É comum na Espanha que alguns clubes transformem os seus uniformes reservas em versões personalizadas das bandeiras de suas comunidades autônomas. Catalães, valencianos, bascos e outros já fizeram isso várias vezes. O Barcelona causou o maior impacto, enquanto o Valencia repete as cores com frequência. Às vésperas do referendo que decidirá a independência da Catalunha, no entanto, o assunto causou controvérsia. O tradicional Lleida, que atualmente milita na terceira divisão do Campeonato Espanhol, acusou o árbitro de seu jogo neste domingo de ter impedido o uso da camisa listrada em amarelo e vermelho, como a bandeira catalã.

O Lleida usaria a camisa com a “senyera” (como é chamada a antiga bandeira da Coroa de Aragão, adaptada por algumas comunidades autônomas, inclusive a Catalunha) diante do Atlético Saguntino, em partida realizada no seu estádio. Durante a semana, chegou a avisar a federação e os adversários sobre a decisão, para que não ocorressem problemas. Porém, antes do pontapé inicial, o trio de arbitragem barrou os anfitriões, afirmando desconhecer qualquer comunicado prévio. “O árbitro nos disse que não poderíamos jogar com esta camiseta e, que se fizéssemos isso, a partida seria suspensa. Sem mais”, declarou o clube. Sem escolha, os catalães tiveram que usar o seu uniforme titular, azul. Ao final do jogo, os atletas voltaram ao círculo central com a camisa da senyera.

Em uma semana na qual o debate sobre a independência catalã toma o país, o empecilho ganhou contornos políticos. Passou a ser usado como um símbolo dos atritos entre as diferentes partes. A federação espanhola, entretanto, usa uma justificativa que o Lleida ignora. Segundo o regulamento da entidade, o clube mandante não pode usar um uniforme que não seja o seu principal nos jogos dentro de casa.

O Lleida rebate que nem sempre tal artigo é cumprido pelos clubes espanhóis. O Betis chegou a atuar com uma camisa verde e rosa no Estádio Benito Villamarín, em referência ao Dia Internacional da Mulher. Para os catalães, esta seria a prova cabal de que há intenções não explícitas. Além do mais, outra desconfiança reside sobre o Atlético Saguntino. Apesar do aviso do Lleida e da determinação aos visitantes de levarem sempre dois jogos de uniforme às partidas, eles levaram apenas um, vermelho, que bateria com a senyera. Em nota oficial, os valencianos declararam que não receberam qualquer aviso prévio do Lleida e que gostariam de se distanciar da controvérsia política.

Apesar de todo o imbróglio, a senyera esteve presente na rodada da primeira divisão do Campeonato Espanhol. A bandeira da Comunidade Valencia possui o mesmo padrão listrado em vermelho e amarelo da Coroa de Aragão. Justamente o uniforme utilizado pelo Valencia durante a visita à Real Sociedad, com vitória por 3 a 2 no Estádio Anoeta. “Não há nada político, porque, se houvesse, o Valencia não estaria jogando assim”, rebateu um porta-voz da federação, em entrevista ao jornal El País. Entre as verdades que cada lado pretende sustentar, fica o conflito (bobo) em uma semana tão importante para a região.