Uruguay Colombia Soccer Copa Libertadores

A Libertadores continua bem legal, e a gente te ajuda a escolher para quem torcer

Depois de uma Copa do Mundo no caminho, ela está de volta: a Copa da Libertadores retoma a edição mais alternativa de sua história. Já é certeza que a competição continental terá um campeão inédito em 2014. Um vencedor que também escreverá um dos capítulos mais interessantes da competição, independente de quem seja. San Lorenzo, Bolívar, Defensor e Nacional do Paraguai têm muito a contar.

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E, por mais que os brasileiros tenham ficado pelo caminho, não é por isso que você deixará de acompanhar a Libertadores. Ainda que não exista o fator paixão/secação para nortear as suas escolhas, a copa deste ano está sensacional pela imprevisibilidade. Já foram muitos momentos épicos até aqui. Algo que deverá continuar nas semifinais e na decisão. O primeiro episódio começa nesta terça, com Nacional e Defensor se enfrentando em Assunção, enquanto na quarta San Lorenzo e Bolívar fazem o jogo de ida em Buenos Aires.

Para retomar a empolgação com a Libertadores, ajudamos você a ter por quem torcer nestes momentos finais. Presente, passado e futuro para exaltar as particularidades de cada um dos times ainda vivos no torneio e para, quem sabe, despertar a sua paixão por algum deles. Para complementar, vale ler também o guia preparado pelo Impedimento, com as análises mais específicas sobre como os semifinalistas atravessaram as últimas semanas.

SAN LORENZO

Brazil Argentina Soccer Copa Libertadores

Por que ganhar a Libertadores seria sensacional?

CASLA. A sigla do clube, mas também a eterna chacota do Club Atletico Sin Libertadores de America. Porque o San Lorenzo continua como o único grande da Argentina que nunca conquistou o título continental, sequer chegou a uma decisão. Ficar com o título seria uma forma de responder aos anos em que foi piadas aos rivais – algo que atleticanos, corintianos e colorados tiveram o gosto de sentir nos últimos anos. Um clube de tradição que merece a taça, por toda a sua história. No currículo, apenas uma Copa Sul-Americana e uma Mercosul. Também vale para homenagear Ángel Correa, revelação do clube que não poderá disputar a reta final do torneio após descobrir um tumor no coração.

A importância desse título para o país

A Argentina ainda é a maior campeã da Libertadores. Mesmo assim, nos últimos nove anos, só conseguiu interromper duas vezes a série de vitórias dos brasileiros na competição. Esse é o momento certo para recuperar o título e marcar presença. Além disso, o sucesso do San Lorenzo pode levantar um ponto importante nas discussões da estrutura interna do futebol local. O Ciclón ganhou as manchetes em meados deste ano quando seu presidente decidiu romper com a barra brava. Deixar o clube em evidência pode potencializar o debate, ainda que não haja uma relação direta entre os fatores.

O que já rolou de épico nessa campanha

O San Lorenzo está sendo especialista em tornar esta Libertadores tão emocionante. Porque quase todas as suas classificações foram envolvidas pelo inacreditável. Primeiro, na miraculosa vitória sobre o Botafogo no Nuevo Gasómetro que selou uma vaga nos mata-matas, com o gol decisivo aos 42 do segundo tempo. Depois, pelas penalidades salvadoras contra o Grêmio e também pela forma como os cuervos superaram o Cruzeiro. Diante de tantos milagres, a torcida do Papa Francisco parece cada vez mais coerente.

Um ídolo para chamar de seu

Herói do título, Torrico entrega ao Papa as luvas que usou na última rodada (Divulgação)

Herói do título, Torrico entrega ao Papa as luvas que usou na última rodada (Divulgação)

Ignacio Piatti já está na história do San Lorenzo. Protagonista do time na ascensão recente, não foi brilhante durante toda a Libertadores, mas decidiu contra o Botafogo.  Despede-se do clube nesta reta final do torneio, já acertado com o Montreal Impact. Mas, apesar do momento, é difícil de ignorar Torrico como personagem. Porque o último título argentino do Ciclón só foi possível pelas defesas incríveis na rodada final. E as luvas, recebidas pelo Papa, mostraram-se mesmo abençoadas na Libertadores. O goleiro teve ótimas atuações contra Grêmio e Cruzeiro, crescendo demais nos momentos decisivos. Em uma equipe que joga por um lance certeiro, jogar com uma muralha no gol vai sendo essencial.

