As histórias europeias mais contadas sobre o Olympique de Marseille são aquelas ocorridas no início da década de 1990. O timaço que dominava o Campeonato Francês e logo se tornou um dos mais temidos da Europa. Foram duas finais e um título na Liga dos Campeões para os aclamados elencos montados com o dinheiro de Bernard Tapie, que tantos craques levou à Provença. O escândalo de manipulação de resultados na Ligue 1, porém, fez com que os marselheses despencassem à segunda divisão e precisassem se reconstruir para uma nova era dourada. A Champions não era mais realidade frequente na virada do século, embora a Copa da Uefa tenha se tornado um novo motivo de cobiça. Cobiça esta que permanece e se renova com o duelo contra o Atlético de Madrid na final da Liga Europa, nesta quarta-feira.

O sinal definitivo da retomada no Estádio Vélodrome aconteceu em 1998/99. Naquela temporada, o Olympique montou o primeiro time realmente competitivo desde o vendaval. E em suas duas principais frentes, ficou no quase. Apesar de liderar boa parte da campanha, em uma disputa acirradíssima com o Bordeaux, acabou perdendo o título francês por um ponto. Já a Copa da Uefa providenciava o retorno aos sonhos continentais, tão comuns entre os marselheses em tempos não tão distantes. Através da competição, os celestes mostravam ao restante da Europa que estavam de volta.

Era um time bastante forte do Olympique de Marseille, treinado por Rolland Courbis, um técnico que vinha em afirmação na década de 1990. E se não tinha tantos craques quanto os tempos de Tapie, não se negava a qualidade dos protagonistas. Andreas Köpke era o goleiro em parte da campanha, embora tenha perdido espaço no segundo semestre. A defesa tinha o já veterano Laurent Blanc, ao lado do ascendente William Gallas. Robert Pirès, sensação do Metz nas temporadas anteriores, comandava o meio-campo. Já no ataque, atletas rodados como Fabrizio Ravanelli e Christophe Dugarry.

Desde as primeiras fases, o Olympique apresentou seu potencial para ambicionar alto na competição. A supremacia dentro do Vélodrome impulsionou a campanha. Entre as vítimas, eliminaram o Werder Bremen de Torsten Frings, Frank Rost, Marco Bode e Andreas Herzog; o Monaco de Fabien Barthez, David Trezeguet, Victor Ikpeba e Ludovic Giuly; o “EuroCelta” de Valeri Karpin, Aleksandr Mostovoi, Lyuboslav Penev e Claude Makélélé; e o Bologna de Kennet Andersson, Giuseppe Signori, Klas Ingesson e Francesco Antonioli. Apenas contra os italianos, nas semifinais, é que os celestes não conquistaram a vitória dentro de casa, dependendo dos gols marcados fora após dois empates para avançar à final. Então, a maior pedreira: o Parma de Gianluigi Buffon, Lilian Thuram, Hernán Crespo, Juan Sebastián Verón, Fabio Cannavaro, Dino Baggio, Diego Fuser, Enrico Chiesa e uma lista ampla de grandes jogadores que sequer cabia no time titular de Alberto Malesani.

A qualidade do elenco tornava o Parma favorito, obviamente, até pelo domínio dos italianos nas competições continentais durante aquela década. E o Olympique de Marseille teria sérios problemas a resolver. No segundo jogo das semifinais contra o Bologna, ocorreu uma briga generalizada no túnel que dava acesso aos vestiários. A confusão gerou cartões amarelos a Gallas e Ravanelli, que terminaram excluídos da final, assim como suspensões maiores a Dugarry e Hamada Jambay. Sem a sua espinha dorsal, o técnico Rolland Courbis precisava se virar para encarar os gialloblù no Estádio Luzhniki.

Como era de se esperar, o Olympique adotou uma postura cautelosa. Entrincheirou seu time na defesa, com Pirès e Florian Maurice isolados na frente. Nada que tenha resolvido, diante do poderio ofensivo do Parma. Os italianos abriram o placar com 25 minutos, num erro da defesa que Crespo não perdoou. Aos 36, uma cabeçada de Paolo Vanoli aumentou a contagem. E coube a Enrico Chiesa fechar a conta no segundo tempo, acertando um lindo chute após cruzamento de Verón. O sonho continental se encerrou em grande frustração aos marselheses, o que se ampliou anos depois, diante das acusações de que os gialloblù teriam usado substâncias proibidas antes da partida em Moscou. Nada que apagasse os 3 a 0 do placar.

