As histórias do futebol se escrevem a partir de vencedores e vencidos. Ainda assim, poucas ocasiões são tão contrastantes quanto a ocorrida nesta noite em São Januário. De um lado, o Cruzeiro exibia o seu bom momento. Arrancava na Copa Libertadores a partir da grande produtividade de seu ataque, letal nas duas últimas partidas. No entanto, apesar do ótimo resultado construído com a goleada por 4 a 0, ficava um pouco mais difícil de comemorar. O Vasco se afundou, e a eliminação na fase de grupos da competição continental ou a nova derrota acachapante se tornaram assuntos menores. A preocupação, mais uma vez, foi o caos que se instaurou nas arquibancadas por culpa de alguns poucos boçais.

Era um jogo naturalmente tenso em São Januário. O Vasco vinha de resultados ruins na Libertadores, inclusive em casa, e necessitava da vitória a qualquer custo. A apreensão tomou conta do estádio desde o início, algo perceptível na atmosfera. Mas isso não impediu o apoio dos torcedores desde os primeiros minutos. Os cruzmaltinos cantavam, enquanto sua equipe iniciou o duelo mais agressiva, buscando o ataque. Thiago Galhardo era quem se encarregava de chamar a responsabilidade, fazendo Fábio trabalhar duas vezes.

O Vasco tinha mais posse de bola e tentava pressionar o Cruzeiro, mas os visitantes se mantinham seguros sem a bola. Além disso, o time de Mano Menezes demonstrava mais velocidade quando tomava a posse, sobretudo pela mobilidade de seu quarteto ofensivo. E o primeiro gol acabou abrindo o caminho à Raposa aos nove minutos. Após cobrança de escanteio, a bola sobrou para Egídio na esquerda. O lateral cruzou e Léo, impedido, se esticou para mandar às redes.

Sentindo o baque, o Vasco tentou responder. Aos 16 minutos, quase saiu o empate. Fábio saiu mal em uma bola levantada na área e, no bate-rebate, Romero salvou em cima da linha. E por mais que os cruzmaltinos se empenhassem, estavam totalmente à mercê da fragilidade de sua defesa. O Cruzeiro sempre chegava com perigo, explorando principalmente o lado esquerdo do ataque, com De Arrascaeta aparecendo bem na criação. Aos 24, saiu o segundo gol. Mais um cruzamento de Egídio, que aproveitou a ótima movimentação de Thiago Neves, se infiltrando na área e concluindo às redes.

A saída de Evander, lesionado, tirou um pouco mais as esperanças do Vasco. E o Cruzeiro ampliou a vantagem aos 32, graças a Sassá. Em mais uma jogada concentrada pela esquerda, o centroavante recebeu o passe na intermediária e resolveu arriscar o chute. Balaço por cima de Martín Silva, adiantado, sem qualquer chance de defesa. A partir de então, o futebol se tornou um assunto menor em São Januário. Torcedores protestaram, inclusive contra a diretoria. Pouco depois, começou a pancadaria entre alguns indivíduos, que levou a polícia a agir. Gás de pimenta foi utilizado para conter os mais exaltados, enquanto a partida permaneceu alguns minutos paralisada. Sem clima, o primeiro tempo se arrastou até o apito final.

Já na segunda etapa, o Vasco voltou mais aceso. Passou a martelar no campo de ataque e exigiu duas grandes defesas de Fábio. Além disso, Riascos também acertou a trave, através de um cruzamento fechado. O que marcava a diferença ao Cruzeiro, no entanto, era a precisão de seu ataque. E o quarto gol logo veio aos nove minutos, com o endiabrado Sassá. O atacante disputou a bola com o Werley, ganhou na força (dependendo da interpretação, com falta) e balançou as redes mais uma vez. A partir deste momento, o jogo diminuiu de ritmo.

Sentindo falta de Desábato na organização para a saída de bola, o Vasco tentava anotar um gol que pudesse melhorar sua situação, visando ao menos a Copa Sul-Americana. Tinha dificuldades para criar, dependendo muito das bolas paradas. Enquanto isso, o Cruzeiro ameaçava quando saía aos contra-ataques, puxados principalmente com Rafinha. A Raposa deixou a impressão de que a goleada poderia ter sido maior se quisesse forçar. Nos minutos finais, arquibancadas esvaziadas, com o público que sequer esperou o fim da partida para ir embora. Pior, novos focos de briga aconteceram no estádio, gerando temores sobre os seus arredores.

O Vasco paga o preço de suas limitações. É um time de poucas alternativas confiáveis e fraco tecnicamente. A energia dos jogadores nas partidas é algo louvável, com um nível de empenho alto mesmo nas derrotas mais dolorosas. Ainda assim, é pouco. E o ímpeto ofensivo acaba expondo a defesa fragilíssima ao prazer de seus oponentes. Cruzeiro, Racing e Universidad de Chile já se aproveitaram disso nesta Libertadores. Como resultado, a única esperança dos cruzmaltinos neste momento é a terceira colocação, que rende vaga repescada à Copa Sul-Americana. Para isso, precisam secar La U nesta quinta e vencê-la em Santiago durante a rodada final.

O Cruzeiro, por sua vez, responde em um momento no qual a falta de efetividade no ataque se tornava incômodo. Não há muito o que reclamar da capacidade ofensiva dos mineiros em seus dois últimos compromissos na Libertadores. O erro da arbitragem no início do jogo ajudou, ainda mais pelo momento em que aconteceu, mas a superioridade da Raposa foi gritante e isso se percebe claramente pelo marcador. Méritos à maneira como a linha de frente teve fluidez. Além disso, cabe destacar a segurança do meio para trás, com Lucas Silva voltando ao seu melhor na cabeça de área. O time de Mano Menezes chega aos oito pontos, se igualando ao Racing na ponta do Grupo 5. Aguarda o jogo dos argentinos contra a Universidad de Chile, três pontos atrás, para saber o real cenário à rodada final. A classificação, de qualquer forma, parece bem mais próxima.

Por fim, fica a indignação pelas cenas degradantes em São Januário, e que estão distantes de serem novas. É uma pena como o próprio futebol acaba ameaçado por um bando de ignorantes e como uma instituição do tamanho do Vasco se prejudica por tal irracionalidade que impera, entre os muitos entraves internos. A imagem se torna o símbolo de uma derrocada melancólica, diante das falhas que vão do campo aos bastidores cruzmaltinos.