O Leeds United anunciou nesta semana que, ao final da temporada, fará uma turnê pelo sudeste asiático. Disputará dois jogos em Myanmar. E uma rápida pesquisa no Google mostra que a ideia dos Whites não parece a mais sábia. A ONU tem denunciado o governo local por realizar uma limpeza étnica contra o povo rohingya, minoria muçulmana. Como resultado, a região enfrenta uma grave crise humanitária, com o número de refugiados superando os 700 mil. Para piorar o cenário, os atentados terroristas são constantes e ainda há uma epidemia do vírus zika. Pois é nesse destino nada aprazível que os ingleses irão se meter. E as críticas à excursão ressoam. Para alguns, o tour pode indicar que o clube endossa a postura repressiva de Myanmar. A equipe viajará logo após o término da segunda divisão inglesa, na qual aparecem no 12° lugar, sem chances de classificação aos playoffs.

Entre as entidades que questionaram a viagem do Leeds, está a Anistia Internacional. “Certamente parece uma escolha estranha para uma turnê. A situação dos direitos humanos se deteriorou drasticamente durante o último ano em Myanmar. Centenas de milhares de pessoas do povo rohingya fugiram por causa dos crimes contra humanidade cometidos pelo estado. Os que não seguiram ao Bangladesh, continuam a viver sob um sistema de apartheid. As autoridades continuam uma repressão brutal, apesar dos protestos globais. Não falaremos para o Leeds qual país eles devem ou não visitar. Mas se a turnê seguir em frente, o clube deve usar sua influência para pedir o fim da repressão”, analisa Kate Allen, diretora da organização no Reino Unido, ao The Independent.

Diante da discussão intensa, o presidente do Leeds decidiu se manifestar nesta quarta-feira. E indicou que nada deverá mudar, apesar da pressão. Andrea Radrizzani, que não é bem a pessoa mais popular entre os torcedores, tentou mostrar outro lado da moeda. “Acredito que a turnê terá um impacto positivo na comunidade local. Essa foi uma decisão considerada com cuidado e sabíamos que poderia ser controversa. No entanto, é sobre pessoas, não governos. Nunca foi minha intenção ou do clube nos envolver ao debate político. Entretanto, se por causa da viagem nós mostrarmos algumas das questões sérias, então isso é positivo”, apontou o mandatário.

O discurso bonito tem o seu sentido. Mas não está totalmente isento. Radrizzani comprou metade das ações do Leeds em janeiro de 2017 e, cinco meses depois, adquiriu o restante junto a Massimo Cellino – outra figura pouquíssimo querida em Elland Road. Nascido em Milão, o empresário italiano possui uma série de investimentos ligados à área de mídia esportiva e transmissão de eventos. E um dos países onde sua companhia atua é justamente Myanmar.

Embora o Leeds não vá receber nenhum dinheiro pela turnê, aparentemente há uma intenção de causar impacto aos interesses econômicos de Radrizzani. Serão cinco dias em Myanmar, o suficiente para disputar as duas partidas, além de participar de outros eventos. Segundo o dirigente, os Whites irão ajudar a unir a nação e mostrar o poder do futebol, realizando atividades com crianças carentes.

Além do mais, existe uma preocupação quanto à torcida do Leeds. Não são poucos os fanáticos que costumam acompanhar os Whites em suas turnês. E se os temores com segurança são evidentes ao próprio elenco, os turistas tendem a estar mais expostos. “É uma escolha estranha e controversa, considerando o clima político perigoso em Myanmar. Estamos preocupados com o bem-estar dos torcedores que acompanham o time. Nossa mensagem a eles é que não devem ir sem tomar uma decisão bem informada. Saibam cada detalhe sobre a situação e recebam conselhos de pessoas apropriadas. Só então, escolham se seguirão o time”, indica a associação de torcedores do Leeds. Entre visões diferentes, é um tema delicadíssimo.