O craque do passado para respeitar

É impossível falar da história do San Lorenzo sem se lembrar de José Sanfilippo. O atacante foi símbolo do clube, quatro vezes artilheiro do Campeonato Argentino e também um dos maiores craques da América do Sul entre as décadas de 1950 e 1960. Lenda que fazia gols até no Viejo Gasómetro que se transformara em supermercado. Mas, para ir além do mito, vale lembrar que dois dos melhores jogadores do futebol europeu na década de 1930 tiveram passagens marcantes por Boedo: Luis Monti e Isidro Lángara.

Monti defendeu as cores do Ciclón por oito anos, sendo três vezes campeão nacional e ídolo da seleção. Vice-campeão da Copa de 1930, o meio-campista atraiu o interesse da Juventus, onde se tornou referência. Em 1934, acabou campeão do mundo com a Azzurra. Já Lángara foi o primeiro grande goleador de La Liga, artilheiro pelo Oviedo em três oportunidades. Porém, com o estouro da Guerra Civil Espanhola, saiu em excursão com a seleção do País Basco para juntar fundos aos soldados de sua comunidade autônoma. Com o início da ditadura de Franco, permaneceu exilado em Buenos Aires e se juntou ao San Lorenzo. Tornou-se artilheiro também no Campeonato Argentino e marcou 110 gols em quatro temporadas com os cuervos.

Um grande capítulo da história

As raízes do San Lorenzo estão no futebol de rua. O padre Lorenzo Massa é considerado o patrono do clube pela forma como protegeu os garotos que sempre jogavam bola em uma esquina de Buenos Aires. Temendo que algum deles fosse atropelado por um bonde, o sacerdote cedeu o fundo de sua igreja para que continuassem praticando sem riscos. Foi o primeiro passo para que o clube fosse fundado em 1908. O nome de San Lorenzo homenageia o padre, o santo e também a Batalha de San Lorenzo, importante na Independência da Argentina. E o belo gesto de Lorenzo Massa foi seguido por Federico Monti, um dos fundadores do Ciclón: o jogador doou 120 pesos que permitiram a filiação do clube à AFA.

BOLÍVAR
Callejón, do Bolívar, comemora gol contra o Emelec (AP Photo/Juan Karita)

Callejón, do Bolívar, comemora gol contra o Emelec (AP Photo/Juan Karita)

Por que ganhar a Libertadores seria sensacional?

Um time boliviano campeão da Libertadores. Precisa falar mais alguma coisa? Quando a mística do campeonato continental está em jogo, sempre citam a altitude de La Paz. E nada mais simbólico que um time do topo dos Andes conquiste a edição mais peculiar da história da Copa. Seria um prêmio, também, ao trabalho bem feito pela diretoria dos celestes, sobretudo pelo planejamento.

A importância desse título para o país

Assim como em muitos outros aspectos da vida, a Bolívia sempre foi periferia do futebol sul-americano. Virou o jogo um pouco com a classificação à Copa de 1994, mas a pecha da altitude sempre se sobrepôs a qualquer outra discussão. Vencer a Libertadores poderia superar isso. Primeiro, porque é uma conquista sem precedentes no futebol continental. No máximo, os bolivianos haviam faturado a extinta e esquecida Recopa Sul-Americana de 1970. Depois, por indicar um caminho que vai muito além da altitude para o sucesso do futebol local.

O que já rolou de épico nessa campanha

O Bolívar já tinha feito uma primeira fase imponente, principalmente porque foi além dos resultados apenas no Estádio Hernando Siles. Os celestes venceram o León no México e empataram com o Flamengo no Maracanã sendo superiores. E, depois de vencerem os mexicanos novamente nas oitavas de final, fizeram um jogo emocionante em Lanús na etapa seguinte. A vitória por 1 a 0, com um gol de Arce aos 42 do segundo tempo, consumou a classificação em uma partida aberta em La Paz.

Um ídolo para chamar de seu

azkargorta

O Bolívar possui bons jogadores em seu elenco. William Ferreira é a referência técnica, Callejón tem aparecido bem, Arce se tornou decisivo e Walter Flores é o esteio defensivo. Entretanto, esse coletivo só funciona tão bem graças a Xabier Azkargorta.  E o técnico é bem mais do que um bigodão contagiante. Responsável pela seleção boliviana que foi tão bem em 1994, o comandante renovou a fórmula no atual time celeste. Assumiu o clube no meio da Libertadores e é o principal responsável pelo equilíbrio de uma equipe bem encaixada.

O craque do passado para respeitar

El Maestro. Victor Agustín Ugarte só pode disputar uma partida de Copa do Mundo, justo a derrota por 8 a 0 para o Uruguai em 1950. A história que escreveu depois, no entanto, o colocou como o maior craque da história do futebol boliviano. O atacante se consagrou no início do profissionalismo no futebol local, ajudando o Bolívar a conquistar três títulos nacionais na década de 1950. Já o grande momento veio em 1957, no massacre por 7 a 2 contra o River Plate em amistoso, quando Ugarte anotou três tentos. A façanha, somada à vitória por 2 a 0 sobre a Argentina nas Eliminatórias da Copa de 1958, acabaram tirando o ídolo do clube e encerrando o período de glórias da Academia.

