No nosso século, quando o futebol é tratado como o mais lucrativo negócio na área esportiva, movimentando bilhões de dólares por ano e pagando salários astronômicos a jovens ainda imberbes, algumas espécies de jogadores estão em extinção. Como o jogador símbolo do clube, torcedor de arquibancada quando criança, cujo maior sonho é vestir por muitos anos a camiseta do seu coração, não importa o tamanho do clube ou as benesses financeiras. Aquele jogador que carrega depois o nome do clube ao lado do seu: o Zico do Flamengo, o Falcão do Inter, o Pelé do Santos. No campeonato italiano de cifras reluzentes e muita bagunça, jogadores assim não mais existem, certo? Errado. Basta olhar com atenção para o artilheiro da Série A em 2005.

Cristiano Lucarelli é o típico centroavante “bomber”. Não tem muita qualidade técnica mas sim um instinto apurado, que aliado ao seu chute forte constrói muitos gols. Talhado para a disputa do calcio, seus 1,88 de altura e 85 quilos permitem embates de peso com os nada mirrados zagueiros da Série A. Tem um bom cabeceio e não costuma desistir fácil do gol: mesmo em jornadas trágicas onde o time leva seis gols, como contra o Parma temporada passada, Luca encontrou disposição para fazer quatro gols e manter o time sempre atento no jogo.

Amor pelo clube e pelo socialismo

Começou a carreira no Perugia em 93, foi artilheiro no Padova e no Cosenza, e em 97 debutou na Serie A pelo Atalanta. Não marcou tantos gols como nas divisões inferiores, mas conseguiu uma lucrativa transferência para o Valencia. Ficou apenas uma temporada, repassado depois para a Lecce, onde conseguiu a boa marca de 27 gols em duas temporadas. Antes de se transferir para o clube do coração ainda teve uma passagem não muito boa pelo Torino: marcou apenas um gol na temporada 02/03.

Se Lucarelli já rodou por tantos clubes, por que a comparação com os antigos craques que jogaram a vida inteira em um time apenas? Porque Luca é um torcedor fanático do Livorno. Tem o brasão do clube tatuado no braço, foi membro fundador da torcida mais importante do clube (as BAL, Brigadas Autônomas Livornesas, cujo ano de criação, 1999, é o número da sua camiseta), é militante de esquerda, como a maioria dos adeptos.

Reclamou recentemente de uma conspiração de direita nas arbitragens para prejudicar o Livorno, fazendo coro aos cânticos contra Berlusconi entoados no estádio amaranto. Fora de campo, o atacante também faz valer a sua ideologia socialista, incentivando a luta dos operários fabris da cidade e ministrando palestras contra o racismo nas escolas. Sua convicção esquerdista gera polêmica e provocações na Itália. O presidente da Lega Calcio Adriano Galliani disse que Lucarelli deveria esquecer os fatores políticos e pensar em jogar; a torcida da Lazio brindou o jogador com diversas faixas provocativas no recente confronto entre as duas equipes.

Estréia pela seleção

Os 24 gols marcados na Série A chamaram a atenção de Marcello Lippi, que o convocou para jogar pela Azzurra em amistosos disputados na América do Norte. Não era a seleção principal e os jogos nada valiam, mas Luca mostrou serviço, marcando o gol do empate em 1 a 1 com Sérvia e Montenegro – pena que no jogo seguinte, contra o Equador, desperdiçou um pênalti.

Lucarelli, entretanto, não se mostra impressionado nem com as convocações nem com as sondagens de clubes ricos, como o Tottenham Hotspur, que levou um sonoro “não” do presidente amaranto Spinelli. Ele só quer sair se o clube pedir e se a transferência tornar o Livorno mais forte. “Não gosto da imagem dos jogadores que só pensam em carros e relógios caros, acho que o mais importante é estar bem consigo mesmo e com as próprias decisões.”, diz o centroavante. Enquanto as suas decisões forem convertidas em gols para o time e boas obras para a comunidade, ninguém conseguirá tirá-lo de Livorno.