O Olympique de Marseille voltou à Copa da Uefa em 2003/04. Terceiro colocado no Campeonato Francês da temporada anterior, caiu ainda na fase de grupos da Champions, em difícil chave que contava com os galácticos do Real Madrid e o futuro campeão Porto. A repescagem ao segundo torneio continental, todavia, acabou saindo muito melhor aos celestes, que entraram diretamente nos 16-avos de final.

O elenco havia passado por várias mudanças ao longo daquele quinquênio. A começar pelo próprio comando técnico, dirigido pelo antigo ídolo José Anigo. Já em campo, uma renovação profunda, que não diminuía a qualidade do Olympique. Fabien Barthez retornava ao clube que o consagrou, após frustrada passagem pelo Manchester United. Abdoulaye Meïté, Demetrius Ferreira, Manuel dos Santos e Habib Beye formavam a linha defensiva. Mathieu Flamini despontava na cabeça de área, em losango central formado ainda por Brahim Hemdani, Sylvain N’Diaye e Camel Meriem. Já no ataque, enquanto Steve Marlet oferecia velocidade, a estrela em ascensão atendia pelo nome de Didier Drogba.

O marfinense, de fato, arrebentou naquela Copa da Uefa. Seus gols desequilibraram desde a primeira etapa, em classificação apertada contra o Dnipro. Nas oitavas de final, o Liverpool surgiu como pedreira. Ainda treinados por Gérard Houllier, que os levou ao título continental três anos antes, os Reds viviam dias de Michael Owen estrelando o seu ataque, acompanhado por Emile Heskey e Milan Baros. Ninguém que vivesse o momento de Drogba. Após arrancar o empate por 1 a 1 em Anfield, o centroavante comandou a virada por 2 a 1 no Vélodrome, que confirmava os franceses na fase seguinte.

O pesadelo italiano retornava com a Internazionale nas quartas de final. E que os nerazzurri tivessem Christian Vieri, Carlos Gamarra, Francesco Toldo, Javier Zanetti e o “carrasco” Fabio Cannavaro, não atravessavam o seu melhor momento. Drogba fez o Vélodrome tremer com o triunfo por 1 a 0 e Meriem repetiu a dose em pleno San Siro. Por fim, outra parada dura nas semifinais. O Newcastle de Sir Bobby Robson investia alto, em tempos de Alan Shearer, Shay Given, Laurent Robert e Gary Speed. Após o 0 a 0 em St. James’ Park, quem apareceu? Ele mesmo, Drogba. Abriu o placar com um golaço, arrancando da intermediária e dando uma linda finta no marcador antes de bater. Já no segundo tempo, um chute potente de direita confirmou o Olympique na final.

Assim como acontecerá nesta quarta, os marselheses encararam um espanhol na decisão. Mais do que isso, um espanhol que vinha de título nacional recente e de finais de Champions. O Valencia de Rafa Benítez certamente é um dos melhores times do país neste século. Tinha muita qualidade individual, com Vicente, David Albelda, Rubén Baraja, Pablo Aimar, e também segurança na defesa encabeçada por Santiago Cañizares, Roberto Ayala e Carlos Marchena. Outra vez, os celestes partiam como azarões à final, disputada no Estádio Ullevi, em Gotemburgo.

As 14 partidas de invencibilidade do Valencia não intimidaram o Olympique de Marseille. Os espanhóis dominaram o primeiro tempo, embora os franceses também tenham criado chances de abrir o placar. Nos acréscimos da etapa inicial, porém, o sonho ruiu. Fabien Barthez cometeu um pênalti, foi expulso e permitiu que Vicente abrisse o placar. Com um a mais, os Ches tinham a partida em suas mãos. Consumaram a vitória por 2 a 0 aos 13 do segundo tempo, com Mista livre para fuzilar com a parte externa do pé. A fome de gols de Drogba, desta vez, não seria suficiente para mudar a história.

Desde então, o Olympique de Marseille esperou 14 anos. Foram 14 anos de obsessão em que, no máximo, caíram nas quartas de final de uma Liga dos Campeões e de uma Liga Europa. Nesta temporada, contudo, os sonhos se revivem no Vélodrome. Em uma ótima campanha, os celestes bateram adversários de peso e alcançaram a final, apesar de todo o desgaste físico. É um time de ótimas peças, como em outros anos. E que de novo luta contra os favoritos da noite, o Atlético de Madrid. A decisão em Lyon, pela terceira vez, oferece uma reconciliação com a história dos marselheses.

O Atlético de Madrid também será tema de um especial logo mais