França e Bélgica, que fazem nesta terça um jogo histórico valendo vaga na final do Mundial da Rússia, são inimigos íntimos e de longa data. Basta dizer que o confronto, realizado desde 1904, é o mais antigo entre dois países na Europa continental (considerando que Áustria e Hungria começaram a se enfrentar quando ainda integravam o mesmo Império). O primeiro jogo oficial de uma seleção também foi a estreia da outra. Os belgas são os adversários os quais os franceses mais enfrentaram na história – e do outro lado, os Bleus só ficam atrás dos holandeses na lista de confrontos mais frequentes para os Diabos Vermelhos. O próprio apelido da seleção da Bélgica, aliás, surgiu e foi posteriormente oficializado em jogos contra a França.

VEJA TAMBÉM: O França x Bélgica de 1986: uma decisão de 3º lugar quase anônima, mas animada

O primeiro dos 73 confrontos oficiais aconteceu quase discretamente: apenas 1.500 torcedores compareceram ao estádio de Vivier d’Oie, em Uccle, região de Bruxelas, naquela tarde de 1º de maio de 1904. E pouco mais que seu resultado mereceu menção na imprensa dos dois países na época. Mas seria um jogo movimentado. Os belgas sairiam na frente com um gol do centroavante Georges Queritet logo aos sete minutos, mas os franceses virariam com gols em sequência de Louis Mesnier e Marius Royet, aos 12 e aos 13 minutos, indo para o intervalo na frente.

Na etapa final, no entanto, os donos da casa reagiram: Queritet voltou a marcar aos cinco minutos e Pierre-Joseph Destrebecq os colocou em vantagem aos 20. Mas, a três minutos do fim, o meia-esquerda Gaston Cyprès empatou novamente para os franceses (que na ocasião ainda não eram os “Bleus”, já que vestiam camisas brancas, calções azuis e meiões vermelhos), fechando a contagem em 3 a 3. Com o empate, o troféu oferecido ao vencedor por Évence Coppée, magnata belga do carvão, acabou passando de mão em mão entre os 22 jogadores.

Apesar de ambos os países terem tomado parte do grupo de sete nações fundadoras da Fifa, dali a 20 dias na capital francesa, eles viviam estágios bem distintos quanto ao desenvolvimento de seu jogo início de século. Os belgas, um pouco mais próximos dos britânicos até territorialmente, já contavam com mais de uma dezena de clubes fundados ainda no fim do século XIX, reunidos em uma federação nacional criada em agosto de 1895, mesmo ano em que foi instituída a liga nacional – apenas a segunda no mundo fora das ilhas britânicas.

Os franceses, embora também tivessem contato com o jogo desde muito cedo, viviam um certo caos, com várias ligas e associações dividindo e disputando o controle organizacional do jogo. Somente em abril de 1919 é que, enfim, seria fundada a Federação Francesa de Futebol (FFF), unificando as outras entidades e tentando colocar nos eixos o jogo do país. Diante disso, era natural que ficassem para trás em termos de resultados nas primeiras décadas.

Hegemonia belga

O fato é que nos 11 confrontos disputados neste primeiro momento, antes da interrupção do futebol pela Primeira Guerra Mundial, a vantagem dos belgas era massacrante: foram sete vitórias (quase todas por placares dilatados), dois empates e apenas duas vitórias francesas. Aliás, numa dessas goleadas belgas, a vitória por 7 a 1 em Bruxelas no dia 30 de abril de 1911, é que a seleção passou a adotar oficialmente o apelido de “Diabos Vermelhos” (“Diables Rouges” ou “Rode Duivels”, nos dois idiomas do país).

VEJA TAMBÉM: Como foram as semifinais anteriores de França, Bélgica, Inglaterra e Croácia

A expressão já havia sido utilizada em 1906 pelo jornalista belga Pierre Walckiers, editor da revista “La Vie Sportive”. Ao comentar os resultados da seleção naquela temporada (uma goleada de 5 a 0 na visita aos franceses e duas vitórias sobre a Holanda), ele escreveu que a equipe havia lutado em campo como verdadeiros “diabos vermelhos”, numa referência à cor da camisa da seleção. Acabou caindo no imaginário popular e se tornando uma referência do time.

