Futebol é, antes de tudo, paixão. O que causa essa paixão vai muito além da objetividade técnica, ou das conquistas que enchem salas de troféus. A grandeza de um jogador também vai muito além da sua capacidade técnica, da sua habilidade, dos seus feitos em campo. Diego Lugano se despediu do São Paulo como um ídolo, mesmo tendo feito tão pouco em campo neste 2017. Justamente porque um ídolo se forja por muitos outros elementos. E o que torna Lugano um gigante para a torcida do São Paulo é justamente seu entendimento sobre o que é a paixão do torcedor e saber colocar o clube acima de tudo.

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O ano do São Paulo foi terrível. O time ficou boa parte dele ameaçado pelo rebaixado, muitas rodadas dentro da zona de descenso. Tudo indicava que o ano de Lugano também seria ruim. Em campo, não há muito mesmo o que comemorar. Primeiro, pelo desempenho de quem jogou. Segundo, por ele mesmo não ter jogado muito. A frustração de não atuar, porém, não tirou de Lugano o foco de ajudar como pudesse. Não impediu que ele tivesse um papel importante, ainda que fora de campo. Mas como  um jogador que não entra em campo pode ser importante?

Simbolicamente, ele era um representante da arquibancada nos vestiários. Lugano deu demonstrações ao longo da carreira, e nesta passagem pelo São Paulo em particular, que entende muito bem o que significa jogar futebol, representar uma torcida e viver, dia a dia, como alguém que carrega a responsabilidade de milhares e milhares de apaixonados que vão ao estádio apoiar o time. E mais ainda a do São Paulo, que parece nutrir por ele uma admiração que poucos conseguem ter.

A idolatria de Lugano tem a ver com a postura do uruguaio. Não só a raça e dedicação que marcou a sua carreira. Tem a ver com o respeito que ele mostra ao clube. Desde o começo, recusou a ideia de ter um jogo festivo de despedida. E uma das razões é das mais admiráveis. Ele contou, em entrevista ao UOL Esporte, por que não aceitou a proposta da diretoria para um adeus pomposo, assim como a de Rogério Ceni.

“Eu não fiquei bravo, só falei para a diretoria: não me sinto desse tamanho. Se Careca não teve despedida, Darío não teve despedida, Raí não teve despedida, eu não posso. Eu morro de vergonha, eu passaria mal. Não vou aceitar, não posso aceitar um jogo de despedida”, disse Lugano. “A homenagem que a torcida do São Paulo me fez e me faz não tem preço. É incrível. Eu não preciso desse momento e não acho justo com outras figuras do São Paulo, de um tamanho muito maior que o meu. Não vou fazer, não tem discussão”.

O clube em primeiro lugar. Isso é de uma grandeza enorme. Raí, um dos maiores ídolos da história do São Paulo, não teve uma despedida no clube. Teve no Paris Saint-Germain, o que é uma vergonha para o São Paulo. Mas Lugano se coloca menor que os grandes nomes da história do São Paulo, em uma humildade franca.

E ele tem razão. Lugano parece ter um entendimento de futebol acima da média. Paulo Junior, nosso companheiro de Central 3 e que faz o podcast Trivela, descreveu em poucas palavras o muito que significa Lugano.

Estar em sintonia com a torcida é algo raro. É uma ligação que nem sempre acontece. Ou, quando acontece, por vezes é facilmente quebrada quando os problemas chegam. Lugano parece se preocupar com essa relação. Faz questão de deixar claro que se sente grato com tudo isso, mas que realizou muito menos do que o carinho da torcida sugere.

Em campo, talvez seja menos do que a idolatria indique. O que talvez o próprio Lugano não tenha dimensão é justamente que o que o torna ídolo é seu entendimento da importância da paixão, da relação entre as pessoas e o clube e também colocar o clube acima de si mesmo, sempre. A instituição primeiro.

“Não sei se consegui deixar a marca que sempre sonhei. A pergunta deve ser feita ao entorno do São Paulo. Sigo com paz interior, tranquilidade e alegria por ter dado tudo o que podia ao São Paulo, por ter recebido coisas do clube que nunca sonhei, principalmente das pessoas.  Nunca esquecerei o São Paulo”, afirmou Lugano ao site do São Paulo.

