Qualquer país que enfrenta quatro décadas de guerra civil tem como conseqüência um povo sofrido. Junte-se a isso o fato do tal país localizar-se na África, continente historicamente marcado pela miséria e desigualdades sociais. Pois bem. Acredite agora que, como num passe de mágica, todos estes problemas foram esquecidos pela população, num misto de euforia e esperança de dias melhores. História cinematográfica? Não! Isso é Angola.

Sem guerra há três anos, a nação do oeste africano aos poucos tenta se reerguer. Porém, o país, até então um verdadeiro campo minado, sofre para acertar sua economia, ficando atrás até mesmo entre os vizinhos do continente mais pobre do mundo. Logo, qual o motivo da euforia que tomou conta de seus moradores? Ah, isso é fácil. É a classificação da seleção nacional de futebol para a Copa do Mundo.

Um dos heróis nacionais é o atacante Arsénio Sebastião Cabungula, o Love (não confundir com o Vagner brasileiro). Presença constante nas convocações do técnico Oliveira Gonçalves para os jogos das eliminatórias africanas, o jogador é o talismã dos Palancas Negras – nome popular da seleção, em alusão a uma espécie de antílope gigante de longos chifres e ameaçado de extinção.

Mesmo não tendo marcado nenhum gol, Love foi um dos principais responsáveis pela produção ofensiva angolana. O jogador começou a maioria das partidas no banco, mas, quando entrou, aumentou a mobilidade e o perigo do ataque do time – não é à toa que Angola marcou tantos gols nos minutos finais. Assim foi nas vitórias de 1 a 0 sobre a Nigéria, que alçou a equipe à primeira colocação do grupo 4, ainda no primeiro turno e, no jogo derradeiro, contra Ruanda.

A carreira

Em seis anos de profissionalismo, Love defendeu uma só camisa: a do Atlético Sport Aviação, o ASA, da capital Luanda. No período, ajudou a equipe a sagrar-se tricampeã nacional, entre 2002 e 2004.

Os títulos do Girabola (como também é conhecido o Campeonato Angolano) foram acompanhados por gols, muitos gols. Em 2004, o atacante foi o artilheiro da competição, com 17 gols, feito repetido na edição deste ano com quatro tentos a menos. Em 2005, porém, o título escapou na última rodada, disputada no dia 23 de outubro. Melhor para o Sagrada Esperança, que, com um ponto a mais (51 a 50), levantou o caneco pela primeira vez em sua história.

O sucesso no campeonato nacional chamou a atenção do técnico dos Palancas Negras, Oliveira Gonçalves, que convocou o atleta logo para a estréia nas eliminatórias, o empate por 0 a 0 contra a Argélia fora de casa, em junho de 2004. Na seleção, porém, tem de disputar uma vaga no ataque com jogadores de experiência em clubes internacionais, como Fabrice ´Akwá´ Maieco, do Qatar SC, e Pedro Mantorras, do Benfica. Hoje, uma das grandes discussões em Angola é sobre qual dos três deveria ficar no banco.

Sonho europeu

Como todo bom futebolista africano, Love busca trocar de ares. Em janeiro deste ano, quase foi contratado pelo Esperance, da Tunísia. O jogador chegou até a treinar na equipe, que não depositou os US$ 600 mil envolvidos na transação. Assim, o atacante retornou para o ASA, onde não deve permanecer por muito tempo.

Considerado um maestro por sua torcida, o atacante se destaca pelo bom porte físico aliado à habilidade, com dribles, velocidade e facilidade em se livrar da marcação adversária. Ele deve deixar o ASA assim que encerrada a Taça da Angola, no começo de novembro.

A hipótese já é dada como certa até pelo treinador do ASA. Com propostas de clubes da África do Sul e do Egito, além de nova investida do Esperance, os dirigentes angolanos já estão conformados em perder seu principal jogador ao término da temporada.

Resta saber se Love vai abrir mão de seu sonho de atuar no futebol europeu, mesmo que temporariamente. Com a proximidade da Copa Africana de Nações, em janeiro, e, sobretudo da Copa do Mundo, o atacante vê crescer sua chance de jogar no Velho Continente. Porém, a possibilidade imediata de viver num país mais estável econômica e politicamente pode ser o suficiente para satisfazer Love, um dos heróis angolanos que cresceu em meio a bombas, tiros e miséria.