Coutinho foi o melhor em campo e autor do gol da vitória do Liverpool (Foto: AP)

Na emoção e na bola, Liverpool passou pelo seu maior teste e está a quatro vitórias do título

Em muitos aspectos, não foi um dia normal em Anfield Road. Porque mesmo no agitado Campeonato Inglês, partidas tão movimentadas quanto o encontro do Liverpool com o Manchester City não acontecem toda hora. Entre as ações frenéticas de defesa e ataque dos dois times, o elenco dos visitantes ficou frente a frente com a raça e o brio dos donos da casa, impulsionados por uma torcida que não esquece a maior tragédia da sua história. O resultado foi a vitória por 3 a 2 do Liverpool, que agora caminha sozinho em direção ao primeiro título inglês desde 1990.

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Antes mesmo de a bola rolar, a atmosfera no estádio antecipava que algo especial estava por vir. A dois dias dos 25 anos da tragédia de Hillsborough, houve homenagens aos 96 torcedores que saíram de casa para ver um jogo do Liverpool e nunca mais voltaram. Kenny Dalglish e Ian Rush foram os símbolos dessa lembrança, e a torcida entoou You Will Never Walk Alone como se a música estivesse prestes a ser proibida nos estádios ingleses. O minuto de silêncio anterior ao pontapé inicial foi absoluto, calou até os grilos de Merseyside. E tudo isso refletiu dentro de campo.

Independente do nível de envolvimento de cada jogador com o que aconteceu em Sheffield, em 15 de abril de 1989, seria necessário um coração de pedra para não ficar emocionado com aquele espetáculo. Os garotos de Brendan Rodgers entraram em campo totalmente concentrados e até excessivamente motivados. O retrato disso foi um carrinho de Suárez na ponta direita, no ataque, que lhe rendeu um cartão amarelo, com cinco minutos de jogo.

Essa advertência ficou balançando sobre a cabeça do uruguaio no restante da partida. Houve mais de uma oportunidade na qual o árbitro Mark Clattenburg poderia tê-lo expulsado. Fosse em uma entrada um pouco mais dura ou em uma simulação ridícula de falta, especialidade do camisa 7. Não foi uma boa partida de Suárez em Anfield Road. Mas, mesmo nesses dias, o melhor jogador da Premier League arranja um jeito de decidir a partida. E o que ele preparou, neste domingo, foi um passe brilhante para Sterling, um minuto depois de ser recriminado pelo juiz.

Sterling recebeu dentro da área e cortou para a esquerda. Qualquer um apostaria a poupança que o chute viria com a canhota. Quatro jogadores do Manchester City, de certa forma, fizeram isso, mas o jovem sósia de Daniel Sturridge, com a tranquilidade de quem já passou dos 30 anos, deu mais um drible e bateu de direita. Em um movimento, tirou quase metade do time adversário da jogada. Uma frieza poucas vezes vista em um jogador de 19 anos.

A torcida do Liverpool lembrou Hillsborough em um mosaico muito bacana (Foto: AP)

A torcida do Liverpool lembrou Hillsborough em um mosaico muito bacana (Foto: AP)

O Liverpool dava show, mas não tinha com quem contracenar. O Manchester City, muito mais experiente, campeão inglês há pouco tempo, pareceu envergonhado de estragar aquela festa. As coisas ficaram ainda piores quando Yaya Touré tentou marcar um daqueles gols que só ele consegue, com um chute cheio de efeito da intermediária, mas sentiu dores musculares. Manuel Pellegrinio foi obrigado a substituí-lo por Javi García, na metade do primeiro tempo. Ficou sem seu melhor jogador.

Os donos da casa estavam perfeitamente satisfeitos com esse monólogo. Sempre no contra-ataque, não cansavam de ameaçar Joe Hart. Primeiro, Sterling cruzou da direita, e Sturridge quase desviou com precisão. Pouco depois, a transição rápida da defesa para o ataque resultou em escanteio. A bola foi à cabeça de Gerrard na pequena área. O cabeceio estava pronto para encontrar o fundo das redes, havia até passado perfume, amarrado a gravata e penteado o cabelo, mas Hart tinha outros planos. Com um reflexo impressionante, desviou o foguete que saiu da testa do capitão de vermelho.

Apenas para ver a bola passar ao seu lado no escanteio seguinte, desta vez cobrado por Gerrard, na primeira trave, que Skrtel, tão confiável no ataque quanto assustado na defesa, colocou para dentro. O Liverpool abriu 2 a 0, manteve a torcida em festa e o Manchester City acuado. Estava relativamente seguro na defesa e com o contra-ataque armado. Era uma questão de tempo para construir uma goleada, como tantas outras vezes neste Campeonato Inglês.

Mas no outro lado não estavam o Cardiff, o Tottenham ou o Norwich. Estava o melhor elenco da Inglaterra, comandado por um treinador que sabe o que faz e tem tanta vontade de conquistar o seu primeiro título importante na Europa quanto o Liverpool de quebrar um jejum de 24 anos. Manuel Pellegrini convenceu os jogadores de que a temporada chegaria ao fim se eles não mostrassem por que tanta gente os considera favoritos ao título e fez substituições precisas.

Javi García havia entrado no lugar de Yaya Touré, e Fernandinho foi adiantado, na primeira linha de meio-campo. O diálogo com David Silva funcionou muito bem, e James Milner, no lugar de Jesús Navas, abriu o jogo pelas pontas. Com Silva de maestro, a orquestra do chileno ficou, enfim, afinada. E a defesa do Liverpool sempre fica desesperada quando é apertada.