“Sou o cara mais grato do mundo nesses 15 anos de relacionamento com o São Paulo. Sou o cara mais feliz do mundo pela intensidade das vitórias e derrotas, sempre com dedicação. Vivi sensações que encheram a minha vida. Os últimos meses aqui foram tão lindos e intensos que não deu para pensar sobre mim. E nem quis. Queria me dedicar inteiramente ao momento”, continuou o uruguaio.

Lugano, do São Paulo (Foto: Rubens Chiri / saopaulofc.net)

“O Lugano deixa um legado, porque é um cara fantástico, líder e exemplo para todos. Não precisamos nem falar o quanto ele representa em campo, porque sempre nos trouxe muitas coisas positivas. No momento mais difícil, ele sempre nos ajudou com palavras de motivação, além de atitudes que não esqueceremos mesmo quando não jogava”, disse Rodrigo Caio.

“Ele sempre nos apoiou. É um cara sensacional, e vou guardar isso no meu coração. Foi uma grande alegria jogar ao lado dele. Guardarei isso. Posso falar com orgulho que joguei ao lado de dois ídolos do São Paulo: Rogério Ceni e Lugano. Se a torcida soubesse como é o Lugano como pessoa, idolatraria ainda mais”, contou ainda Rodrigo Caio.

Lugano jogou menos do que queria em 2017. Ele mesmo chegou a dizer que atuou menos do que acha que merecia. Provavelmente tem razão, considerando o desempenho do São Paulo. Lugano rende muito menos do que rendia na sua primeira passagem, mas os zagueiros do time também não renderam tanto assim. Mesmo o mais badalado deles, Rodrigo Caio, teve um ano fraco.

Isso não o impediu de ser alguém para empurrar o time para cima, buscando sair do buraco que se metia. Ajudou a equipe a contornar as crises que apareceram – e não foram poucas. Exerceu a liderança que era esperada dele. Faltava alguém que fizesse isso em campo, porque ele não jogava. A lacuna foi preenchida com Hernanes. Fora, Lugano continuou fazendo o seu trabalho da melhor forma possível. E motivando os companheiros.

No seu último jogo pelo São Paulo, foi bem em campo contra o Bahia. A torcida, claro, o aplaudiu e homenageou com aplausos e gritos com o seu nome. Ao final da partida, ele foi retribuir o carinho sobre o símbolo do São Paulo no Morumbi, homenageado também pelos companheiros. Celebrado pelos torcedores e pelos colegas.

Dificilmente Lugano teria condições, físicas e técnicas, de ser titular do São Paulo em outra temporada. Isso, porém, é o de menos. O que ele representou neste ano é suficiente para colocá-lo ainda mais entre os ídolos do clube. Menos pela sua capacidade técnica, muito mais pelo caráter que mostrou. As histórias precisam terminar e é melhor quando é cheio de reverência. É um sinal que as coisas foram bem feitas.

Lugano e a homenagem da torcida do São Paulo (Foto: Rubens Chiri / saopaulofc.net)

As palavras de Lugano após o jogo com o Bahia reforçam suas atitudes. “Impossível expressar em palavras a emoção que companheiros, funcionários e torcedores me fizeram sentir. É uma sensação que nunca havia experimentado na vida. Tenho a sensação de que fiz tudo o que gostaria no futebol. O mais importante é ver quem está no dia a dia com você, na intimidade, o que pensa de você. Esses dias o São Paulo me fez sentir a pessoa mais feliz do mundo”, declarou.

“Um sentimento como este é especial, porque o São Paulo é um dos maiores clubes do mundo. Jogadores renomados passaram por aqui. Cheguei jovem, um uruguaio desconhecido aqui e cheio de ilusões. Fecho uma etapa que um dia ia chegar. Mas é uma sensação de tranquilidade, de ter feito tudo o que gostaria. Me deu essa sensação”, disse ainda Lugano.

Por fim, uma declaração que simboliza o que é e o que foi Lugano em sua carreira no São Paulo. “Meu vínculo com o São Paulo é para a vida toda. O clube deu tudo para a minha família. Cheguei à seleção do Uruguai graças ao São Paulo, fiz carreira de 11 anos, fui à Europa e solucionei minha vida econômica graças ao São Paulo. Sou grato eternamente. Como sempre falo para a torcida: obrigado por tudo e perdão por tão pouco”.

Tenho certeza que quem agradece é a torcida do São Paulo, Lugano.

Lugano se despede do São Paulo (Foto: Rubens Chiri / saopaulofc.net)

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