 a 0 contra o Duisburg.

O título que também curou o mito

Entre os torcedores em transe com a conquista inesperada, Fritz Walter. O craque não pôde estar presente nas arquibancadas do estádio ao qual emprestou o nome a partir de 1985. Sequer viu o jogo pela televisão. Aos 77 anos, o ídolo sofria com uma grave bronquite e, de tão ansioso, preferiu não assistir para não agravar ainda mais a sua saúde. Permaneceu na cama, mas pediu à esposa que comemorasse bastante a cada gol dos alvirrubros. Foram quatro gritos chorosos de Italia, em pensar na melhora do marido diante de toda aquela situação. Até as lágrimas finais com a confirmação da façanha. Inexplicavelmente, Walter se sentia bem melhor e ficou curado da doença pouco tempo depois. Pronto para comemorar.

O Kaiserslautern fechou a campanha empatando com o Hamburgo, em uma rodada na qual o Bayern goleou inutilmente o Borussia Dortmund por 4 a 0 e amargou o vice-campeonato, dois pontos atrás. Ao longo da campanha, os Diabos Vermelhos sofreram apenas duas derrotas e tiveram seu grande trunfo nos jogos em casa. Dentro do Estádio Fritz Walter, foram 13 vitórias em 17 partidas, com excelente aproveitamento de 84% dos pontos disputados. Já fora, Rehhagel prezou por um time matreiro, capaz de segurar nove empates e ser derrotado apenas duas vezes.

Depois da conquista, o técnico ficou conhecido como “Rei de Kaiserslautern”. Se em Munique ele tinha entrado em colisão com os medalhões, Rehhagel conseguiu estabelecer um ambiente bem mais paternal nos vestiários dos alvirrubros. Montou um time que seguisse à risca as suas ordens, com todos muito empenhados taticamente. O senso coletivo é elogiado até hoje pelos veteranos daquele elenco. “Foi um time que beirou a perfeição”, definiu tempos depois Marshall, em entrevista à revista 11 Freund.

O fim da consistência

O Kaiserslautern parecia seguir no mesmo nível para a temporada seguinte. Perdeu peças importantes com as saídas de Kadlec e Kuka, mas manteve a base. No entanto, não foi possível manter o desempenho tão alto por dois anos, ainda mais dividindo as atenções com a Champions. Os alvirrubros até começaram bem na competição continental, passando por Benfica, PSV e Helsinki na fase de grupos. O problema foi cruzar com o Bayern nas quartas de final. Os bávaros avançaram com 6 a 0 no placar agregado, goleando por 4 a 0 fora de casa.

Já na Bundesliga, o Kaiserslautern voltou ao posto que se esperava, fazendo um bom papel, mas longe das chances de título. O time terminou em quinto em 1998/99, de fora da Copa da Uefa apenas pelos critérios de desempate.  Posição mantida na temporada seguinte, quando ainda se reforçou com Youri Djorkaeff e Mario Basler, embora tenha vendido Ballack para o Bayer Leverkusen. A virada da década, todavia, marcou o declínio dos alvirrubros.

Ballack

Ballack defendeu o Kaiserslautern por duas temporadas

O reinado de Rehhagel tinha se perdido, acabando com diversos conflitos internos. Em outubro de 2000, o técnico optou por sua demissão, pouco antes de assumir a seleção grega e fazer história ao conquistar a Eurocopa. Já o Kaiserslautern se tornou um time de meio de tabela e, a partir de 2002, seguiu em constante fuga do rebaixamento. Mesmo dando espaço para algumas jovens promessas, como Klose, Weidenfeller, Lincoln e Wiese, o Kaiserslautern passou a sofrer com sérios problemas financeiros. Os gastos com a reforma do Estádio Fritz Walter para a Copa de 2006 quase levaram os alvirrubros à falência. As metas se tornaram bem mais modestas nos anos 2000.

Com apenas duas temporadas na primeira divisão desde 2006, o Kaiserslautern é outra vez candidato ao acesso à Bundesliga neste ano. Mas nada que faça acreditar em um milagre parecido com aquele que aconteceu há 16 anos. Querer ser campeão de duas divisões diferentes em sequência já parece loucura suficiente, quanto mais competindo com os times milionários de Bayern e Dortmund. Já basta ter conseguido o impossível uma vez.