A torcida brasileira não está muito contente com as decisões de Luiz Felipe Scolari. É um time que não funciona taticamente, que deixa muito a desejar no meio-campo e que está longe de convencer quem assiste a seus jogos. Felipão, ao menos, pode ficar tranquilo em um aspecto: não é o único técnico de uma seleção favorita a ser criticado por suas decisões. Porque a Alemanha tem feito uma Copa abaixo das expectativas de muita gente. E grande parte da culpa acaba recaindo sobre Joachim Löw.

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As decisões equivocadas ficaram evidentes no jogo contra a Argélia. As Raposas do Deserto jogaram demais, não dá para tirar os méritos. Mas a Alemanha também demorou demais para demonstrar sua qualidade técnica. A defesa, lenta demais e desprotegida pelo meio-campo, dava sustos em todos os contra-ataques argelinos. Não à toa, Manuel Neuer foi o melhor defensor em campo, compensando a lentidão dos zagueiros de verdade e dos zagueiros improvisados nas laterais com as suas saídas malucas. Höwedes teve dificuldades imensas de fechar o lado esquerdo, Mustafi outra vez foi uma calamidade pela direita e dupla formada por Boateng e Mertesacker, mesmo com desarmes importantes, não teve pernas para acompanhar Slimani, Feghouli e companhia.

E os problemas alemães não ficaram expostos apenas sem a bola. Quando o time tinha a posse para poder jogar, deixava muito a desejas. Era burocrático. Lahm, Schweinsteiger e, principalmente, Toni Kroos, contribuíam demais para o jogo “horizontal” dos alemães, com muitos toques para o lado e pouca incisividade. Kroos, especialmente, quem deveria criar mais espaços para a linha ofensiva, teve pouquíssimos lampejos. Enquanto isso, Thomas Müller foi por muito tempo encaixotado pelas linhas de marcação da Argélia, enquanto Mario Götze e Mesut Özil, por mais que se esforçassem, não eram os caras para definir. O caso do camisa 8, aliás, é até mais notável, já que marcava até os laterais argelinos, por mais que ofensivamente não tenha produzido tanto.

André Schürrle saiu do banco no intervalo e ajudou a mudar o panorama para a Alemanha. A linha de frente passou a funcionar melhor. Thomas Müller tinha um parceiro para dar continuidade às jogadas, Özil deixou de correr apenas em vão. O ponta do Chelsea passou a dar mais profundidade às jogadas de linha de fundo e a finalizar mais. Raïs M’Bolhi evitou a derrota ainda no tempo normal com defesas extraordinárias, é verdade. Mas faltava mais precisão nos arremates (em momentos, sobrava displicência) e também alguém para aproveitar melhor os excessivos cruzamentos. Em outras palavras, faltava um Miroslav Klose dentro da área.

A classificação veio, no sufoco mais veio. E, assim como Felipão, Joachim Löw será obrigado a mudar se quiser ter vida mais longa nesta Copa do Mundo. Primeiro porque Mustafi se machucou e, alívio para os alemães, não poderá ser inventado novamente na lateral direita. A tendência é que Hummels volte ao time e Boateng volte à lateral, onde tem cumprido bem o papel, mesmo enfrentando pontas bem mais rápidos – como será o caso contra a França de Antoine Griezmann, decisivo contra a Nigéria.

Neuer precisou sair da área várias vezes para evitar o perigo

Caso Hummels não se recupere da infecção, Löw terá que pensar muito bem em sua decisão. Uma alternativa interessante é apostar em Erik Durm. O lateral esquerdo do Borussia Dortmund pode ser inexperiente, mas já marcou Gareth Bale na Liga dos Campeões. E com Mathieu Valbuena bastante participativo e veloz pela ponta direita da França, poderá acompanhá-lo muito mais do que Höwedes. Há ainda, é claro, a chance de voltar Lahm para a lateral, por mais que o técnico não queira – e o capitão também prefira o meio, ao que parece. Mas, especificamente nesta partida, não parece o melhor.

O jogo contra a França será decidido no meio-campo. É o setor da França mais forte e que mais tem feito a diferença nesta Copa do Mundo. E colocar jogadores de tanta presença física, como Cabaye, Matuidi e Pogba para combater o técnico setor da Alemanha é uma temeridade. Schweinsteiger e Khedira não estão 100% fisicamente e já não são dos mais velozes, assim com Toni Kroos. Por mais que Lahm não esteja fazendo um Mundial não mais do que mediano no meio-campo, sua velocidade e sua capacidade na marcação poderão ser vitais.

Além disso, talvez Löw tenha que mudar o perfil de seu ataque. Nos quatro primeiros jogos, o Nationalelf era um time de cadência e pouca definição. Naturalmente, o time subia para o campo ofensivo e se expunha muito aos contra-ataques. E, especialmente contra a França, poderá ser fatal. Seria mais seguro para a Alemanha tentar resgatar o futebol vertical, que tanto impressionou em 2010, até para explorar a lentidão de Koscielny ou Sakho e as subidas dos laterais ao ataque. Para tanto, uma boa alternativa é Özil centralizado, para potencializar esse lançamentos com a visão de jogo do camisa 8 – Kroos ou Schweinsteiger rodariam nessa. E também cogitar o uso de Schürrle, Podolski ou até Müller abertos nas pontas, com uma eventual entrada de Klose.

Por tudo o que apresentou nesta Copa, a França pode ser colocada como ligeira favorita no excelente jogo das quartas de final que se promete para o Maracanã. Não dá para negar, contudo, que a Alemanha tem até mais elenco para vencer. Vai depender muito de Löw aprender a usar os jogadores que tem e corrigir as muitas falhas táticas expostas na campanha. Como Felipão no Brasil x Colômbia.