SALVADOR - Quando Galvão Bueno chama o Olodum, no Pelourinho de Salvador, as pessoas mal reparam. Continuam cantando, sambando e bebendo cerveja como se estivessem em qualquer festa. Impressionadas com as coreografias e a energia dos músicos, que levantam os seus instrumentos, pulam, plantam bananeira e acertam o bumbo como se fossem um único corpo. Nada demais, nada de anormal. A reação é parecida quando a polícia usa da truculência para manter a segurança no Largo do Pelourinho, onde a banda entretém turistas e moradores, à frente da Casa de Jorge Amado e sob o olhar de uma foto de Michael Jackson.

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Em meio ao batuque, que foi retomado no intervalo, começaram a se formar algumas aglomerações na multidão. A polícia colocou o cassetete, sem nenhuma delicadeza, no peito das pessoas para abrir espaço. Entre os oficiais da lei, duas pessoas eram revistadas, com as mãos para o alto. Nada foi encontrado. Mais abaixo, mais um grupo de cidadãos de Salvador levantaram os braços para serem revistados.

O grupo de policiais subiu a ladeira e fez um cerco ainda maior. Ficou em volta de aproximadamente cinco ou seis pessoas, sendo revistadas, também com as mãos para o alto, observadas por poucos curiosos que achavam aquilo mais interessante que o empate entre Brasil e México. A maioria continuava cantando, sambando e bebendo cerveja, como se fosse apenas mais um dia em Salvador. Em certo momento, e meio de repente, um dos policiais saiu da roda e puxou um homem que estava próximo ao palco. Apalpou aqui, apalpou ali e o liberou.

Todos os revistados eram negros. A reportagem da Trivela conversou com dois deles e nenhum soube dizer por que foi parado pela polícia. Um dos homens, cujos olhos escancaravam medo, sequer abriu a boca. Apenas balançou a cabeça ao ser questionado. O Major Alexandre explicou o critério, aparentemente aleatório, da polícia baiana para retirar as pessoas do meio da multidão e revistá-las: “É por suspeição. Por amostragem, pelo que observamos, revistamos em busca de alguns delitos, como drogas, essas coisas”.

A circulação é livre no Largo do Pelourinho em dias normais, mas, durante a festa do Olodum, a polícia coloca grades nas duas extremidades para evitar excesso de pessoas. Não conseguiu, neste caso específico, porque houve aglomeração, empurra-empurra e pessoas pressionadas à multidão. Deveria, também, haver uma checagem antes das pessoas entrarem naquele espaço, mas, duas horas antes da partida, não havia nenhum policial controlando a entrada e saída de pessoas. “Depende da hora. E quando fica muito cheio, a gente impede de entrar”, acrescenta o Major Alexandre. Realmente, havia muita gente aglomerada nas grades durante o segundo tempo da partida querendo participar daquela festa, mas a polícia não deixava ninguém entrar. Quase ninguém. “Apareceram uns gringos aqui e botaram para dentro. Por mim, não botava nem os gringos”, conta o Sargento Gilmar.

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No caminho para a saída, entre grupos de pessoas nervosas vendo o final da partida na televisão, um homem muito forte, com uma camisa regata, desentendeu-se com outro, que vendia cervejas de uma caixa de papelão. A polícia chegou e tentou acalmar o nervosinho. Não conseguiu e o prendeu. Colocou as suas mãos para trás e o retirava de cena, dominado, quando um dos seis ou sete policiais, por trás, desferiu um tapa pesado na nuca do homem muito forte, com uma camisa regata, e soltou algumas palavras de ordem.

A festa do Olodum foi retomada depois do apito final, apesar do empate sem gols do Brasil com o México, nessa Copa do Mundo em que tudo é considerado “padrão Fifa” de qualidade. Mas, em uma festa sem a chancela da entidade, o tratamento da polícia foi padrão Campeonato Brasileiro mesmo. Pura truculência.