Você trocaria um dos grandes times da Europa e do mundo para apostar em um projeto ainda incipiente de um clube médio que se tornou rico? Kaká decidiu que não. Em entrevista à revista inglesa Four Four Two de novembro, o brasileiro revela que a proposta do Manchester City em 2009 oferecia salários enormes, mas que ele achou melhor continuar no Milan, pelo qual tinha sido campeão europeu em 2007 e eleito o melhor do mundo.

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“As negociações avançaram muito”, afirmou Kaká, na entrevista à Four Four Two de novembro. “Chegou ao ponto onde todos os números e os detalhes foram discutidos. Os salários que me ofereceram eram muito, muito maiores dos que eu ganhava no Milan”, contou o brasileiro.

“Eu me peguei pensando como seria a minha vida jogando na Inglaterra, como seria a minha rotina nesse novo clube, o quanto seria difícil para meus filhos e para a minha esposa para mudar de casa”, disse Kaká. “Todos esses pensamentos girando dentro da minha cabeça”.

“Não tinha a menor ideia que o City estava interessado em me contratar até que eles de fato fizeram uma proposta ao Milan”, afirmou. “Eu cheguei à conclusão que não era o momento certo para ir para o City e a principal razão era a incerteza sobre o processo de construção do elenco”, explicou o meia. “Não estava claro para mim como o elenco seria reconstruído e eu não estava convencido que isso iria funcionar”.

“Estavam me pedindo para trocar um dos mais históricos e bem sucedidos clubes na Europa por um time que estava no início de um novo projeto, no qual eu seria supostamente o primeiro grande jogador. Era mais seguro ficar no Milan”, analisou o jogador.

Em julho daquele ano, Kaká acabaria se transferindo para o Real Madrid, que também levaria Cristiano Ronaldo. Embora a expectativa fosse alta, Kaká teve uma primeira temporada muito boa, mas a sequência acabou decepcionando. O jogador atuou no sacrifício pela seleção brasileira em 2010, da qual era um dos grandes talentos, se não o maior.

Precisou operar logo depois da Copa 2010 e ficou um tempo grande afastado, perdendo espaço no elenco estelar do Real Madrid. Ainda teve grandes momentos pelo clube, mas não conseguiu brilhar tanto quanto se imaginava, ainda mais com a comparação com Cristiano Ronaldo, que passou a ter um brilho ainda mais intenso.

Manchester City em outro momento
Robinho no Manchester City em 2009 (Photo by Clive Brunskill/Getty Images)

Robinho no Manchester City em 2009 (Photo by Clive Brunskill/Getty Images)

É preciso contextualizar o que era o Manchester City na época e o que era o Milan na época. Os italianos ainda estavam em alto, era um dos melhores times do mundo, recém campeão europeu, em 2007, com Kaká como o jogador de mais destaque. Tanto que o brasileiro venceria o prêmio de melhor jogador do mundo da Fifa e ganharia também a Bola de Ouro daquele ano.

O Milan de então era um gigante, na Itália e na Europa. O Manchester City tinha recém trocado de dono. Em setembro de 2008, o clube deixou de ser controlado pela UK Sports Investment Limited (UKSIL), do príncipe da Tailândia, Thaksin Shinawatra, e passou para a Abu Dhabi United Group Investment and Development Limited (ADUG). A compra custou, na época, £ 200 milhões (na época, cerca de US$ 362 milhões). Com isso, o xeique Mansour bin Zayed Al Nahyan passou a controlar o clube.

Aquele dia 1º de setembro de 2008 era também o dia do fechamento da janela de transferências na Inglaterra (normalmente no dia 31, mas naquele ano caiu em um domingo, então foi adiado para a segunda-feira, dia 1º de setembro). Foi o dia que o Manchester City conseguiu vencer a disputa com o Chelsea para contratar Robinho, estrela brasileira que era do Real Madrid.

Aqui também é preciso pontuar: Robinho tinha manifestado o desejo de ser titular mais vezes no Real Madrid, que era recheado de estrelas. O Chelsea surgiu como opção e o brasileiro se animou. O Real Madrid, porém, complicou as negociações e preferiu vender ao Manchester City, na época, por £ 34 milhões (na época, € 43 milhões, algo em torno de US$ 61 milhões).

O valor era mais do que o Chelsea estava disposto a pagar e na época recorde de transferência para um clube britânico. Muitos veem como uma forma de vingança do clube espanhol contra a equipe do jogador, que infernizou os dirigentes para negociá-lo.

Kaká, então, tinha começado a temporada 2008/09 no Milan. Ronaldinho tinha chegado do Barcelona e por lá ainda estavam Alexandre Pato, Andrea Pirlo, Clarence Seedorf e Paolo Maldini, para ficar nos principais.

No Manchester City estavam Joe Hart e Vincent Kompany, este último recém contratado do Hamburgo, da Alemanha, que ainda estão por lá, mas ainda sem o prestígio que viriam a ter. O principal destaque era Robinho e por lá também jogava outro brasileiro, Elano, entre os titulares. Jô era reserva do time. O ataque tinha também Daniel Sturridge, que mais tarde iria para o Chelsea (e mais tarde ainda, para o Liverpool).

O time base do Manchester City, naquela temporada, foi o seguinte: Joe Hart; Pablo Zabaleta, Micah Richards, Richard Dunne e Wayne Bridge; Shaun Wright-Phillips, Stephen Ireland, Vincent Kompany e Elano; Robinho e Daniel Sturridge. O técnico era Mark Hughes.

O time estava longe da potência que é atualmente. Tanto que o time acabaria em 10º lugar na Premier League, mesmo com Robinho fazendo a sua melhor temporada pelo clube, com 15 gols em 42 jogos, em todas as competições. O City ainda jogava a Copa da Uefa e acabaria eliminado, naquela temporada, pelo Hamburgo. Portanto, ainda longe de ser um destaque como é atualmente com um time muito mais forte e que compete pelo título.

O Manchester City só quebraria o jejum de títulos em 2010/11, com a conquista da Copa da Inglaterra. Na temporada seguinte, 2011/12, já com Sergio Kun Agüero no elenco, conquistou o esperado título da Premier League.

Já Kaká voltaria ao Milan em 2013, mas ficou só uma temporada. Em 2014, acertou a sua transferência para o Orlando City, que passaria a jogar a MLS em 2015. No segundo semestre de 2014, ele defendeu o São Paulo, por empréstimo, ajudando o time na sua última grande campanha no Campeonato Brasileiro, terminando em segundo lugar. Em 2015, estreou pelo Orlando City, onde permanece até hoje.