Quando Luan partiu em velocidade, após o lançamento de Jaílson, o jogo parecia orbitar ao seu redor. Ele se movia não apenas para dominar a bola. Dominaria o espaço e o tempo, como se os dois estivessem também sob o controle de seus pés. Mesmo com o caminho livre à frente, ele demorou um pouco para preparar a jogada, o suficiente para que a marcação se aproximasse. Mas nada que o atrapalhasse. Seguia sereno, quase envolto por uma barreira magnética que mantivesse os outros à distância. Uma barreira que só ele via e sentia. Driblou dois marcadores sem tomar conhecimento. E numa classe displicente, praticamente juvenil, ele encobriu Esteban Andrada. Anotou um golaço, o segundo do Grêmio na final de Libertadores. O do título, em plena Argentina. Uma pintura para ser lembrada entre as mais bonitas, bem como entre as mais importantes do Tricolor. Ainda assim, quase encobriu o goleiro pela segunda vez nos minutos finais, para acabar definitivamente com a América.

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Uma das críticas mais comuns a Luan era a de que ele desaparecia nos jogos decisivos. Que não sentia o devido peso de uma ocasião tão grandiosa, sem entrar na pilha exigida para uma partida dessas. O argumento se embasou ainda mais depois do primeiro duelo da final da Libertadores, em que o camisa 7 pouco apareceu na Arena. Pois a afirmação, em partes, se cumpriu outra vez em La Fortaleza. O atacante não parecia jogar uma decisão continental, e sim um torneio de várzea no quarteirão da sua casa, tamanha influência que tentou exercer em campo, sobretudo no primeiro tempo. Passou a voltar mais na armação, a ajudar na construção. E quando teve a brecha, transformou a defesa adversária em quaisquer joões da esquina, para anotar um gol gigantesco, com tamanha facilidade. Foi um protagonista leve para voar, mas sem deixar de ter brio para vibrar.

A Libertadores, afinal, já tinha peso especial na trajetória de Luan no Grêmio antes mesmo deste 2017 brilhante começar. Para quem não se lembra, Luan se afirmou como destaque tricolor em 2014. Teve ótimas atuações no chamado “grupo da morte”, no qual seu time superou Atlético Nacional, Newell’s Old Boys e Nacional de Montevidéu de maneira imponente. Todavia, os gaúchos parariam nas oitavas de final, brecados pelas luvas santificadas de Sebastián Torrico, o herói do San Lorenzo que se sagraria campeão. Voltaria em 2016 e, apesar da classificação em outra chave cascuda, as oitavas seriam limite outra vez, barrados pelo ótimo time do Rosario Central.

Neste momento, o protagonismo de Luan no Grêmio estava escancarado. Já tinha voado em outras competições, especialmente no Brasileiro de 2015. Mas havia quem o ironizasse. Quem, veja só, jogasse pipoca contra o carro do jovem. Um passo além em sua carreira aconteceu nos Jogos Olímpicos de 2016, quando saiu do banco de reservas e acertou a equipe de Rogério Micale, um dos melhores na campanha do sonhado ouro. De qualquer maneira, esperavam algo assim com a camisa tricolor. Na Copa do Brasil, arrebentou na semifinal contra o Cruzeiro e se sagrou campeão, mas sem a influência que muitos pediam na final. Teriam que esperar até o ano seguinte, para que o atacante lavasse a alma na maior ocasião possível.

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Se o Grêmio atravessa um 2017 tão impressionante, Luan tem grande parte nisso, facilmente defensável como o melhor jogador do futebol brasileiro no ano. Nem sempre fez a diferença no placar, embora tenha contribuído invariavelmente para o futebol fluido e arrojado dos tricolores. Conseguiu se encaixar em diferentes posições na linha de frente, principalmente centralizado, chegando por trás do homem de referência e com todo espaço para se movimentar. Deu larga ajuda na fase de grupos, até que a lesão atrapalhasse sua sequência, em especial contra o Botafogo. Mesmo assim, sua vontade se escancarou ao entrar naqueles minutos finais na Arena, apenas para dedicar suas gotas de suor à classificação.

Então, recuperado, Luan ofereceu seu máximo para demolir o Barcelona em Guayaquil. Fez o jogo de sua vida, que valeu a vaga do Grêmio em uma final da Libertadores após uma década de espera. Pedro Rocha, a estrela da sorte tricolor, tinha deixado a equipe em agosto. Mas o seu papel, de aparecer no momento certo, teria novo postulante. Luan ficou devendo diante das arquibancadas gremistas contra Barcelona e Lanús? Pois é, aconteceu. Mas terminou como um dos responsáveis por fazer o Grêmio subir ainda mais de rendimento fora de casa. Por destroçar o Granate dentro de sua Fortaleza. Luan teve os lampejos de gênio do Renato de 1983, com o poder de definição de um Jardel e a impetuosidade de um Paulo Nunes. Recebeu da Conmebol o prêmio de melhor jogador do torneio continental.

Luan, por fim, expurga os seus fantasmas. Se a taça da Libertadores repousou em suas mãos, foi porque ele a desejou. Apesar das propostas para sair do Grêmio no meio do ano, cotado no futebol europeu, preferiu continuar vestindo a camisa tricolor. Renovou o seu contrato e provou que sua permanência não foi em vão, diante de tamanha epopeia. Pode desejar ainda mais, com o Mundial de Clubes entrando no roteiro tricolor. E já não importa muito o que acontecerá daqui para frente, embora as expectativas sobre ele sejam grandes rumo a Abu Dhabi. Seu lugar no panteão gremista é definitivo.

Aos 24 anos, Luan atinge um patamar enorme. Campeão olímpico, craque de uma Libertadores, um dos melhores atacantes em atividade no Brasil ao longo dos últimos três anos. Parece pronto a anseios maiores, continuando em Porto Alegre ou não. E, mais importante, reivindica o seu nome com força para seleção brasileira. É um talento que, diante do que protagonizou na Libertadores, não pode ser prescindido rumo à Copa do Mundo. O camisa 7 tende a crescer além em 2018.