A Bélgica pegou dois adversários frágeis neste início de Copa do Mundo, é verdade. Mas em uma edição no torneio em que qualquer equipe parece capaz de complicar os favoritos (vide o que aconteceu com os próprios tunisianos diante da Inglaterra), os Diabos Vermelhos apresentam suas qualidades para atropelar os oponentes. Demonstram sua enorme confiança, o que faz uma diferença notável no Mundial. E depois de participações decepcionantes em competições internacionais, os belgas estão muito mais seguros de si. Basta ver o que Dries Mertens fez contra o Panamá, o que Eden Hazard fez contra a Tunísia ou mesmo a maneira como até os coadjuvantes estão brilhando. E, principalmente, a voracidade com a qual Romelu Lukaku vai decidindo as partidas. Ter um centroavante como ele é sonho de consumo a qualquer seleção, e vai sendo preponderante ao time de Roberto Martínez.

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Quando chegou à sua primeira Copa do Mundo, Lukaku realizava um sonho de infância. A quem agarrou o futebol como único caminho a partir dos seis anos de idade, no momento em viu a mãe misturando água no leite, chegar ao maior dos palcos tinha uma representatividade maior. Era a promessa que fez ao avô cumprindo-se, como de forma tão emocionante relatou ao The Players’ Tribune. Ainda assim, a Bélgica não contou em 2014 com o melhor de Lukaku, em uma equipe, que é bem verdade, também não aproveitou o melhor da maioria de seus jogadores.

Lukaku já tinha deixado o Anderlecht como um dos maiores talentos do futebol belga e, depois de fugazes passagens pelo Chelsea, despontará em empréstimos ao West Brom e ao Everton. Tinha 21 anos recém-completados quando desembarcou no Brasil, e nove gols anotados pela equipe nacional. Entretanto, não desencantou em uma Bélgica que sofreu para encantar. Titular nas duas primeiras partidas, saiu sempre no início do segundo tempo, para a entrada de Divock Origi. Isolado demais em um time sem coesão, Lukaku não escondia a insatisfação ao ser substituído. E, pior, esquentaria o banco a partir dos mata-matas. Origi ganhou a posição do camisa 9 nas oitavas. Nem o gol decisivo no jogaço contra os Estados Unidos, resolvido apenas na prorrogação, recobrou a titularidade a Lukaku contra a Argentina. Deixou o torneio sob a impressão de que ficou devendo, embora fosse um nome a evoluir.

Foi o que Lukaku conseguiu neste ciclo de quatro anos. Hoje, aos 25 anos, é um jogador muito mais completo. Virou ídolo no Everton e também fez uma boa temporada de estreia com o Manchester United, apesar de algumas oscilações. Já na seleção belga, Origi nem de longe parece capaz de competir com o centroavante, quatro anos depois. Foram 26 gols em 35 partidas a Lukaku até chegar à Copa de 2018. Ainda não realizou tudo o que se apostava na Euro 2016, em mais uma frustração dos Diabos Vermelhos. Em compensação, arrebentou nas Eliminatórias do Mundial. Acumulou 11 gols em 10 partidas, abaixo apenas do desempenho absurdo de Robert Lewandowski e Cristiano Ronaldo.

Então, a oportunidade reapareceu no Mundial da Rússia. O primeiro tempo de Lukaku, assim como o do restante da Bélgica, não foi bom contra o Panamá – e até rendeu uma cornetagem do companheiro Eden Hazard. No segundo tempo, o centroavante resolveu com dois gols. Já neste sábado, teve uma atuação excelente contra a Tunísia. Mais do que o poder de definição, a movimentação do camisa 9 valeu demais para abrir espaços aos belgas, sobretudo a Hazard e Dries Mertens. Com um trio de ataque que apresenta tantas virtudes combinadas, cada um ao seu próprio estilo, os Diabos Vermelhos conseguem colocar pressão sobre qualquer defesa. Ainda mais diante da inspiração do centroavante, contra adversários que cederam os espaços.

Lukaku fez de tudo um pouco contra a Tunísia. Correu, marcou, buscou o jogo de ponta a ponta, ganhou bolas pelo alto, contribuiu na construção de jogo. Criou duas oportunidades para os companheiros arrematarem. E quando apareceu para finalizar, seus dois únicos chutes da tarde terminaram nas redes. Primeiro, sua velocidade e a sua inteligência foram fundamentais, escapando da marcação para dar opção a Mertens, antes de bater no cantinho. Depois, mais uma movimentação excepcional, saindo de trás e pegando a defesa tunisiana desprevenida, para receber a assistência belíssima de Thomas Meunier. Deu um toque cheio de categoria por cima do goleiro, para celebrar mais uma vez. Com o resultado definido, saiu durante o começo do segundo tempo, tal qual em 2014. Agora aplaudidíssimo, poupado para fazer mais na Copa. Michy Batshuayi até mostrou vontade ao substituí-lo, mas não o poder de fogo do camisa 9.

A tarde de Lukaku foi ainda mais especial por seus números. Chegou a 40 gols pela seleção belga, recordista absoluto no quesito há algum tempo. Também anotou o seu quinto em Copas, igualando justamente Marc Wilmots como maior goleador do país no torneio. Entretanto, o dado mais emblemático é outro, que não se alcançava há 32 anos. Desde Diego Maradona, quando marcou seus dois gols lendários contra a Inglaterra e fez mais dois na semifinal para eliminar a própria Bélgica, nenhum outro jogador no torneio havia balançado as redes mais de uma vez em duas partidas consecutivas. O camisa 9 da Bélgica conseguiu e já parte como fortíssimo candidato à artilharia, emparelhado com Cristiano Ronaldo no momento.

Se já não se encontram tantos times que jogam em função de seu centroavante, como era comum em outros tempos de futebol, raras são as equipes que veem um centroavante jogar tanto em função da equipe quanto Lukaku. Em um dia inspirado, como se viu neste sábado, faz todo o time melhorar. E se precisarem dele, estará na área para resolver. Os testes maiores virão a partir da terceira rodada, no encontro com a Inglaterra. De qualquer forma, o camisa 9 aparece como um dos grandes nomes neste início de Mundial. Já decisivo, e merecidamente, por tudo o que passou.