Capenga desde o começo de 2014, o Lille aos poucos dá sinais de recuperação na luta pela terceira (e última) vaga para a próxima edição da Liga dos Campeões. O LOSC, que teve seu lugar no pódio ameaçado por diversas vezes, agora conseguiu se desgarrar dos demais concorrentes ao ter uma rodada perfeita na Ligue 1. A dez jogos do fim do campeonato, o time está quatro pontos à frente do Saint-Étienne, quarto colocado, e a sete do Lyon, quinto. Nada mal para quem já teve um bloco bem maior de perseguidores a ponto de morder seu calcanhar.

Além de bater o Montpellier por 2 a 0, o Lille contou com o tropeço do Saint-Étienne, derrotado por 1 a 0 pelo Lorient fora de casa. Os Dogues confirmam sua guinada em um momento crucial da Ligue 1, exatamente quando mais se cobrava uma reação por parte dos comandados de René Girard. Tanto que os jogadores adotaram um discurso ensaiado do “calamos os críticos e merecemos estar aqui”.

Ao contrário do jogo anterior, quando teve uma apresentação fraca diante do lanterna Ajaccio, o Lille soube dominar sem problemas o Montpellier, até então invicto em 2014. Os donos da casa não fizeram uma partida de encher os olhos, mas fizeram uma apresentação bastante sólida a ponto de derrubar um bom MHSC, que pecou nos espaços oferecidos aos Dogues nas jogadas de bola parada.

Por mais que aparentasse estar em queda livre, o Lille se consolida no pódio da Ligue 1, de onde não sai desde 5 de outubro. A chance de permanecer entre os três primeiros colocados aumenta se considerarmos que o time pega o Nantes na próxima rodada. Basta ver que os Canários empataram com o lanterna Ajaccio por 2 a 2 em casa, vivem uma crise sem fim e veem a zona do rebaixamento se aproximar perigosamente.

O Saint-Étienne pagou caro por querer segurar o 0 a 0 contra o Lorient. Christophe Galtier estava contente com o ponto conquistado fora de casa e simplesmente abriu mão de continuar a pressão em cima dos Merlus. A estratégia utilizada pelo treinador se revelou um fracasso. O Lorient não só atacou mais como definiu a vitória já nos minutos derradeiros da partida graças ao pênalti convertido por Aliadière. Pode-se alegar que foi um lance isolado (um toque de mão de Guilavogui dentro da área), mas o contexto mostra que os Verdes desistiram do duelo com uma facilidade cruel.

Foram apenas dez minutos nos quais o ASSE adotou uma postura mais cautelosa, mas que se mostraram decisivos para definir os rumos da partida. Galtier abriu mão de um meia (Fabien Lemoine) para a entrada de mais um volante (Jérémy Clément), que atuou ao lado de Guilavogui. Foi o convite para o Lorient aumentar o nível de pressão e ser recompensado por sua atitude mais ofensiva – e menos covarde do que a do visitante.

Já o Lyon renasceu das cinzas e obteve uma vitória incrível diante do Bordeaux em pleno Chaban-Delmas. Os girondinos venciam por 1 a 0 até os 45min do segundo tempo, mas o OL virou nos acréscimos e abriu distância para um concorrente direto. Se a vaga na Champions ainda parece distante, os lioneses ganham força na briga pelo quarto lugar com o Saint-Étienne. O posto, que vale a classificação para a Liga Europa, virou a grande motivação em Gerland, exatamente pela chance de desbancar o rival regional.

Só um problema: o Lyon precisa parar com as invenções táticas. O time entrou em campo no 3-5-2, que não era utilizado desde o começo de dezembro quando a equipe foi goleada pelo PSG por 4 a 0 no Parc des Princes. A necessidade de encontrar uma alternativa viável para as ausências dos meias Gourcuff, Grenier e Fofana forçou o técnico Rémi Garde ao erro de transformar seu meio-campo em um imenso deserto de idéias.