Um grande capítulo da história

O Bolívar foi fundado para ser um clube do povo boliviano. Os celestes surgiram em 1925, ano em que o país comemorava o centenário de sua independência. A ideia surgiu a partir de um grupo de jovens que jogavam futebol juntos e resolveram ir além, com a criação de uma equipe que rivalizasse com os grandes de La Paz. O próprio nome do clube, mais do que uma homenagem, é uma provocação. Simon Bolívar foi escolhido para exaltar o maior herói nacional e um dos grandes libertadores da América. Porém, também para confrontar os estrangeirismos comuns nos nomes das outras equipes do país, como o Workmen, o New Fighters, o Old Boys, o Youngest e o The Strongest – que se tornaria o seu maior rival.

DEFENSOR SPORTING

Uruguay Bolivia Soccer Copa Libertadores

Por que ganhar a Libertadores seria sensacional?

O Defensor é um time médio do Uruguai, mas daqueles queridos por todas as outras torcidas. Muito pela forma como os violetas vêm conseguindo resgatar o orgulho charrua nesta Libertadores, tão destroçado depois das campanhas pífias de Nacional e Peñarol. A equipe pode não apresentar um futebol vistoso durante 90 minutos, mas a forma ávida como ataca, com a rapidez de Gedoz e De Arrascaeta, é um belo atrativo. Mais do que isso, o Defensor é o Uruguai na Libertadores pela forma como foi abraçado pelo resto do país. O Centenário cheio no duelo decisivo das quartas de final é uma prova.

A importância desse título para o país

O futebol uruguaio sempre foi marcado pelo dualismo entre Peñarol e Nacional. Tanto nos títulos quanto na torcida, já que 83% do país se polarizam entre os gigantes. O Defensor já iguala a melhor campanha de um pequeno uruguaio. Porém, o título marco ainda maior do processo de abertura que vem se intensificando nos últimos tempos, com sucessos frequentes dos menores. E até um exemplo para a dupla de ferro, de tantas penúrias nos últimos tempos, se reinventar.

O que já rolou de épico nessa campanha

O Cruzeiro é, sem dúvidas, o melhor clube brasileiro no último ano. Que acabou surpreendido pela grande atuação do Defensor em Montevidéu. A primeira prova do que os violetas seriam capazes. Os uruguaios buscaram uma classificação emocionante sobre o The Strongest nas oitavas de final, revertendo em casa a derrota por 2 a 0 em La Paz e vencendo nos pênaltis. Já nas quartas, engoliram o bom time do Atlético Nacional em Medellín e seguraram os visitantes em Montevidéu em um jogo no qual os colombianos martelaram o tempo todo.

Um ídolo para chamar de seu

Olivera é o destaque do Defensor

Olivera é o destaque do Defensor

Nicolás Olivera foi eleito o melhor jogador do Mundial Sub-20 de 1997. Precisou esperar 17 anos para, enfim, cumprir todas aquelas promessas. Depois de uma carreira errante, o meia tem sido mesmo o craque que se espera no Defensor. Dono de boa qualidade técnica, vai mostrando um poder decisivo imenso. Foi dele o gol que prorrogou a vida do Defensor contra o Strongest e o que matou o Atlético Nacional. Estrela não falta ao veterano.

O craque do passado para respeitar

José Loncha García foi um dos jogadores mais talentosos surgidos no Uruguai nos anos 1940. No entanto, a Segunda Guerra Mundial, que não permitiu a realização da Copa do Mundo naquela década, impediu o craque de ser mais conhecido. Restaram nas lembranças apenas seus feitos nos Campeonatos Sul-Americanos, bem como o amor à camisa do Defensor, pelo qual encantou os uruguaios por anos. Mesmo cobiçado pelos grandes do país e também da Argentina, Loncha se manteve fiel ao violeta. O atacante acabou deixando o clube apenas em 1949, em transferência recorde para o Bologna. Nome certo na Copa de 1950, assim, não pôde participar do Maracanazo.

Um grande capítulo da história

O Defensor tem um grande significado na história do Uruguai. Porque, durante os anos mais duros da ditadura militar no país, os violetas mostraram como o futebol podia ser uma válvula de escape para o terror vivido no país. Em 1976, o Defensor foi campeão nacional, o primeiro a quebrar o duopólio de Nacional e Peñarol desde o início do profissionalismo no país. Uma equipe treinada por Ricardo De León e com alguns jogadores ligados à esquerda local. E que, para simbolizar esse momento de quebra, deram a volta olímpica começando pela esquerda. Além disso, o estádio Luiz Franzini também era um ponto de encontro para opositores da ditadura. Contudo, muitos dos personagens daquele time acabaram perseguidos pelo regime.

