Leipzig sempre foi um dos corações do futebol alemão. A federação nacional nasceu na cidade, em 1900, e de lá também saiu o primeiro campeão alemão, três anos depois. A população respira a paixão pela bola, embora muito tenha acontecido nas últimas décadas, com a mutação de um país que se dividiu ao meio. Depois de um longo inverno, Leipzig voltou ao centro das atenções nesta temporada. O RasenballSport faz excelente campanha na Bundesliga e mobiliza os torcedores de uma maneira impressionante. A Red Bull Arena recebe 41 mil espectadores a cada jogo e já circula até a ideia de um estádio maior para o clube. Porém, não é o único estádio a ter seus ingressos esgotados na cidade.

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Neste domingo, Leipzig viveu o seu principal dérbi – para muitos, um dos maiores da Alemanha, considerando o ódio presente em sua rivalidade. Lokomotive e Chemie figuravam entre os principais clubes da antiga Alemanha Oriental. Quebrados após o desmanche da estrutura estatal, tiveram que se acostumar com as divisões menores do Campeonato Alemão e as falências. Não se enfrentavam desde 1985 – embora, para os menos puristas, o clássico tenha ocorrido pela última vez em 2002, com uma ramificação do Chemie original. Desta vez, o confronto valeu pela Copa da Saxônia. E, independente da relevância da competição, contou com um ambiente único no tradicional Alfred-Kunze-Sportpark, colocando 5 mil fanáticos nas arquibancadas.

Obviamente, a semana que antecedeu o dérbi foi carregada de tensão. Se a popularidade do RB Leipzig vem crescendo, não é só pelo sucesso em campo, mas também pela dissociação aos antigos ultras da cidade. O histórico de violência entre os rivais é grande, com o Lokomotive se identificando a grupos neonazistas e de extrema direita, enquanto o Chemie se associa à extrema esquerda. E não faltaram provocações, com faixas e até mesmo bonecos alviverdes enforcados surgindo em locais públicos. Não à toa, ultras de outros clubes se manifestaram em apoio aos oponentes de Leipzig, conforme a corrente política.

chemie

Ciente dos riscos, a polícia alemã realizou um esquema especial para o clássico. O Alfred-Kunze-Sportpark operou em capacidade reduzida, com grupos de segurança espalhados pelos quatro cantos. Visitantes, apenas 750 torcedores do Lokomotive compareceram. Já os seguidores do Chemie só puderam acessar o estádio através de ônibus escoltados por policiais. Um helicóptero ainda monitorava diferentes pontos da cidade, para evitar qualquer embate entre os ultras.

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No fim das contas, nenhum episódio de maior gravidade foi registrado. Mas a tensão afetou o resultado dentro de campo. Em uma partida pouco empolgante, o Lokomotive conquistou a classificação. Mesmo jogando com um a menos desde o início do segundo tempo, os auriazuis venceram na prorrogação por 1 a 0. Contaram com um gol do japonês Hiromu Watahiki, aos 12 minutos do segundo tempo extra. Puderam extravasar na comemoração com sua torcida ao apito final. Apesar da frustração, os fanáticos pelo Chemie também deram seu show.

A última temporada, no geral, foi favorável a Leipzig. Se o RasenballSport conquistou o acesso inédito para a Bundesliga, os dois clubes tradicionais da cidade também subiram de divisão. O Lokomotive voltou à quarta, enquanto o Chemie subiu para a quinta e briga pelo acesso mais uma vez. O dérbi tem tudo para se tornar mais frequente nas próximas temporadas. Ainda que a fama e as glórias pareçam mesmo restritas ao time da Red Bull.