Salvatore Schillaci, da Itália, em 1990

Escolhemos os 10 maiores leões das Copas do Mundo

A Copa do Mundo é o maior torneio de futebol do mundo. Não adianta a Liga dos Campeões ter se tornado um palco global de craques, com gramados espetaculares e times que, algumas vezes, parecem mais seleções mundiais. A Libertadores, forte como é, cheia de talentos, raça e momentos épicos, não consegue ter esse brilho também. Quando se trata de futebol, Copa do Mundo é o topo. Chegamos a brincar na Trivela que o futebol é a Copa do Mundo dos esportes, mas é claro que é uma brincadeira (na verdade a gente acredita mesmo nisso, mas não contem para ninguém). Então, se a Copa é tão importante assim, é normal que jogadores que consigam brilhar nesse que é o maior torneio do mundo acabe ganhando mais fama do que quem tem boas atuações em outros torneios. Mas curiosamente, há jogadores que conseguiram brilhar nos gramados sagrados da Copa do Mundo, mas quando desceram ao nível dos mortais do cotidiano, não foram isso tudo. Quando um jogador joga muito nos treinos e nos jogos não vai tão bem assim é chamado de “leão de treinos”. Parafraseando a expressão, escolhemos aqui 10 jogadores que foram leões de Copa do Mundo, pelo mesmo princípio. Confira a lista:

El Hadji Diouf

Senegal, 2002

El Hadji Diouf, de Senegal (Foto: AP)

El Hadji Diouf, de Senegal (Foto: AP)

Desde o início da Copa de 2002, Diouf chamou a atenção. A estreia contra a França causou choque no mundo. Os campeões mundiais e europeus caíram diante de uma estreante em Copas do Mundo. Foi uma jogada dele pela esquerda que gerou o gol. Ele avançou, cruzou e depois de um bate-rebate, Papa Bouba Diop marcou. Era o cartão de visitas do jogador, que fez outros bons jogos. Senegal iria até as quartas de final, quando caiu para a Turquia no gol de ouro. Mas aquela campanha rendeu para Diouf. Rendeu por uma vida inteira.

Aos 21 anos e com uma grande Copa, o mundo se abriu. Deixou o Lens para jogar no Liverpool, onde foi um fracasso. Nunca se estabeleceu como um jogador importante para o time. Acabou sendo emprestado para o Bolton em 2004 e ficou em definitivo no time até 2008. Novamente, sem grande brilho. Em 2008, foi para o Sunderland, na temporada seguinte foi para o Blackburn, defendeu o Rangers por meia temporada, foi para o Doncaster em 2011 e em 2012 foi para o Leeds. Em nenhum desses clubes conseguiu atingir o nível daquela Copa de 2002. Agora, aos 33 anos, foi dispensado pelo Leeds e procura um clube.

Gheorghe Hagi

Romênia, 1990, 1994

Hagi, astro da Romênia, na Copa de 1994 (Foto: AP)

Hagi, astro da Romênia, na Copa de 1994 (Foto: AP)

Um dos maiores craques da Copa de 1994 é também um dos grandes nomes de jogadores que brilham muito em Copas, mas nem tanto no resto dos torneios. A boa Copa do Mundo em 1990 levou o jogador a deixar o Steaua Bucareste e ir para o Real Madrid. Na Espanha, nunca conseguiu mostrar o talento que fez os madridistas o contratarem. Deixou o Real Madrid e foi para o Brescia. Em 1994, foi novamente chamado para a Copa do Mundo e, desta vez, o brilho foi ainda maior.

Jogou muita bola naquela surpreendente Romênia. Logo na estreia, o time fez 3 a 1 na badalada Colômbia e Hagi deixou um. Tomou um 4 a 1 da Romênia no segundo jogo, mas terminou a primeira fase com uma vitória sobre ao anfitriões, Estados Unidos, por 1 a 0. Nas oitavas de final, venceu a Argentina de Batistuta, com novo gol de Hagi. Caiu diante da Suécia nos pênaltis, depois de empate por 2 a 2.

A grande Copa significou outra transferência para a Espanha na vida de Hagi. Chegou ao Barcelona como craque, mas as duas temporadas na Catalunha deixaram uma nova sensação de fracasso. Não foi bem, teve atuações apagadas e não conseguiu o mesmo ritmo. De lá saiu em 1996 para o Galatasaray e foi o seu último grande momento. Ficou no clube turco até 2001 e conquistou a Copa da Uefa, em 2000. Foi o canto do cisne de um jogador que brilhou em Copas, mas não teve o mesmo brilho no resto da carreira.

