O Palmeiras tende a contratar menos para 2018 do que em relação aos últimos três anos, até porque uma hora acaba o papel no almoxarifado para produzir contratos, mas ainda não abandonou o protagonismo no mercado de transferências. Lucas Lima foi anunciado, nesta quinta-feira, como o principal reforço da próxima temporada. E também o mais controverso.

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Lucas Lima joga muita bola e provavelmente seria titular de todos os times do Brasil, mas a desconfiança emana dele por meio de dois poros: seu histórico de provocações com os palmeirenses e a postura, dentro e fora de campo, durante a reta final do seu contrato com o Santos.

Como a maioria das suas colegas, a torcida do Palmeiras é desconfiada por natureza e chata por vocação, mas, talvez, no Palestra Itália, esses traços sejam um pouco mais acentuados. Ela pega birra de jogadores com muita facilidade e demora para perdoar. Apenas como exemplo, e guardando as devidas proporções, algumas falhas bastaram para que uma porcentagem – pequena, mas existente (e barulhenta) – da massa verde e branca ficasse irritada com Fernando Prass. E olha que estamos falando de um ídolo incontestável dos últimos anos, que salvou o Palmeiras de um terceiro rebaixamento, defendeu pênalti de Elias contra o Corinthians e foi o mais decisivo jogador da conquista da Copa do Brasil.

Lucas Lima, ao contrário, ainda não acertou um passe com a camisa do Palmeiras e, portanto, não tem nenhum crédito na praça, e ainda possui um histórico de provocações com a torcida do seu novo clube. A maioria inofensiva. Algumas risadas após derrotas alviverdes e vitórias alvinegras e, principalmente, uma constante piada com Matheus Sales, jovem volante que o marcou muito bem naquela decisão da Copa do Brasil. Ele próprio brincou com o assunto: “Nada de #tánobolso (de Matheus Salles). Agora é #tánoporco”. E Sales também entrou na zoeira: “Agora, sim, tá liberado”.

Lucas Lima não cruzou a linha do imperdoável, e jogadores podem, respeitavelmente, brincar com as provocações que recebem de torcedores rivais. Mas também não podemos ignorar relações inevitáveis de causas e consequências. Mesmo que você ache que a gravidade pega um pouco pesado com essa mania de puxar as coisas para o centro da Terra, a realidade é que, se você pular da janela, vai se espatifar no chão. Pode parecer exagerado que comentários nas redes sociais causem reservas em alguns torcedores que recebem jogador de um rival com o qual travaram duelos decisivos e acirrados recentemente. Mas eles causam. E as reservas existem.

Também cabe neste lado da equação a maneira como Lucas Lima conduziu seus últimos momentos pelo Santos. Deixar claro que sua intenção era assinar por um clube grande da Europa todas as vezes que entrava no raio de dois metros de um microfone é demonstração de ambição e, ao mesmo tempo, de que o clube em que estava era um mero trampolim. Embora todos soubessem que estava negociando com o Palmeiras, evitou a franqueza no trato com a imprensa – que não é nada mais do que o canal que liga o jogador ao torcedor – enquanto adotava uma postura entre a indolência e o desinteresse no Brasileirão que está prestes a terminar.

O torcedor santista, mesmo o que é muito ruim em matemática, sabe somar dois mais dois e concluir que a cabeça de Lucas Lima, ainda vinculada ao Peixe por contrato, estava muito longe da Vila Belmiro nos últimos meses. O que apenas acentua a impressão geral de um jogador vaga-lume, que oscila demais, não participa muito do jogo, principalmente quando está sem a bola, e peca na intensidade. O palmeirense tem todo o direito de se perguntar: eventualmente, ele fará o mesmo conosco?

Considerando também o valor da negociação, o Palmeiras assume um risco grande com Lucas Lima. Novos jogadores têm pouco tempo para conquistar a torcida do Palmeiras. Pelo histórico e por ser um jogador com um estilo de jogo que tende por natureza a irritar, a paciência, artigo já raro nas arquibancadas do Allianz Parque, estará ainda mais indisponível para Lucas Lima, que provavelmente não terá direito ao terceiro passe errado e nem demonstra o perfil de lidar com as críticas de uma maneira mais zen. E, nesse caso, o Palmeiras teria um problema de R$ 50 milhões para resolver.

Há motivos para o palmeirense estar com um pé atrás com esta nova contratação, mas também seria salutar que tivesse um pouco mais de tolerância que o natural antes de iniciar as cornetas. Porque, em campo, Lucas Lima tem muito a acrescentar, se ficar próximo do máximo que pode jogar. Forma uma excelente parceria com Moisés, que agradece a oportunidade de atuar na sua posição de origem, e mais um volante. Talvez Felipe Melo, Thiago Santos ou Tchê Tchê, neste caso recuando Moisés mais um pouco. E ainda há Alejandro Guerra para a rotação de um meio-campo muito talentoso. O problema fica para jovens como Hyoran e Raphael Veiga, contratados para esta temporada. Nenhum deles ganhou muita sequência de jogo e ambos precisam sair, mesmo que por empréstimo, para continuarem seus desenvolvimentos.

Lucas Lima, 27 anos, sonha com a Copa da Rússia e com a elite europeia. Parece altamente improvável no momento, mas, no Palmeiras que segue se reforçando e enfraquecendo seus rivais, ele tem uma boa plataforma para voltar à mira dos grandes clubes da Europa e do técnico Tite. Ou simplesmente fazer história em mais um gigante brasileiro, se tiver a chance.