A vantagem esmagadora no retrospecto naqueles primeiros tempos foi de suma importância para que os belgas conservassem até os dias atuais a hegemonia no confronto – ainda que pareça surpreendente, já que a seleção da França se revelou mais bem-sucedida ao longo da história. Nestes 114 anos de embates, os Diabos Vermelhos somam 30 triunfos contra 24 dos Bleus, além de 19 empates. E também não só balançaram mais vezes as redes – 160 gols contra 127 – como ainda são os donos da maior goleada do confronto: 7 a 0, na segunda partida, em 1905.

Após o conflito, porém, os franceses começaram a equilibrar os resultados. Em setembro de 1920, depois de sair arrasada da guerra, a Bélgica deu mostras de força e recuperação ao conquistar em casa a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Antuérpia, batendo no caminho Espanha, Holanda e, numa final que não terminou, a Tchecoslováquia. Mas antes, em março, foi a França a vencedora do confronto anual entre as duas equipes: 2 a 1 em Paris.

Com o profissionalismo francês, as forças se invertem

Até o início dos anos 1930, os Diabos Vermelhos ainda impuseram mais algumas goleadas aos Bleus, entre eles um 6 a 1 em pleno estádio parisiense de Colombes, em abril de 1930. Um mês depois, no entanto, os franceses davam o troco vencendo pela primeira vez em solo belga desde 1907, antecipando a boa sequência que teriam mais adiante naquela década: entre março de 1933 e maio de 1939, a França venceu seis dos oito confrontos, entre eles o primeiro válido por um grande torneio: o das oitavas de final da Copa do Mundo disputada em casa, em 1938.

VEJA TAMBÉM: De Bruyne x Kanté: O craque que constrói contra o craque que destrói

Em parte, a boa sequência francesa foi fruto da implantação do profissionalismo no futebol do país em 1932, fazendo-o crescer em competitividade. Os belgas, por outro lado, mantiveram-se no amadorismo (ou semiamadorismo) até o início dos anos 70, o que solapou o nível técnico da seleção, fazendo o time acumular campanhas fracas em Mundiais por muitas décadas.

O atacante Raymond Braine, maior talento belga da primeira metade do século, por exemplo, foi excluído da equipe que disputaria a Copa do Mundo de 1930, no Uruguai, por ter tentado se transferir para o Clapton Orient (atual Leyton Orient), da liga profissional inglesa. Pouco tempo depois, acabaria se mudando para a Tchecoslováquia, onde se juntaria à forte equipe do Sparta Praga. No fim da década, retornaria à Bélgica para defender o Beerschot, e só aí teve a chance de disputar um Mundial, o de 1938, mas já aos 31 anos, idade avançada para a época.

“Le match sympathique”

A exemplo de outros grandes clássicos entre seleções, Bélgica e França se enfrentaram quase anualmente ao longo das primeiras décadas do século (exceção feita, novamente, aos períodos de conflito internacional). Antes da deflagração da Segunda Guerra Mundial, apenas nos anos de 1925, 1927 e 1931 não houve confronto – compensado, no entanto, com duelos em dobro em 1924, 1926 e 1938 (neste último, uma delas pela Copa do Mundo disputada em solo francês), além de uma trinca de partidas em 1930.

Depois do fim do conflito, a assiduidade de partidas praticamente se manteve até o fim dos anos 60. Daí em diante, os amistosos tornaram-se mais esporádicos (apenas nove nos últimos 50 anos), perdendo espaço para fases de classificação de Eurocopas e Copas do Mundo ou enfrentamentos pelas fases finais destes dois torneios. Mas um deles se tornaria especialmente significativo: o primeiro jogo de ambas as seleções (e entre elas) após a chamada Liberação francesa da ocupação dos nazistas, ocorrida em 25 de agosto de 1944.