Salvatore Schillaci

Itália, 1990

Schillaci brilhou em 1990

Schillaci brilhou em 1990

Antes da Copa do Mundo da Itália, em 1990, Totó Schillaci tinha feito uma temporada excelente no seu primeiro ano pela Juventus. Marcou 15 gols e ajudou o time a conquistar a Copa da Itália e a Copa da Uefa. Ninguém esperava, mesmo assim, que ele aparecesse na convocação para a Copa do Mundo, que seria na própria Itália. Logo na estreia, ficou na cara que ele estava com estrela. Entrou em campo aos 31 minutos do segundo tempo. Aos 33, marcou o gol da vitória por 1 a 0. Era o início de uma Copa inesquecível para ele. Entrou bem no segundo jogo e, no terceiro, começou como titular contra a Tchecoslováquia. Marcou o seu gol na vitória por 2 a 0. Marcou de novo contra o Uruguai, nos 2 a 0 das oitavas de final, e fez o gol da vitória por 1 a 0 contra a Irlanda, nas quartas. Contra a Argentina, nas semifinais, Schillaci marcou novamente, mas o time caiu nos pênaltis depois de empate por 1 a 1. Terminou sua participação com um gol contra a Inglaterra, na vitória por 2 a 1 na disputa pelo terceiro lugar.

Como era de se esperar, a Copa gerou muita expectativa nos torcedores da Juventus. Afinal, aquele jogar em ascensão estava no clube e tinha feito uma boa temporada de estreia. Mas a expectativa nunca foi cumprida. Na temporada depois da Copa, só cinco gols em 29 jogos. Na temporada seguinte, 31 jogos e seis gols. Se transferiu para a Internazionale, mas foi novamente uma decepção. Foram seis gols em 21 jogos na primeira temporada, cinco gols em apenas nove jogos na segunda. Deixou a Itália e foi jogar no Jubilo Iwata, do Japão, onde ficou até encerrar a carreira, em 1997. Sem nunca mais recuperar o brilho daquele verão europeu de 1990.

Sergio Goycochea

Argentina, 1990

Goycochea defende o pênalti de Serena, da Itália, na semifinal da Copa de 1990 (Foto: AP)

Goycochea defende o pênalti de Serena, da Itália, na semifinal da Copa de 1990 (Foto: AP)

Em uma Copa do Mundo que a Argentina precisou passar pelos pênaltis duas vezes, um dos responsáveis por conseguir avançar foi o goleiro que ganhou a posição durante a Copa. O titular era Nery Pumpido, mas se machucou e abriu espaço para Goycochea no terceiro jogo, contra a Romênia. Foi bem contra o Brasil, na vitória por 1 a 0, mas foi nas quartas de final que sua fama começou. O 0 a 0 com a Iugoslávia levou a decisão para os pênaltis. Defendeu dois pênaltis e ajudou a Argentina a vencer. Na semifinal, o grande momento do goleiro: contra a anfitriã Itália, a decisão foi novamente nos pênaltis depois do 1 a 1. Defendeu as cobranças de Donadoni e Serena, garantindo a passagem do time à final. Curiosamente, na decisão o gol que deu o título à Alemanha foi de pênalti, mas desta vez Goycochea não conseguiu salvar.

O destaque na Copa levou o goleiro, na época no Millonarios, ao Racing, em 1991, mas não se firmou. Passou pelo Brest, Cerro Porteño, Olimpia, River Plate, Mandiyú e até o Internacional, entre 1995 e 1996. Voltou à Argentina para jogar pelo Vélez e encerrou a carreira no Newell’s. Durante a carreira, ficou com a fama de grande pegador de pênaltis, mas nunca foi além disso.

Josimar

Brasil, 1986

Josimar surpreendeu na Copa de 1986 (Foto: AP)

Josimar surpreendeu na Copa de 1986 (Foto: AP)

A Copa do Mundo caiu no colo do lateral direito Josimar, então jogador do Botafogo. Leandro foi cortado e o jogador foi chamado. Diante da lesão de Edson, que era o lateral direito titular, surpreendentemente começou jogando na Copa do Mundo. E ainda mais surpreendentemente, marcou dois gols naquele Mundial, contra Irlanda do Norte, no terceiro jogo da Copa, e contra a Polônia, nas oitavas de final. A campanha do Brasil pararia na fase seguinte, contra a França. Para Josimar, a Copa não acabou nunca mais.