Então, começou o segundo ato. O Manchester City rodou a bola pelo campo de ataque e atacou pelos dois lados. Pela direita, Milner tabelou com Fernandinho e tocou para trás. Silva empurrou para as redes. Cinco minutos depois, aos 17 do segundo tempo, novamente o espanhol apareceu dentro da área e tentou cruzar rasteiro. Johnson tentou cortar e traiu Mignolet, que ainda tentou salvar com a perna esquerda.

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Aquela vantagem tão carinhosamente construída pelo Liverpool foi destruída. Quando o doping emocional que a torcida proporcionou acabou, a questão ficou estrita ao futebol. E embora haja muita qualidade no elenco de Brendan Rodgers, poucos times do mundo têm tantas escolhas quanto o Manchester City. Aos 23 minutos do segundo tempo, Agüero entrou no lugar de Dzeko. O melhor jogador do time na primeira metade da temporada descansado contra abalados e exauridos defensores. Parecia o golpe de misericórdia. E quase foi, quando Skrtel deu um bote terrível na lateral direita, o argentino avançou pela esquerda e cruzou rasteiro. Silva completou e não fez o terceiro do City por milímetros.

O Liverpool passou a enfrentar o seu maior teste. O desafio não era vencer o Manchester City, mas não se deixar abalar pelo desmoronamento em cinco minutos do castelo de cartas que foi construído com tanto cuidado em oito meses de futebol. A equipe manteve o plano de jogo, embora ficasse mais com a bola. Neste momento, precisou bastante de Suárez, que continuava mais preocupado em ser expulso. Foi quando Kompany decidiu dar uma mãozinha. Espanou o taco dentro da área e jogou a bola na direção de Philippe Coutinho, o melhor em campo no lado de vermelho. O chute, de primeira, passou por Hart e foi o gatilho de uma explosão de alegria em Anfield Road.

Ainda faltavam 12 minutos para o fim da partida, e o árbitro adicionou outros cinco para a angústia dos presentes. O Liverpool segurou-se na ponta dos dedos. Sacrificou Henderson, que deu um carrinho burro no meio-campo. Skrtel deu um soco em uma bola levantada que deveria ter terminado em pênalti. Clattenburg ignorou. Apitou o fim do jogo e decretou a nota dez dos capitaneados de Steven Gerrard na prova mais difícil que esses jogadores enfrentaram nesta temporada. Agora, quatro vitórias e ninguém tira o título deles.

Formações iniciais

campinho lvpool x city

Destaques

O elenco está fechado, há jogadores de qualidade em todas as posições, mas bem Luiz Felipe Scolari poderia ter testado Philippe Coutinho. Se não é uma temporada tão regular do jovem ex-jogador do Vasco, em uma partida decisiva como a deste domingo, ele foi o melhor em campo pelo Liverpool. Comandou as jogadas ofensivas, sempre teve tranquilidade e fez o gol da vitória. Dá uma chance para ele, Felipão!

Momento-chave

Um jogo com tantas reviravoltas tem vários momentos-chave, e o mais importante, naturalmente, foi o gol de Coutinho. Mas talvez a história tivesse sido diferente se Yaya Touré não precisasse ser substituído ainda no primeiro tempo por causa de lesão. O Manchester City perdeu seu líder e melhor jogador muito rapidamente.

Os gols

6’/1T – GOL DO LIVERPOOL! Transição muito rápida no contra-ataque, Suárez conecta Sterling na entrada da área. O inglês cortou para a perna esquerda e, com um único drible, tirou quatro jogadores do City e finalizou com a direita.

26’/1T – GOL DO LIVERPOOL! Gerrard cobra escanteio da esquerda na primeira trave, Skrtel desvia de cabeça e marca o segundo do Liverpool.

12’/2T – GOL DO CITY! Milner tabela com Fernandinho, entra na área pela direita e toca para trás. Silva aparece para completar e diminui para o City.

17’/2T – GOL DO CITY! Silva cruza rasteiro da esquerda, Glen Johnson tenta cortar, mas engana Mignolet, que ainda tenta salvar com a perna e não consegue.

33’/2T – GOL DO LIVERPOOL! Kompany tenta cortar uma bola fácil dentro da área, mas erra o chute. Coutinho pega o rebote, de primeira, e faz o gol da vitória

Curiosidade

O Liverpool chegou a 93 gols nesta temporada, apenas um a menos que o Real Madrid, o time mais artilheiros das dez principais ligas da Europa. E em menos jogos porque não disputou competições europeias e foi eliminado precocemente das copas inglesas.

Ficha Técnica

Liverpool 3 x 2 Manchester City

Liverpool_escudoLiverpool
Simon Mignolet; Glen Johnson, Martin Skrtel, Mamadou Sakho e John Flanagan; Steven Gerrard, Jordan Henderson e Philippe Coutinho (Victor Moses, 44’/2T); Raheem Sterling (Lucas Leiva, 45’/2T), Luis Suárez e Daniel Sturridge (Joe Allen, 21’/2T). Técnico: Brendan Rodgers

Manchester City_escudoManchester City
Joe Hart; Pablo Zabaleta, Vincent Kompany, Martín Demichelis e Gael Clichy; Fernandinho, Yaya Touré (Javi García, 19’/1T), Jesus Navas (James Milner, 5’/2T), David Silva e Samir Nasri; Edin Dzeko (Sergio Agüero, 23’/2T). Técnico: Manuel Pellegrini

Local: Estádio Anfield Road, em Liverpool (ING)
Árbitro: Mark Clattenburg (ING)
Gols: Sterling (6’/1T), Skrtel (26’/1T) e Coutinho (33’/2T); David Silva (12’/2T) e Johnson, contra (17’/2T)
Cartões amarelos: Suárez (Liverpool); Javi García, Fernandinho, Zabaleta (City)
Cartões vermelhos: Jordan Henderson (Liverpool)

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