A manchete do Liverpool Echo, jornal da cidade, diz tudo: “A imagem que os torcedores do Liverpool pensaram que nunca veriam”. A imagem era Lucas Leiva com um cachecol da Lazio, corres que passará a defender na próxima temporada, assim que completar sua iminente transferência para a Itália. Porque, nos últimos dez anos, muita coisa mudou no Liverpool. Mas Lucas Leiva sempre esteve lá, como a pedra angular do clube.

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Foi contratado como Bola de Ouro do Campeonato Brasileiro, depois de uma ótima campanha na Libertadores, quando os Reds haviam chegado a duas finais europeias em três temporadas e brigavam pelo título inglês. Rafa Benítez foi embora pouco depois, e o clube começou uma série de decisões erradas que o empurraram para o meio da tabela. Manteve-se fiel ao Liverpool durante todo esse período difícil, que correspondeu também aos seus melhores dias como jogador de futebol, mesmo que isso significasse nunca alcançar o potencial que prometia no começo da carreira ou menos chances na seleção brasileira.

Simbolicamente, vai embora, como veterano, no que promete ser o começo de uma retomada de grandeza sob o comando de Jürgen Klopp. A adaptação não foi tão fácil. Jogou apenas 40 jogos como titular nas duas primeiras temporadas e chegou a ser vaiado durante uma partida contra o Fulham. “Um dia, Jamie Carragher estava falando comigo, mas falava muito rápido e eu não fazia ideia do que estava dizendo, então eu simplesmente respondi: ‘sim’. Ele parou. Não parecia feliz. Então, eu disse: ‘não’. Ele saiu andando, ainda não parecendo feliz. Até hoje, eu não sei o que ele estava falando”, disse, ao Daily Mail.

"Lucas Leiva: scouse (como chamam moradores de Liverpool) brasileiro" (Foto: Getty Images)

“Lucas Leiva: scouse (como chamam moradores de Liverpool) brasileiro” (Foto: Getty Images)

Suas duas temporadas seguintes, entre 2009 e 2011, foram as melhores, com um total de quase 100 jogos disputados, quase todos desde o começo. Nesse período, quase foi vendido para a Internazionale, mas o relacionamento ruim da diretoria com o então técnico nerazzurri, Benítez, atrapalhou a transferência. Em seguida, sofreu uma séria lesão no joelho que encerrou sua temporada precocemente. Alguns anos depois, já com Brendan Rodgers, a gigante italiana mais uma vez demonstrou interesse, mas ele ficou. Ano passado, houve uma terceira onda de especulações, e ele novamente ficou.

Ele estava destinado a passar uma década no Liverpool e, para isso, superou todas essas dificuldades, com o mesmo espírito de luta que demonstrou em campo todas as vezes que vestiu a camisa vermelha e fez com que ele se tornasse um dos favoritos das arquibancadas: lesões, especulações de transferência e uma queda brusca nas ambições do clube que defendeu. A recompensa é que, com 346 partidas, o brasileiro está entre os 50 jogadores que mais partidas disputaram pelo Liverpool na história. O sexto dos tempos modernos, quando o troca-troca de clubes ficou mais frequente, atrás de Carragher, Gerrard, Hyypia, Fowler e Riise.

Lucas Leiva não explodiu na Europa como se esperava. Foi uma escolha: trocou uma potencial carreira em outros grandes europeus em fases melhores, conquistando títulos com frequência, por uma longevidade no clube que o acolheu. Foi absolutamente profissional ao longo desses dez anos, correspondendo com muita dedicação e espírito de equipe. Nunca reclamou da reserva, nunca se incomodou em trocar de posição. E por todo esse suor, Lucas merece todos os aplausos e merecia ter conquistado mais troféus na Inglaterra.