O bom desempenho da Copa deu mais destaque ao jogador, que ganhou confiança. Em 1988, foi para o Sevilla, mas não conseguiu sobreviver à expectativa. Em 1987, foi campeão da Copa Rous pela seleção brasileira. Jogou ainda a Copa América de 1989, embora já como reserva.

Voltou ao Brasil para jogar pelo Flamengo, onde também não foi bem. Internacional, Novo Hamburgo, Bangu, Uberlândia, Ceará, Jroge Wilstermann, Fast e terminou a carreira no Mineros de Guayana. Nunca mais conseguiu ser, nos clubes, o jogador que foi naquela Copa do Mundo.

Oleg Salenko

Rússia, 1994

Salenko foi artilheiro da Copa de 1994 (Foto: AP)

Salenko foi artilheiro da Copa de 1994 (Foto: AP)

A Rússia não fez uma grande Copa, mas mesmo assim teve o artilheiro da competição. Contra a Suécia, no segundo jogo da Copa, Salenko marcou o único gol russo na derrota para a Suécia por 3 a 1. Mas foi no jogo seguinte que ele brilhou. Contra Camarões, marcou cinco gols e, ali, conquistou o seu lugar entre os artilheiros de uma Copa do Mundo.  Até porque o time acabou eliminado ali.

Os gols levaram Salenko a uma transferência. Saiu do Logroñés, equipe pequena da Espanha, para o Valencia, logo depois do Mundial. Foi um fracasso. Foram 10 gols em 31 jogos e acabou negociado um ano depois de chegar. Passou pelo Rangers, da Escócia, Instanbulspor, Córdoba e Pogon Szczecin. Nunca mais conseguiu o brilho daquela Copa. Ou melhor, daquele dia, contra Camarões. Encerrou a carreira em 2001.

Robert Jarni

Croácia, 1998

Jarni (no centro, deitado) é abrado pelos companheiros após o gol contra a Alemanha, em 1998 (Foto: AP)

Jarni (no centro, deitado) é abrado pelos companheiros após o gol contra a Alemanha, em 1998 (Foto: AP)

Ninguém esperava que a Croácia chegasse onde chegou em 1998. O time da ex-Iugoslávia conseguiu uma boa campanha, vencendo Jamaica e Japão. Perdeu da Argentina, mas se classificou. Venceu a Romênia nas oitavas e, nas quartas de final, conseguiu um 3 a 0 na Alemanha. Jarni jogava pela ala esquerda do time e marcou um dos gols naquela vitória. O time seria eliminado nas semifinais pela anfitriã França, mas a campanha ficou marcada na história. E, como um dos bons jogadores daquele time e com um gol tão importante como foi aquele, Jarni ganhou força no futebol internacional.

Na época da Copa, Jarni jogava pelo Betis, da Espanha. Conseguiu uma transferência para o poderoso Real Madrid. Durou uma temporada. De lá foi para o Las Palmas, onde ficou de 1999 a 2002, e depois foi para o Panathinaikos, onde encerrou a carreira. Sem ter sido o lateral forte e com boa chegada ao ataque que a Copa de 1998 prometeu.

Rustu

Turquia, 2002

Rustu faz defesa contra o Brasil, na Copa de 2002 (Foto: AP)

Rustu faz defesa contra o Brasil, na Copa de 2002 (Foto: AP)

A campanha da Turquia em 2002 foi marcante. Caiu no grupo do Brasil, mas avançou em segundo lugar e, a partir daí, em um misto de sorte e competência, chegou até a semifinal, quando foi derrotada pelo Brasil. Um dos que aproveitaram a boa campanha foi Rustu, goleiro que costumava pintar o rosto e teve participação marcante naquela campanha, pela liderança que exercia, pelo visual de guerreiro em batalha e também por boas atuações. O terceiro lugar, conseguido diante da Coreia do Sul, deixou uma boa impressão do time turco.

O goleiro defendia o Fenerbahçe na época da Copa. No ano seguinte, foi contratado pelo Barcelona, mas era cotado em diversos grandes clubes naquuele momento. Ainda na pré-temporada, o jogador se machucou. Acabou substituído por Victor Valdés, então só um garoto. Já sabe onde isso termina, né? A passagem pelo Barcelona durou só uma temporada. Voltou ao Fenerbahçe em 2004 e depois ainda jogou pelo Besiktas, onde encerrou a carreira. Sem, claro, ter mostrado em clubes o brilho que teve na seleção.