A partida foi realizada no Parc des Princes, em Paris, na véspera de Natal, 24 de dezembro de 1944, e teve sua renda revertida para ajudar na reconstrução do país, em escombros após a Guerra. Os franceses foram para o intervalo vencendo por dois gols (marcados por André Simonyi e Henri Arnaudeau) e ampliaram na etapa final com um tento do capitão Alfred Aston, antes de François De Wael reduzir para os belgas, fechando o placar em 3 a 1. O jogo ganhou naquela ocasião um apelido que seria por muito tempo sinônimo do confronto para a imprensa e o público na França (e na parte francófona belga): “le match sympathique”.

Nos grandes torneios, vantagem francesa

Se no cômputo geral, os belgas têm vantagem folgada no retrospecto, em partidas válidas pela fase final dos principais torneios os franceses são absolutos, embora tenham feito dois dos três jogos em casa: além da já citada vitória por 3 a 1 em Colombes na primeira fase do Mundial de 1938, também golearam por 5 a 0 (seu maior triunfo por diferença de gols), com atuação antológica de Michel Platini, na fase de grupos da Eurocopa de 1984, em Nantes. Dois anos depois, na Copa do México, venceram por 4 a 2 na prorrogação a decisão do terceiro lugar.

VEJA TAMBÉM: Thierry Henry e a veneração que emerge de diferentes maneiras na semifinal

Já em fases classificatórias, o primeiro confronto aconteceu antes do Mundial de 1958, no qual os franceses cumpririam sua primeira grande campanha. Num grupo que ainda incluía a estreante Islândia, a França goleou a Bélgica por 6 a 3 em Paris – curiosamente na única vitória da seleção no confronto entre junho de 1952 e outubro de 1970 (15 partidas) –, com cinco gols de Thadée Cisowski, e confirmou a classificação na partida de volta, empatando em 0 a 0 em Bruxelas.

As duas equipes voltariam a se encontrar nas Eliminatórias para a Copa do 1982, num grupo ainda mais quente, que também incluía a Holanda, além da Irlanda e da fraca seleção do Chipre. Os Bleus venceram o jogo de ida em Paris por 3 a 2. Mas a vitória belga por 2 a 0 em Bruxelas, no dia 9 de setembro de 1981, acabaria sendo mais significativa: além de confirmar o retorno da equipe a um Mundial depois de 12 anos, ainda deixava suas duas rivais se engalfinhando pela outra vaga do grupo, disputada também acirradamente pelos irlandeses.

Belgas e franceses também se cruzaram em duas ocasiões nas fases classificatórias da Eurocopa, para as edições de 1968 e 1976. Curiosamente, os dois jogos em Bruxelas terminaram com vitória da Bélgica por 2 a 1 e ambas as partidas em solo francês terminaram em empate: 0 a 0 em Paris na primeira e 1 a 1 em Nantes na segunda. Entretanto, mesmo sem derrotar os rivais, os Bleus acabaram avançando na primeira ocasião, enquanto os belgas passaram na segunda.

Houve ainda um confronto válido por um torneio amistoso, a Copa Rei Hassan II, quadrangular disputado em maio de 1998 em Casablanca, no Marrocos, e que curiosamente também contava com a Inglaterra, outra semifinalista do Mundial russo, além da seleção marroquina. Belgas e franceses se enfrentaram na primeira rodada, com vitória para os Bleus por 1 a 0, gol de Zinedine Zidane aos 19 minutos do segundo tempo.

Disputado no formato de eliminatória dupla (os vencedores da primeira rodada enfrentam os perdedores), o torneio acabou conquistado pelos franceses, que mesmo perdendo para os marroquinos nos pênaltis na partida seguinte, conseguiram superar os ingleses no número de gols marcados após empate em pontos ganhos. Seria um aperitivo para a primeira conquista de uma Copa do Mundo pelos Bleus, jogando em casa, dali a pouco mais de um mês.