Durante dez temporadas consecutivas, entre o início dos anos 80 e o início dos 90, o Luton Town – que recentemente andou até mesmo fora da Football League e hoje tenta se reerguer com uma boa campanha na League Two – foi um habitante notável da primeira divisão da Inglaterra. Embora já tivesse disputado antes, o clube viveu seu período mais marcante na elite naquele período: fez a melhor campanha de sua história na liga, incomodou os grandes, revelou bons jogadores, desprezou padrões, viveu o auge de uma rivalidade, esteve no centro de uma polêmica bem no momento mais dramático do hooliganismo no país e, mais memorável de tudo, levantou o único título de sua história, contada agora em “Azarões Eternos”.

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O acesso folgado em 1982

Fundado em 1885, o clube da região de Bedfordshire (próxima à Grande Londres) filiou-se à Football League em 1897, saindo dela três anos depois por problemas financeiros. Após a volta definitiva em 1920, os Hatters (apelido originado das várias fábricas de chapéus que funcionavam na cidade) viveram a maior parte de sua história nas divisões inferiores, somando até então apenas seis temporadas na elite, cinco delas consecutivas entre 1955/56 e 1959/60, além de um breve retorno em 1974/75. Em 1980/81, depois de passar boa parte da campanha na segundona como candidato sério ao acesso, acabaria na quinta colocação, dois pontos atrás do terceiro colocado e promovido Swansea.

A temporada seguinte foi a primeira em que a Football League adotou os três pontos por vitória, o que favoreceu equipes ofensivas como o Luton, então dirigido pelo promissor técnico David Pleat. Nos 42 jogos da temporada, os Hatters venceram 25 vezes, empataram 13 e perderam apenas quatro, marcando expressivos 86 gols (melhor ataque do campeonato, com média superior a dois tentos por partida). Em apenas cinco jogos a equipe não balançou as redes. Dessa forma, foi até previsível um acesso tão tranquilo: o time somou 88 pontos, contra 80 do rival local Watford e 71 do Norwich, os outros dois promovidos.

A vaga na elite foi confirmada com quatro jogos de antecedência, em 30 de abril de 1982, após uma goleada de 4 a 1 contra o Shrewsbury em casa. Duas vitórias nos dois jogos seguintes (2 a 1 diante do Chelsea em Stamford Bridge e 3 a 2 sobre o Queens Park Rangers em Kenilworth Road) decretaram também a conquista do título da segunda divisão. A missão agora era mostrar que a equipe poderia sobreviver na elite.

A dramática salvação do rebaixamento em 1983

As primeiras impressões do retorno do Luton à primeira divisão evidenciaram o poderio ofensivo do time, mas mostraram que as preocupações defensivas seriam maiores. O time bateu o Notts County por 5 a 3 e o Brighton por 5 a 0. Como visitante, arrancou empates em 2 a 2 com o Tottenham, em 3 a 3 com o campeão Liverpool (num jogo em que seu goleiro Jake Findlay se lesionou e dois jogadores de linha se sucederam sob as traves) e em 4 a 4 com o Stoke. Mas também apanhou de 4 a 1 do Aston Villa em Birmingham. Nos primeiros nove jogos, marcou 24 gols (quase três por jogo) e sofreu 21.

Do começo de outubro até o fim do ano, no entanto, as vitórias começariam a rarear: foram apenas duas nos 12 jogos seguintes. O mês de janeiro trouxe pontos importantes, mas de fevereiro até o começo de abril, o time voltaria a passar por maus momentos, com seis derrotas em oito jogos. Algumas com placares pesados: 3 a 0 para o Ipswich, 4 a 1 para o Arsenal e um vexatório 5 a 2 para o rival Watford, no troco dos Hornets após a derrota por 1 a 0 em Kenilworth Road em dezembro.

Paul Walsh, do Luton Twon, disputa com Arthur Albiston, do Manchester United

Em 7 de maio, ao perder por 5 a 1 em casa para o Everton, o alerta vermelho já estava acionado: pela primeira vez o clube descia à zona de rebaixamento. Faltavam apenas dois jogos para o fim da temporada. O primeiro, um 3 a 0 para o Manchester United em Old Trafford dois dias depois, deu prosseguimento ao sofrimento dos Hatters. O segundo e último seria novamente em Manchester, agora diante do também ameaçado City em Maine Road.