Maniche

Portugal, 2006

Maniche, de Portugal, comemora o gol contra a Holanda (Foto: AP)

Maniche, de Portugal, comemora o gol contra a Holanda (Foto: AP)

A campanha de Portugal na Copa de 2006 foi fantástica. O time aproveitou os astros que tinha, como Deco, Figo e o jovem Cristiano Ronaldo, além do artilheiro Pauleta. Maniche começou a Copa do Mundo como reserva, mas já no segundo jogo, contra o Irã, foi titular ao lado de Costinha, como um volante que chega de surpresa ao ataque. No terceiro jogo, contra o Mexico, novamente titular, ele marcou um dos gols de Portugal na vitória por 2 a 1. Contra a Holanda, marcou o gol da vitória nas oitavas de final, em um jogo para lá de violento. O time foi até a semifinal, depois de passar pela Inglaterra nos pênaltis, mas perdeu da França.

A boa campanha, claro, levou Maniche a um destaque ainda maior no cenário internacional. Ele já tinha ganhado destaque na Eurocopa de 2004 e se transferido para o Dynamo Moscou por € 16 milhões em 2005. Mas foi mal e acabou emprestado ao Chelsea em 2006, no semestre antes da Copa. Logo depois do Mundial, valorizado, foi contratado pelo Atlético de Madrid. Teve alguns bons momentos, mas acabou não correspondendo e acabou emprestado à Internazionale em 2008, por seis meses. Também não foi bem. Passou pelo Colônia, na temporada 2009/10 e encerrou a carreira na temporada 2010/11 no Sporting. Nunca foi pelos clubes o que conseguiu ser na seleção na Eurocopa de 2004 e naquela Copa de 2006.

Roger Milla

Camarões, 1990, 1994

Roger Milla comemora o gol contra a Colômbia

Roger Milla comemora o gol contra a Colômbia

Roger Milla já chegou à Copa do Mundo de 1990 como um veterano. Na época, tinha 38 anos e uma carreira de brilho nacional, em Camarões, mas que não conseguiu ir além de razoável fora do país. Jogou por diversos clubes franceses, como Valenciennes, Monaco, Bastia, Saint-Étienne e Montpellier. Suas melhores passagens foram nos dois últimos, onde conseguiu suas melhores marcas. Quando a Copa do Mundo chegou, ele já tinha o prêmio de melhor jogador africano do ano nas costas, mas sem o reconhecimento e o brilho que viria depois.

Milla chegou a jogar a Copa do Mundo de 1982, a primeira Copa que Camarões conseguiu se classificar. Os camaroneses não foram muito longe, mas arrancaram um empate contra a poderosa Itália, que se tornaria campeã depois. Não foi suficiente para classificar. Os camaroneses empataram os três jogos daquela Copa e foram eliminados na primeira fase. Em 1986, Camarões não foi à Copa e Milla se aposentou da seleção em 1987. Foi chamado pelo presidente da Federação Camaronesa de futebol. E isso mudaria a sua vida.

Foram quatro gols na Itália, na marcante campanha dos Leões Indomáveis naquela Copa. Roger Milla marcou dois gols contra a Romênia, na vitória por 2 a 1. Os camaroneses avançaram como primeiros do grupo, por terem vencido também a Argentina na estreia, apesar da derrota por 4 a 0 para a União Soviética. Milla marcaria mais duas vezes contra a Colômbia, surpreendendo os sul-americanos na vitória por 2 a 1. A derrota para a Inglaterra, na prorrogação, não tirou o brilho da campanha do time.

Já muito veterano, deixou o futebol francês para voltar a Camarões e jogou no Tonnere Yaoundé, mantendo uma boa média de gols marcados. Tanto que acabaria convocado novamente para a Copa do Mundo de 1994, aos 42 anos. Reserva, ainda conseguiu marcar um gol contra a Rússia, apesar dos 6 a 1 que o time sofreu. O suficiente para deixar sua marca como o jogador mais velho a marcar um gol em uma Copa do Mundo. Se em clubes ele não brilhou internacionalmente, na seleção e em Copas do Mundo Milla foi um leão.