Bale (esq.) comemora com Cristiano Ronaldo o massacre do Real Madrid sobre o Schalke 04 (AP Photo/Frank Augstein)

A Liga dos Campeões deve mudar o formato ou esse ano foi um ponto fora da curva?

Seis de oito visitantes venceram seus jogos nas oitavas de final da Liga dos Campeões. Um deles empatou, o Galatasaray, que recebeu o favorito Chelsea. O Olympiacos venceu o Manchester United, sendo o único mandante a conseguir a proeza. Além dos números que chamam a atenção, a vitória assustadora do Real Madrid sobre o Schalke 04 por 6 a 1 na Alemanha fez com que a pergunta viesse mais forte: a Liga dos Campeões deveria pensar em mudar o seu formato para ter mais equilíbrio? Olhando o que aconteceu nesses jogos, a impressão que fica é que algo precisa ser feito. Mas vamos analisar com calma para não tirar conclusões no calor do momento de uma eliminatória que nem terminou.

Na fase de oitavas de final, os times que são primeiros colocados em seus grupos jogam a segunda partida em casa. Em tese, são os times mais fortes. Nesta temporada, praticamente todos os confrontos ficaram definidos, exceção, talvez, a três, ainda que, em todos, haja um favorito à conquista da classificação.

No primeiro deles, há uma chance pequena, mas possível, de reverter o resultado. É o Milan, que perdeu em casa por 1 a 0 para o Atlético de Madrid, mas jogou melhor que o adversário. Precisará repetir a boa atuação, mas é um resultado possível, ainda que bastante difícil.

O segundo, o Galatasaray, que empatou em casa com o Chelsea por 1 a 1 e precisa de um empate por dois gols ou mais, o que é até imaginável. Ou até uma improvável, mas possível, vitória sobre os Blues em Londres.

A terceira, e mais provável de ter uma virada, é a derrota do Manchester United por 2 a 0 para o Olympiacos na Grécia. Tudo bem, o time inglês está em crise, mas vencer os gregos por 2 a 0 (ou talvez três) não é nenhum milagre, cá entre nós.

Em todos os confrontos, havia um favorito. O único que criava discussão era o Manchester City x Barcelona. O time inglês era badalado e parecia ser o único segundo colocado em pé de igualdade com o primeiro colocado com o qual foi sorteado. O jogo de ida mostrou que não. O Barcelona venceu por 2 a 0 em Manchester e encaminhou a classificação. Nos demais, era esperado que os favoritos não tivessem dificuldades. Então, qual é a surpresa?

É justamente pela enorme facilidade que alguns times encontraram. O Paris Saint-Germain atropelou o Bayer Leverkusen por 4 a 0 na casa do adversário. O Real Madrid fez um assustador 6 a 1 no Schalke 04. O Borussia Dortmund meteu 4 a 2 no Zenit em São Petersburgo. Essas três vitórias, particularmente, chamaram muito a atenção pela facilidade que foram conseguidas.

São, de fato, vitórias marcantes, que já aconteceram outras vezes, mas não é tão frequente assim como ficou a impressão. Resolvemos voltar nas temporadas anteriores para saber se esse é um fenômeno que virou frequente ou se foi um episódio isolado.

2012/13: visitantes vencem só uma vez mais

Nos jogos de ida, tivemos três vitórias de visitantes, duas vitórias de mandantes e três empates entre os oito jogos. O Bayern de Munique venceu o Arsenal por 3 a 1, a Juventus bateu o Celtic por 3 a 0 e o Paris Saint-Germain derrotou o Valencia por 2 a 1. Os jogos que acabaram em vitória dos mandantes foram o 1 a 0 do Porto sobre o Málaga e o 2 a 0 do Milan sobre o Barcelona. Nos demais jogos, empates entre Shakhtar Donetsk e Borussia Dortmund por 2 a 2, entre Real Madrid e Manchester United por 1 a 1 e entre Galatasaray e Schalke 04 por 1 a 1.

No fim das contas, dois segundos colocados se classificaram: o Real Madrid, que venceu o Manchester United na casa do adversário no jogo de volta por 2 a 1, e o Galatasaray, que conseguiu vencer o Schalke 04 na Alemanha por 3 a 2. Nos demais, os primeiros colocados avançaram: Málaga, Borussia Dortmund, Bayern de Munique, Juventus, Paris Saint-Germain e Barcelona.

2011/12: mandantes dominam o jogo de ida

Nos jogos de ida, os mandantes venceram seis dos oito jogos. Só o Barcelona venceu fora de casa (3 a 1 no Bayer Leverkusen) e houve um empate entre CSKA Moscou e Real Madrid. Ou seja, um número exatamente inverno ao da temporada 2013/14.

Nos jogos de volta, a maioria dos mandantes acabou mesmo eliminada, com direito a um massacre por 7 a 0 do Bayern sobre o Basel e o Barcelona fazendo 7 a 1 no Bayer Leverkusen no Camp Nou. No saldo total, só dois segundos colocados avançaram: o Milan, que eliminou o Arsenal, e o Olympique de Marseille, que bateu a Internazionale.

