A situação de Marcelo Bielsa no Lille é completamente nebulosa. Os resultados são péssimos, basta olhar para a tabela da Ligue 1 e procurar os Dogues (lá no rodapé) para perceber. O elenco parece não ter compreendido bem a famosa “filosofia bielsista” e pena para fazer o futebol ultraofensivo funcionar. Mas o cenário sem qualquer certeza possui outros elementos. A imprensa francesa relata um desentendimento com Gerard López, dono do clube. A “suspensão momentânea” seria um eufemismo para a busca de uma melhor maneira de romper o contrato. Além disso, alguns jornalistas também afirmam que, sem ordem superior, o treinador teria viajado ao Chile para visitar o amigo Luís María Bonini, sofrendo com um câncer de pele terminal. A vinda a Santiago ainda não foi confirmada. O antigo preparador físico de El Loco, no entanto, infelizmente faleceu nesta quinta-feira, aos 67 anos.

E não dá para limitar Bonini apenas como um adjunto de Bielsa. O preparador físico teve papel fundamental em quase todos os trabalhos do treinador. Mais do que um braço direito, era uma liderança por si. Acompanhou El Loco por quase duas décadas, desde meados dos anos 1990 até a passagem pelo Athletic Bilbao. Estiveram juntos à frente da seleção argentina entre 1998 e 2004, levando o ouro olímpico em 2004, apesar da frustração na Copa do Mundo de 2002. Já o período mais marcante aconteceu mesmo no Chile. Durante os quatro anos em que a dupla orientou La Roja, Bonini foi visto como um pai pela “geração de ouro” chilena, que acabaria registrando suas maiores conquistas no ciclo posterior. O argentino passou a morar no país durante os últimos anos de sua vida.

Nesta quinta, vários e vários jogadores renomados se manifestaram em pesar. Diego Simeone, Juan Pablo Sorín, Javier Mascherano, Hernán Crespo, Alexis Sánchez, Claudio Bravo, Arturo Vidal, Iván Zamorano e ainda outros expressaram o seu luto. A federação chilena hasteou suas bandeiras a meio mastro. O Athletic Bilbao usou braceletes negros. E as mensagens se espalharam também por diversos torcedores, sobretudo os chilenos, conscientes da importância do preparador físico. Seu moral no país era tão grande que ele chegou a virar comentarista na TV local, trabalhando na Copa do Mundo de 2014 e na Copa América de 2015. Depois, se juntaria à comissão técnica da Universidad de Chile, mas logo deixaria o cargo por causa do tratamento de seu câncer.

O grande legado de Bonini? Suas histórias e anedotas. Um episódio bem famoso, e que fala bastante sobre a sua personalidade, aconteceu em 2007, antes de um jogo contra o Uruguai pelas Eliminatórias. O preparador físico estava na saída do vestiário quando os jogadores seguiam ao gramado do Centenario e deu um baita grito na orelha do ‘Chupete’ Humberto Suazo, para animá-lo rumo à duelo decisivo. Era o motivador do grupo, a principal ligação com Bielsa e também aquele que mantinha a disciplina entre tantas estrelas – algo que faltou, por exemplo, entre os chilenos nos anos posteriores.

Em suas entrevistas, Bonini ainda valorizava bastante o sentimento do amadorismo, do amor ao esporte. Estudante de economia, havia abandonado o curso para se tornar educador físico e trabalhou no basquete antes de mergulhar no futebol. Dizia até mesmo que, por aquilo que se respira esportivamente, preferia voltar antes a uma Olimpíada do que a uma Copa do Mundo. Ideais escancarados em declaração à revista El Gráfico, na qual relembra sua passagem pela seleção argentina: “Tentei continuar a herança que Maradona deixou. Ou seja: que os jogadores entendessem que o único importante é a seleção, que tivessem desespero em integrá-la. Eu me preocupei, então, por alimentar esta chama. Porque vivi a época em que os jogadores não queriam mais ir à seleção”.

Ao final, a imagem de Bonini fica preservada pelas lembranças dos muitos que os conheceram. E pelas amplas manifestações de carinho, dá para perceber o grande homem que era.