NACIONAL-PAR
David Mendoza comemora classificação do Nacional-PAR em cima do Vélez (AP Photo/Victor R. Caivano)

David Mendoza comemora classificação do Nacional-PAR em cima do Vélez (AP Photo/Victor R. Caivano)

Por que ganhar a Libertadores seria sensacional?

Ninguém representa melhor a alternatividade da Libertadores 2014 do que o Nacional. O site nacionalquerido.com é praticamente uma profecia do que aconteceu dentro de campo. O clube simpático, que quase sempre era saco de pancadas na copa, se tornou capaz de surpreender a todos. E a folha salarial que representava uma pequena fração dos magnatas do torneio não foi impedimento para que o Tricolor ficasse pelo caminho. A eficiência da equipe e a vontade de seus jogadores valeram mais.

A importância desse título para o país

O Paraguai perdeu um pouco de seu orgulho com o futebol depois da última campanha da seleção nas Eliminatórias. A campanha do Olimpia na Libertadores de 2013 serviu de alento, mas o título do Nacional poderia ser muito mais emblemático. Sobretudo, porque representa um modelo de gestão consciente e bem feita que pode ser seguido dentro dos baixos padrões financeiros do país. Além do mais, dentro da história dos paraguaios na copa, seria o segundo clube a ficar com a taça – e um motivo a mais para o Cerro Porteño sofrer com a galhofa. Como o Nacional não tem rivais locais, fica fácil para o resto do país abraçar o time.

O que já rolou de épico nessa campanha

O Nacional foi o pior dos classificados para as oitavas de final da Libertadores. Teve que encarar o Vélez, o melhor da primeira fase. E a consciência do Tricolor foi essencial no triunfo histórico. A vitória por 1 a 0 em Assunção ficou até barata por tudo o que os anfitriões jogaram. Já em Buenos Aires, imperou o pragmatismo. O Nacional suportou muito bem a pressão e matou o jogo nos contra-ataques fatais.

Um ídolo para chamar de seu

Ignacio Don é o goleiro do Nacional

Ignacio Don é o goleiro do Nacional

Se o Nacional passou por uma evolução nos últimos anos, poucos jogadores foram tão fundamentais nesse processo do que Ignacio Don. O veterano de 32 anos é prata da casa do Nacional e voltou ao clube em 2010, participando das principais conquistas do Tricolor nos últimos tempos. Embora não seja o capitão, o camisa 1 é uma das lideranças dentro de campo, especialmente como referência técnica. E as boas defesas têm ajudado bastante o Nacional Querido em sua epopeia.

O craque do passado para respeitar

Quem já entrou no site do Nacional Querido, certamente leu as exaltações a Arsenio Erico. Não é por menos. Porque o melhor jogador da história do Paraguai surgiu justamente com a camisa tricolor. A Guerra do Chaco acelerou a ida do garoto de 16 anos ao Independiente, onde se tornou o maior goleador da história do Campeonato Argentino. Mas, já consagrado, o atacante ainda retornou ao Nacional para conquistar o título paraguaio em 1942. Tão convicto do amor por seu país, recusou a proposta para defender a Argentina, mesmo sem ter jogado pela seleção paraguaia em partidas oficiais.

Um grande capítulo da história

As cores são as da bandeira e o nome já indica a que o Nacional veio representar. No início do século, o Paraguai vivia uma situação política bastante instável, em guerra civil e com golpes no poder. O clube surgiu nesse contexto, em 1904, como um símbolo local. Os tricolores também participaram do processo de fundação no Paraguai, como a segunda equipe mais antiga do país, e mesmo da introdução do esporte como prática escolar do país – afinal, a maioria dos fundadores do Nacional fazia parte do Colégio Nacional. E as glórias começaram cedo, com o Nacional sendo campeão paraguaio em duas das primeiras cinco edições da liga.

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PS: Em um texto sobre futebol sul-americano, fica a minha homenagem pessoal ao Impedimento depois do anúncio de hoje. Uma noticia que conseguiu ser ainda pior do que a chegada de Dunga à seleção e que deixa uma lacuna não só na cobertura do futebol, mas do jornalismo. Fica a gratidão pela forma como os nossos amigos sudacas nos brindaram com ótimos textos e muita cultura, assim como a esperança de que possam ressurgir (como site renovado diariamente, porque o Twitter e o Facebook continuam) em um futuro breve.