2010/11: visitantes vencem a maioria dos jogos

Nessa temporada, foram quatro vitórias de visitantes no jogo de ida. O Tottenham surpreendeu o Milan por 1 a 0, o Shakhtar bateu a Roma na Itália por 3 a 2, o Bayern de Munique venceu a Internazionale por 1 a 0 e o Chelsea venceu o Kobenhavn por 2 a 0. Houve ainda três empates (Lyon 1×1 Real Madrid, Valencia 1×1 Schalke 04, Olympique de Marseille 0×0 Manchester United) e uma vitória de mandante (Arsenal 2×1 Barcelona).

Nos jogos de volta, sete primeiros colocados avançaram: Real Madrid (3×0 no Lyon), Tottenham (0×0 no Milan), Barcelona (3×1 no Arsenal), Shakhtar (3×0 na Roma), Schalke 04 (3×1 no Valencia), Chelsea (0×0 no Kobenhavn) e Manchester United (2×1 no Olympique de Marseille). Só a Internazionale passou entre as segundas colocadas com uma vitória surpreendente por 3 a 2 sobre o Bayern de Munique.

2009/10: mandantes vencem a maioria dos jogos

Quatro vitórias dos mandantes marcaram a rodada de ida das oitavas de final: Bayern 2×1 Fiorentina, Lyon 1×0 Real Madrid, Internazionale 2×1 Chelsea, Porto 2×1 Arsenal. Houve dois empates (CSKA Moscou 1×1 Sevilla, Stuttgart 1×1 Barcelona) e duas vitórias de visitantes (Olympiacos 0×1 Bordeaux, Milan 2×3 Manchester United).

No final da eliminatória, quatro primeiros colocados avançaram (Manchester United, Barcelona, Bordeaux e Arsenal) e quatro segundos colocados passaram (Bayern de Munique, CSKA Moscou, Lyon e Internazionale).

2008/09: muitos empates

Duas vitórias de visitantes (Sporting 0×5 Bayern de Munique, Liverpool 1×0 Real Madrid), quatro empates (Lyon 1×1 Barcelona, Internazionale 0×0 Manchester United, Atlético de Madrid 2×2 Porto, Villarreal 1×1 Panathinaikos) e uma vitória dos mandantes (Chelsea 1×0 Juventus).

Na volta, cinco primeiros colocados conseguiram a classificação: Barcelona (5×2 no Lyon), Bayern de Munique (7×1 no Sporting), Liverpool (4×0 no Real Madrid), Manchester United (2×0 na Internazionale) e Porto (0×0 no Atlético de Madrid, passou nos gols fora). Entre os segundos colocados, o Villarreal passou pelo Olympiacos (venceu fora de casa por 2 a 1) e o Arsenal eliminou a Roma (perdeu por 1 a 0, mas venceu nos pênaltis).

Devagar com o andor que o santo é de barro

Já deu para perceber que o que aconteceu nas oitavas de final deste ano foi um ato isolado, né? Não é algo corriqueiro. É normal que esta fase da competição tenha alguns confrontos desequilibrados. Há segundos colocados que não são fortes o bastante para competir no mais alto nível, mas mesmo assim, em geral não há um massacre. Inclusive um dos anos, 2011/12, a relação foi inversa à de agora, com seis mandantes vencendo.

Não quer dizer que a ideia de diminuir o número de times seja ruim. Só quer dizer que esse não é um motivo realmente relevante. Basta lembrar um episódio de 2011, aqui na América do Sul. A Libertadores daquele ano teve quatro eliminações de times brasileiros em uma só noite: o Fluminense caiu para o Libertad por 3 a 0, depois de vencer o jogo de ida por 3 a 1; o Cruzeiro foi derrotado pelo Once Caldas por 2 a 0, depois de vencer por 2 a 1 fora de casa; o Internacional foi derrotado pelo Peñarol por 2 a 1 em casa depois de empatar por 1 a 1 fora; e o Grêmio caiu diante da Universidad Católica por 1 a 0, depois de vencer por 2 a 1 em casa.

As eliminações desse dia 4 de maio suscitaram diversas teorias sobre como o futebol brasileiro subestimava os adversários, como se organizava mal… Naquele mesmo ano, o Santos acabaria campeão. No ano anterior, o Internacional tinha sido campeão. No ano seguinte, o Corinthians levou a taça. Um ano depois, o Atlético Mineiro colocou a faixa no peito. Evidentemente a questão de uma suposta crise no futebol brasileiro foi exagera, por uma coincidência de quatro eliminações dos times do país em um só dia.

Então, como dizem os antigos, devagar com o andor que o santo é de barro. O desequilíbrio dos confrontos das oitavas de final da Liga dos Campeões nesta temporada foi mesmo surpreendente e não é bom para o campeonato que isso aconteça, mas é preciso ir devagar quando se fala em mudança de regulamento.