A Polônia pode não figurar entre as seleções mais badaladas da Europa. Mesmo entre os países de segundo escalão, não costuma causar a repercussão de outras equipes. Entretanto, ao longo do atual ciclo, são raros os times do continente que apresentam resultados tão consistentes quanto os alvirrubros. Que sejam tão competitivos, sobretudo nas partidas oficiais. E contam-se nos dedos aqueles que possuem um craque tão capaz de decidir quanto Robert Lewandowski. Eis a fórmula do sucesso que confirma a volta dos poloneses à Copa do Mundo após 12 anos, chegando à sua oitava participação na fase final do torneio. Apesar do susto neste domingo, com a emocionante vitória por 4 a 2 sobre Montenegro no Estádio Nacional de Varsóvia, a equipe de Adam Nawalka sobrou nas Eliminatórias e estará no Mundial de 2018.

O bom momento da Polônia tem seu início a partir de 2013, com a chegada de Nawalka ao comando técnico. O treinador assumia os alvirrubros depois de uma campanha decepcionante nas Eliminatórias da Copa de 2014, em que estiveram longe de brigar até mesmo pela repescagem. Ex-meio-campista da seleção em seu período áureo, disputando o Mundial de 1978, o veterano redescobriu o potencial da seleção polonesa. Moldou uma equipe sólida, que quase sempre sabe se defender em jogos mais exigentes, enquanto costuma devorar os adversários menores. Além disso, o comandante também passou a aproveitar ao máximo a voracidade de Lewandowski.

O desempenho rumo à Euro 2016 já tinha sido marcante. A Polônia terminou na segunda colocação do Grupo D, atrás da Alemanha. Perdeu apenas uma partida, justamente para os alemães. Entretanto, também derrotou o Nationalelf em outubro de 2014. O triunfo por 2 a 0 em Varsóvia foi o primeiro da história sobre os germânicos, após 12 derrotas e seis empates nos 18 confrontos anteriores. Classificada à fase final na França, a seleção polonesa acumulou bons resultados, apesar do futebol mais burocrático. Eliminou a Suíça nas oitavas de final, até a queda em um jogo duro contra Portugal, nos pênaltis.

Por mais que não aparecesse tão bem colocada no sorteio das Eliminatórias, ocupando o terceiro pote, a Polônia caiu em um grupo relativamente acessível. Despontava como favorita contra Romênia, Dinamarca, Montenegro, Armênia e Cazaquistão. Começou a trajetória apenas empatando contra os cazaques. Mas logo deslancharia com cinco vitórias consecutivas. A derrota por 4 a 0 em Copenhague, na visita à Dinamarca, foi um sinal de alerta. Contudo, os poloneses se recuperaram com mais dois triunfos, até o duelo com Montenegro neste domingo. Embora o time corresse riscos de perder a liderança, um empate bastava.

A Polônia precisou de pouquíssimo tempo para abrir vantagem no Estádio Nacional. Em 16 minutos, já havia anotado dois gols. Krzysztof Mączyński marcou o primeiro em uma boa trama coletiva, enquanto Kamil Grosicki ampliou. Em ambos os tentos, Lewandowski teve participação decisiva, ajudando na construção das jogadas e demonstrando suas virtudes além do artilheiro implacável. Porém, os poloneses relaxaram. Montenegro começou a dar os seus avisos desde o primeiro tempo, criando alguns lances de perigo. E conseguiu arrancar o empate na segunda etapa. Stefan Mugosa diminui com um lindo tento de bicicleta, aos 33, e Nikola Vukcevic empatou cinco minutos depois, em tiro rasante de fora da área. Neste momento, com a vitória da Dinamarca sobre a Romênia, a seleção polonesa cairia à repescagem se tomasse mais um gol.

Por isso mesmo, a reação da Polônia foi tão imponente. A defesa colaborou, é verdade. Após um erro bisonho dos montenegrinos, Lewandowski recuperou a vantagem aos 41. Já aos 44, um gol contra de Filip Stojković fechou a conta, e os poloneses poderiam ter feito até mais. De qualquer maneira, o placar já era mais do que suficiente para assegurar a liderança do Grupo E e a vaga na Copa do Mundo, relegando a repescagem à Dinamarca. Resultado para desencadear a cantoria nas arquibancadas do Estádio Nacional, com uma enorme festa em vermelho e branco.

Não há como destacar a classificação da Polônia sem exaltar Lewandowski. O artilheiro marcou 16 gols em 10 partidas ao longo da campanha, quebrando o recorde anterior de Predrag Mijatovic em uma única edição das Eliminatórias europeias – embora possa ser superado por Cristiano Ronaldo, que soma 15. Mais do que isso, contribuiu decisivamente para o funcionamento do time, criando e abrindo espaços aos companheiros. Assume o papel de craque de uma maneira inquestionável. E o crescimento de seu rendimento no atual ciclo se sobressai. Desde 2014, marcou 33 gols em 31 jogos pela seleção. Antes disso, de 2008 a 2013, foram 15 tentos em 60 partidas. Sua média quadruplicou.

Todavia, não dá para resumir a atual seleção polonesa apenas a Lewandowski. O elenco possui boas opções em todos os setores, com jogadores experientes e tarimbados nas principais ligas europeias. O gol está bem servido com Łukasz Fabiański, Wojciech Szczęsny e Przemysław Tytoń. Łukasz Piszczek e Kamil Glik são os homens de referência na zaga. O meio tem Grzegorz Krychowiak, Kamil Grosicki e Jakub Błaszczykowski, além de jovens em ascensão como Piotr Zieliński e Karol Linetty. Por fim, no ataque, o “presidente”, dono da braçadeira de capitão.

A Copa do Mundo oferece um teste de fogo à Polônia. O nível de exigência será bem maior, especialmente pelos confrontos com as seleções de outros continentes. Os poloneses não enfrentam equipes de fora da Europa desde 2012, em amistoso contra o Uruguai. De qualquer maneira, há potencial para almejar os mata-matas. É um time rodado, com uma geração que sabe o peso que a Rússia terá para se marcar na história. A própria proximidade territorial pode garantir a presença massiva de torcedores nas arquibancadas. Caberá aos jogadores recompensarem a devoção. Lewandowski e seus companheiros estão mais do que aptos a isso.