O treinador tentou corrigir esta grave falha ao longo da partida. Voltou ao 4-4-2 em losango com a entrada de Briand no lugar de Koné ainda no primeiro tempo, com Lacazette no suporte à dupla de ataque formada por Briand e Gomis. Pouca coisa mudou, mesmo com o Bordeaux em uma postura defensiva. Apenas a entrada de Danic no lugar de Ferri, a cerca de 15 minutos do fm de jogo, equilibrou o meio-campo lionês. O dinamarquês trouxe o caráter ofensivo necessário para o OL pressionar e, de forma heroica, virar o placar.

Mudança

Após anos sendo enxovalhada pela torcida, a seleção francesa voltou a ganhar um voto de confiança das arquibancadas. A vergonha causada pelos episódios de Knysna e os fracassos na Copa-2010 e na última Eurocopa parecem página virada no tenso relacionamento entre os Bleus e os torcedores. Tudo por conta do desempenho da equipe em seus últimos jogos, sobretudo com a vitória por 2 a 0 sobre a Holanda no Stade de France.

O comportamento do público neste amistoso reforça o que foi visto em 19 de novembro. Aquele França 3 a 0 Ucrânia, que selou a classificação francesa para a Copa-2014 em um cenário até então desanimador (provocado pelo triunfo ucraniano por 2 a 0 no jogo de ida) foi marcante para a torcida recomeçar a se identificar com o time. Não era mais um punhado de jogadores egoístas, traíras ou mercenários. Era o símbolo de uma comunhão, das três cores de forte significado nacional.

A volta da confiança do público pode ser medida pelo crescente interesse em torno dos Bleus. A emissora TF1 teve uma audiência estimada em 7,6 milhões de espectadores na transmissão de França x Holanda. Uma marca que não era alcançada em um amistoso há três anos. Um estudo publicado pela Kantar Media indicou que 41% dos franceses se interessam por futebol – contra números na casa dos 30% em pesquisas anteriores deste tipo. Mais importante: 64% dos franceses declararam ter “forte interesse” em acompanhar a Copa-2014. Sinal de confiança e esperança de que a seleção faça um bom papel em campos brasileiros.

O otimismo deste momento contrasta com a frustração causada pelos seguidos fiascos protagonizados pelos Bleus, que envergonharam toda uma nação. Ganhar de uma seleção que faz parte do pequeno grupo de favoritas para ganhar o título mundial enche de orgulho até o torcedor mais cético. É muito diferente fazer 2 a 0 na Holanda e golear uma África do Sul por 5 a 0. O ganho moral é incomparável.

Diante dos holandeses, a França construiu sua vitória apoiada na coesão e na inspiração. Didier Deschamps se orgulha por incutir nos seus jogadores aquele espírito coletivo que tanto fez falta nos últimos tempos. Um grupo vivo, consciente de que apenas o trabalho e a harmonia podem permitir à seleção reconquistar a confiança do público e, tão importante quanto, ter a capacidade técnica de superar adversários de grosso calibre. Pode-se argumentar que a Holanda que entrou em campo em Saint-Denis nada tem a ver com aquela equipe vice-campeã mundial, mas um time com Sneijder e Van Persie sempre tem algo a mostrar.

Obviamente a França não se tornou o time a ser batido no Mundial, nem se tornou a grande barbada para ficar com o título. A seleção deixou nítidos seus progressos, e Deschamps obteve bons resultados de seus testes. Antoine Griezmann, Eliaquim Mangala e Lucas Digne se mostraram promissores e podem aparecer na lista final de convocados. Entre os titulares, o treinador já tem suas certezas.

Pogba, Cabaye e Matuidi formam um meio-campo que transmite bastante segurança tanto no combate como na ligação rápida com o ataque. Mesmo sem Ribéry no começo da partida, os Bleus mantiveram uma postura ofensiva aguda, com Benzema assumindo sua posição de matador. Logo ele, que passou 1.222 minutos sem marcar um mísero gol pela seleção (de junho de 2012 a outubro de 2013). Em ótima fase e em estado de graça no Real Madrid, ele teve mais uma exibição de alto nível. Além do seu gol, Benzema também esteve na origem do lance do outro tento dos Bleus. Com tantos bons sinais evidentes, dá para sonhar com uma França forte, enfim, para a Copa-2014.