Quem é o melhor goleiro sul-americano da atualidade? Há alguns meses, a resposta na ponta da língua da maioria poderia ser Claudio Bravo, mas o chileno vem de uma péssima temporada no Manchester City e não é mais tão preponderante ao Chile. O Brasil é o único país que possui titulares em clubes de peso da Europa, Alisson e Ederson, além dos bons nomes em atividade no Brasileirão. Muslera e Romero têm sua reputação na seleção, mas nunca foram poços de confiança para Uruguai e Argentina, assim como Ospina oscila demais. No Equador, o titular é o rodado Banguera, que combina grandes defesas e presepadas. Já os demais integrantes da Conmebol possuem arqueiros menos conhecidos para o público em geral. Justamente os heróis desta rodada das Eliminatórias. Carlos Lampe, Pedro Gallese, Antony Silva e Wuilker Fariñez terminam em alta.

Ao Brasil, quem mais chamou atenção foi Carlos Lampe. O camisa 1 da Bolívia não é exatamente um novato, aos 30 anos de idade. Sua carreira inteira, porém, se desenrolou por clubes medianos de seu país. Teve duas rápidas passagens pelo Bolívar, mas sem se firmar. Rodou por Universitario de Sucre, San José de Oruro e Sport Boys – neste, conquistando o Torneio Apertura. Sua chance no exterior veio no modesto Huachipato, do Chile. Mesmo assim, vem ganhando reputação na meta de La Verde.

Com convocações esporádicas desde 2009, Lampe conquistou a posição a partir da Copa América Centenário. Com moral, capitaneou a Bolívia na competição, apesar da queda na fase de grupos. De qualquer maneira, venceu a disputa com Daniel Vaca e Romel Quiñónez, assumindo a titularidade nas Eliminatórias. E, apesar das goleadas, vem mantendo a honra dos bolivianos nas últimas rodadas. Já tinha feito boas atuações contra Argentina e Chile, até arrebentar contra o Brasil. Dono de uma boa estatura (o que não costuma ser tão comum entre os seus compatriotas), Lampe fechou o gol em La Paz. Demonstrou ter ótima elasticidade, frieza e tempo de reação. Frustrou os planos brasileiros de acumular mais um triunfo.

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Na Bombonera, outro a segurar um gigante foi Pedro Gallese. Revelado pela Universidad San Martín, o goleiro de 27 anos defende atualmente o Tiburones de Veracruz. Possui boa rodagem na seleção peruana, tomando conta da meta incaica a partir de 2014. E em uma seleção sem arqueiros tão marcantes assim ao longo das últimas décadas, o camisa 1 fez por merecer o seu espaço. Por vezes oscila, mas consegue oferecer um bom nível de confiabilidade, especialmente por sua explosão sob os paus. Algo que ficou bastante claro durante o empate heroico contra a Argentina, valiosíssimo aos peruanos.

Gallese precisou aparecer uma vez no primeiro tempo, desviando chute de Papu Gómez com a ponta dos dedos. Já na segunda etapa, realizou uma sequência de milagres. Salvou principalmente por sua capacidade de fechar o ângulo, pegando bolas difíceis no mano a mano com os atacantes adversários, enquanto também voou para espalmar as tentativas de longa distância dos argentinos. Voltou ao time no momento exato, após perder os últimos compromissos nas Eliminatórias por uma fratura na mão.

Nome mais conhecido por suas aparições nas competições continentais, Antony Silva viveu seu momento mais brilhante na Colômbia, pelo Deportes Tolima, com o qual chegou a eliminar o Corinthians na Libertadores. Voltou para o Paraguai em 2016, contratado pelo Cerro Porteño. E sucesso com o Ciclón abriu as portas ao veterano de 33 anos na seleção paraguaia, após esquentar o banco para Justo Villar e Diego Barreto durante longo inverno. O camisa 1 assumiu a posição apenas no segundo turno das Eliminatórias. Mas compensou a confiança de Chiqui Arce por aquilo que realizou na visita à Colômbia em Barranquilla.

Diante da pressão dos Cafeteros, foi Antony Silva quem manteve o Paraguai no jogo. Acumulou ótimas defesas, principalmente em bolas rasteiras, e foi excepcional ao pegar uma cabeçada no início do segundo tempo. E a virada dos guaranis teve certa influência do arqueiro. Já nos acréscimos, ele realizou uma ponte com segurança para interceptar o cruzamento de Santiago Arias. Iniciou o contra-ataque que possibilitou o triunfo cardíaco sobre os colombianos, que mantém a ambição da Albirroja de descolar uma vaga ao menos na repescagem. O goleiro volta para Assunção tão aclamado quanto os autores dos gols.

Por fim, vale mencionar ainda Wuilker Fariñez. O arqueiro de 19 anos inicia a sua carreira como profissional, embora seja titular do Caracas desde os 17. Dono de ampla rodagem nas seleções de base, o prodígio foi um dos protagonistas na campanha que valeu o vice-campeonato mundial sub-20 neste ano. E, antes mesmo do torneio, ganhou o posto que era de Dani Hernández, do Tenerife. Na última Data Fifa, o novato já tinha fechado o gol nos empates contra a Colômbia e a Argentina. Já nesta quinta, seria a vez de frustrar o Uruguai, segurando o placar zerado com duas grandes intervenções, especialmente para buscar uma cabeçada que ia no ângulo. Apesar da baixa estatura para a posição (1,81 m), o adolescente compensa com muita impulsão e agilidade.

O mais legal na trajetória precoce de Fariñez é a maneira como ele ganhou respaldo para se tornar titular. Desde as seleções de base, a promessa passou a ser lapidada por Rafael Dudamel, melhor goleiro venezuelano da história e de sólida carreira no futebol colombiano. Treinador do sub-20, o veterano efetivou seu pupilo no time principal tão logo assumiu o comando, e o bancou como titular para o duelo contra o Peru, em março. Resultado: Fariñez teve uma atuação brilhante para garantir o empate por 2 a 2. Após a partida, Dudamel garantiu que a “Venezuela tem seu goleiro titular para os próximos 20 anos”. Se ainda é cedo para colocar o jovem entre os principais goleiros da América do Sul, embora seja o melhor nesta reta final das Eliminatórias, no mínimo já dá para cravar que ele não será desconhecido por muito tempo. Tem todo o potencial para se firmar como uma figurinha carimbada nos torneios da Conmebol – tanto quanto foi Dudamel. Quem sabe, até para levar a Vinotinto a sua primeira Copa.