A torcida do Londrina prefere ganhar do Atlético Paranaense ou do Coritiba?

Londrina x Maringá: por que bater o vizinho vale mais que ganhar de um grande da capital

Por Leonardo Félix, repórter do UOL e londrinense

Quando eu era pequeno, vivia ouvindo de minha irmã, que é dez anos mais velha e, portanto, estava na legítima fase da “aborrescência”, o quanto Maringá era uma cidade mais legal que Londrina. Como ainda não conhecia quase nada exterior ao meu mundinho, ficava estarrecido pelo fato de alguém achar qualquer outra cidade melhor do que a minha.

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Mas eu não era o único: outros parentes e amigos também se ofendiam, e eu nunca vou esquecer de uma piadinha que um tio nosso sempre fazia após os solilóquios dela sobre como Maringá tinha festas mais agitadas e gente mais descolada. Findo o discurso, ele emendava: “Parabéns! Você já pode ser considerada oficialmente a “201ª habitante da vila maringaense”.

Ali, passei a ter dimensão da forte rivalidade entre os dois municípios, que carregam entre si o peso e a responsabilidade de serem os dois principais polos do Norte do Paraná.

Para entender esse “peso”, é preciso saber um pouco como funciona essa unidade federativa tão discreta e quase sem identidade. O Paraná, na verdade, é dois estados em um: o sul, refletido por Curitiba, tem muita influência alemã e do leste europeu. É lá que se encontra o barreado, o pinho, o fandango e gente falando leitE quentE. O norte não tem absolutamente nada a ver com isso. Foi colonizado – ou loteado, se preferir – por ingleses e mais parece uma extensão do interior de São Paulo, inclusive pelo sotaque caipira que arrasta o “porrrta”.

Pode-se dizer, pois, que é uma briga entre vizinhos que dominam o bairro: os dois são muito mais parecidos do que pensam e, justamente por isso, tentam encontrar qualquer minúcia que “prove” que seu quintal é melhor. Só que ambos, lá no recôndito de suas almas, estão é azuis de inveja pelos detalhes que deixam mais verde a grama do outro.

Londrina mostra superioridade nos quesitos idade (79 e 62 anos, respectivamente), tamanho (540 mil vs. 385 mil habitantes) e desenvolvimento vertical (mais de 500 edifícios, contra cerca de 150). Maringá, em contrapartida, é mais bem resolvida, organizada – talvez bonita, mas aí vai do gosto de cada um -, e vence as batalhas de PIB per capita (R$ 23,9 mil contra R$ 18,5 mil) e IDH (0,808 vs. 0,788). Mas não deixam de ser cidades muito semelhantes na paisagem bem arborizada, na disposição planejada da malha rodoviária e, principalmente, nos hábitos da população.

Diante de tudo o que foi aqui exposto, é elementar concluir que essa enorme rixa foi transferida para o futebol. Desde os anos 60, Londrina Esporte Clube e Grêmio de Esportes Maringá, os dois clubes mais tradicionais das duas cidades, travaram verdadeiras guerras dentro dos gramados, sendo a mais importante delas a final do Campeonato Paranaense de 1981, realizada em duas partidas (uma no Estádio Willie Davis, outra no Do Café) e com vitória do Tubarão, que chegou ao segundo título estadual na ocasião. Hoje, as duas equipes estão empatadas com três conquistas para cada lado.

O Maringá FC é novo, mas já tem seus torcedores (Foto: Robson Vilela)

O Maringá FC é novo, mas já tem seus torcedores (Foto: Robson Vilela)

Isso quer dizer que a final de 2014 vai ser o tira-teima, certo? A resposta é não. Ocorre que o Maringá que está na decisão não é o Grêmio, e sim um clube novo criado para preencher uma lacuna existente desde que o Grêmio de verdade passou a agonizar nas divisões menores do estadual. Nos últimos anos, alguns aventureiros se arriscaram para formar times alternativos na cidade, como Galo Maringá, Galo Adap, Metropolitano e, mais recentemente, Maringá FC, este que pode se tornar campeão paranaense nas próximas semanas em cima do Londrina.

“Poxa, então a rivalidade não é a mesma. A coisa vai ficar mais branda”, pensará alguém. Aí é que você se engana. Para os torcedores do Tubarão, todo esse imbróglio cria um sentimento ainda mais confuso e dicotômico: por um lado, é fato que vai faltar “aquele” respeito que existiria caso a final fosse contra o verdadeiro Grêmio; por outro, contudo, fica o pavor de perder para um time totalmente novo, sem tradição alguma e que, no fim das contas, não deixa de ser de Maringá.

Logo depois da épica vitória por 4×1 contra o Atlético Paranaense, que garantiu o passaporte do LEC à decisão, perguntei a um amigo que é Tubarão roxo se não seria menos pior perder a final para esse novo Maringá, já que o título ao menos ficaria no interior, do que para uma equipe de Curitiba, o que ajudaria a exponenciar a arrogante hegemonia da capital.

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A resposta veio de forma categórica: “Nem a pau! Ficaria mais puto contra o Maringá, sem dúvidas. Até pela inveja do outro, saca? Por ser um time de Maringá, sem história nenhuma, e por ter subido [à primeira divisão] neste ano já sendo campeão”. Mais claro do que isso, impossível. Seja de Londrina ou Maringá, ganhar uma final de Paranaense em um Clássico do Café, mesmo que falso, vale mais do que bater os “gigantes” Atlético ou Coritiba. É uma questão de briga entre vizinhos. É uma questão de mostrar que, pelo menos no futebol, é a grama do meu quintal que ostenta o tom verde-campeão.