“Alguém disse que é um conto de fadas. Eu digo que é por um lado, mas não por outro. Esse é o resultado do trabalho duro de muita gente. Todo mundo evoluiu. Falam muito sobre o meu papel e que eu irei me tornar presidente, mas tudo isso acontece porque somos um grupo de pessoas que trabalhamos incrivelmente duro em um ótimo ambiente. E temos jogadores muito bons. Eu não sou um herói. Martin Luther King, Nelson Mandela e pessoas como eles é que são os heróis de verdade”.

VEJA TAMBÉM: Não foi a goleada que abaixou a cabeça do craque islandês na Euro: a sua torcida

Lars Lagerbäck definiu sua epopeia com a Islândia em 2015, logo após conquistar a classificação à Eurocopa. O treinador pode se colocar como mais um no processo que levou a ilha de 330 mil habitantes ao centro das atenções do futebol mundial. De qualquer maneira, sua fala carrega muito das características de seu comando. Se os islandeses se sobressaem pelo conjunto, o sueco foi o grande responsável por aglutinar todos – e, quando eu digo ‘todos’, isso inclui não apenas os jogadores e a comissão técnica, mas também dirigentes e a população em geral. Unindo qualidades de cada uma das partes, o técnico levou o país a grande resultados. Se não foi herói, ao menos se transformou no líder de uma campanha heroica.

A trajetória de Lagerbäck na Islândia começa cinco anos atrás. O treinador foi contratado em outubro de 2011, visando o ciclo rumo à Copa do Mundo de 2014. Pegou uma seleção no 126° lugar do Ranking da Fifa e que havia sido eliminada nas Eliminatórias da Euro 2012 com apenas uma vitória em oito partidas. O sueco vinha com um currículo de respeito como treinador. Por nove anos esteve à frente da seleção de seu país, disputando dois Mundiais. Já em 2010, dirigiu a Nigéria na Copa. Mais importante, contudo, era a formação humana do comandante. Jogador de carreira modesta, estudou ciências políticas e economia. Depois de pendurar as chuteiras, ainda aprimorou seus conhecimentos para a carreira de técnico na Escola Sueca de Esportes e Ciências da Saúde. Trabalhou em clubes pequenos do país, antes de passar quase uma década nas seleções de base da Suécia. E também lecionou para formar novos treinadores, tanto na federação local quanto na Uefa.

VEJA TAMBÉM: Um mapa para você entender como funciona a estrutura do futebol islandês

Na Islândia, Lagerbäck encontrou um ambiente favorável. Mas não dá para tirar os méritos de sua visão, ao identificar possibilidades e agir para que elas remassem juntas rumo à mesma direção. Em 2011, a seleção sub-21 conseguiu a classificação inédita para o campeonato continental, caindo na fase de grupos. Então, estes jovens acabariam se tornando a base de seu elenco. O treinador também tinha o apoio de um ótimo plano diretor da federação local, investindo não apenas na construção de estruturas para a prática do esporte, mas também na formação de profissionais para trabalhar nas categorias de base. Cerca de 350 deles possuem licenças A ou B, as principais da Uefa. Em uma dessas capacitações, Lagerbäck foi professor de Heimir Hallgrímsson. O ex-jogador do futebol local foi nomeado inicialmente como assistente do sueco, mas a partir de 2013 começou a dividir as funções de técnico.

Além do mais, Lagerbäck também tratou de entender a sociedade na qual estava inserido. “Se você olhar para a sociedade em geral e também para a família do futebol, tudo se torna preto no branco. Não importa se é um problema ou algo positivo. É algo que aproxima os chefes e o resto do povo”, afirmou. Assim, ele mesmo ligou ao chefe da torcida local para buscar uma mobilização maior nos jogos da seleção. Ganhou um caldeirão mais intenso, mesmo em um país tão gélido.

VEJA TAMBÉM: O grito de guerra da torcida islandesa fica ainda mais fantástico com a multidão em Reykjavík

Então, seu trabalho com o elenco vinha bem escorado. A partir de 2012, seu líder em campo se tornou Aron Gunnarsson, um jovem de grande maturidade, postura aguerrida e velho conhecido da seleção sub-21 de 2011. O técnico também deu sorte ao aproveitar do amadurecimento de vários de seus convocados em ligas de peso da Europa. Já em campo, montou um time capaz de conquistar os pontos também contra equipes mais fortes, consciente de suas limitações, mas eficiente nas oportunidades.

O primeiro feito quase veio nas Eliminatórias da Copa de 2014. Em um grupo equilibrado, a Islândia superou Eslovênia, Noruega, Albânia e Chipre para ir à repescagem, mas não aguentou a Croácia. Nova chance rumo à Euro 2016, em chave que se sugeria mais difícil. Os islandeses, porém, sofreram apenas uma derrota até confirmarem a classificação. Tiveram o gosto de bater República Tcheca e Turquia, além da Holanda tanto em Reykjavík quanto em Amsterdã, o que acabou na eliminação da Oranje.

VEJA TAMBÉM: Gunnarsson, o capitão que lidera pelo exemplo e encarna o ‘espírito viking’ da Islândia

Já na Eurocopa, mais do que o desenvolvimento técnico ou as orientações táticas, o trabalho de Lagerbäck se destacou pela gestão do grupo. Soube extrair o potencial de seus jogadores. Dirigiu um time que, na postura, não se apequenou contra adversários mais fortes e manteve a solidez durante quase todo o tempo. Que teve muita vontade. Diante da França, o primeiro tempo ruim culminou na eliminação. Mas não fez a Islândia se esconder, mesmo com o resultado perdido. Igualmente não se abateu ao sair perdendo da Inglaterra e lutou até o último instante para vencer a Áustria. Uma equipe que se sobressaiu pelo coletivo.

“O cenário agora pode ser um pouco desanimador, mas se olharmos para a imagem completa, foi uma viagem fantástica. O futuro tem bom aspeto. Temos alguns jovens jogadores que aqui não jogaram muito, e se estiverem em grandes clubes podem se desenvolver”, afirmou, após a partida deste domingo. “Estou muito orgulhoso, foram quatro anos e meio muito bons, sempre evoluindo. Aproveitei todos os minutos que passei na Islândia, todo o envolvimento e a relação com a equipe”.

VEJA TAMBÉM: Seis curiosidades que tornam o feito da Islândia ainda maior

Aos 67 anos, Lagerbäck se despede da seleção islandesa. Deixa um caminho direcionado ao seu aprendiz Hallgrímsson, que agora tocará o barco sozinho. O atual grupo de titulares tem mais algum tempo a render, com a maioria dos atletas entre 26 e 32 anos. Ainda que a missão nas Eliminatórias para a Copa de 2018 não seja simples: só uma seleção terá vaga direta, em uma chave com Croácia, Ucrânia, Turquia, Finlândia e Kosovo. De qualquer maneira, o planejamento islandês vai além. Até pelas bases na formação, dá para esperar que os bons frutos continuem surgindo no futuro, independente da escassez populacional. E, no nível mais alto, Lagerbäck fincou ensinamentos preciosos. De quem merece ser reconhecido, hoje, como um dos melhores técnicos do mundo, por tudo o que sua figura representou à seleção islandesa. Como o responsável pela revolução no futebol de um país.