Depois de chegar a liderar a tabela nas primeiras rodadas, os Citizens haviam experimentado um declínio semelhante ao do Luton, mas tinham duas vantagens naquele confronto decisivo de 14 de maio de 1983: jogavam em casa e precisavam apenas do empate. Mesmo assim, foram para cima tentar o gol que selaria a permanência na elite, mas os Hatters resistiam bravamente, e o 0 a 0 persistia.

Até que, aos 40 minutos do segundo tempo, um cruzamento para a área do City foi socado pelo goleiro Alex Williams e parou no pé do meia iugoslavo Radomir “Raddy” Antic (ele mesmo, o futuro treinador de Atlético de Madrid, Real Madrid e Barcelona). Da meia lua, o chute veio colocado, mas com certa força, tomando o caminho das redes. Foi o único do jogo e valeu a salvação milagrosa do Luton. Ao apito final, nem mesmo o técnico David Pleat se conteve: entrou em campo aos pulos de alegria, numa cena ao mesmo tempo engraçada e comovente, que entraria para a história do futebol inglês.

Na temporada seguinte, o Luton outra vez teve declínio acentuado após a virada do ano, mas desta vez sofreu menos com a ameaça da degola graças ao ótimo desempenho na primeira metade da campanha. Até a rodada de Boxing Day, em 26 de dezembro, o time havia vencido nada menos que 11 de suas 19 partidas (com dois empates e seis derrotas completando o retrospecto) e ocupava a terceira posição. Ao fim do campeonato, o time terminou na 16ª colocação, com 51 pontos ganhos.

De Kenilworth Road à seleção

As bases lançadas nas duas primeiras temporadas para uma permanência duradoura na elite também ajudaram a revelar o bom futebol dos destaques individuais daquele elenco. E alguns deles foram parar na seleção inglesa – algo que não acontecia com jogadores do clube desde 1955. Com menos de um mês de vida na elite com o Luton, o volante Ricky Hill, jogador dinâmico, batalhador e bom distribuidor, foi incluído nas primeiras listas de convocados de Bobby Robson e entrou em campo no jogo de estreia do treinador, um empate em 2 a 2 com a Dinamarca num amistoso em Copenhague em 22 de setembro de 1982.

Em junho de 1983, foi a vez do atacante Paul Walsh, então com apenas 20 anos, ser chamado para uma excursão à Austrália, na qual entraria em campo nos três jogos e marcaria um gol. Jogador veloz e driblador pelos lados do setor, havia sido contratado pouco depois do acesso junto ao Charlton para o retorno à elite. Em 1983/84 seria eleito o melhor jogador jovem da temporada e em maio de 1984 seria negociado com o Liverpool, que via nele um substituto a médio prazo para o ídolo Kenny Dalglish.

Antes disso, em fevereiro de 1984, Walsh formaria a dupla de frente da seleção com seu companheiro de clube, Brian Stein, num amistoso com a França em Paris. Nascido na Cidade do Cabo, na África do Sul, mas com nacionalidade inglesa, Stein era igualmente veloz e habilidoso, além de goleador. Titular desde 1978, fora o artilheiro do clube em quatro temporadas, sempre marcando pelo menos 14 gols. Em 1988, deixaria o Luton negociado com o Caen francês, retornando por mais uma temporada em 1991/92. Seu irmão mais novo, Mark, jogava nas divisões de base dos Hatters e logo se juntaria a ele na equipe de cima.

O nome de maior experiência internacional daquele elenco, no entanto, era o lateral-esquerdo Mal Donaghy, que defendia a seleção da Irlanda do Norte desde 1980 e havia disputado a Copa do Mundo da Espanha, dois anos depois. Bom marcador e apoiador competente, mais adiante passaria ao centro da defesa. Em 1988, já aos 31 anos de idade (e depois de ter também participado do Mundial do México, dois anos antes), deixaria o clube contratado pelo Manchester United a pedido do técnico Alex Ferguson.

Um fato que chamava a atenção no elenco dos Hatters era a presença maciça de jogadores negros – já então um pouco mais comum nos clubes ingleses do que em relação a cinco ou seis anos antes, mas mesmo assim ainda digna de nota. Além de Ricky Hill e Brian Stein, dois outros jovens talentos tiveram a chance de se firmar no time titular na temporada 1983/84: o zagueiro Paul Elliott, que mais tarde sairia para o Aston Villa e de lá para o Pisa, da Serie A italiana, onde seria companheiro de Dunga, e o lateral-esquerdo Mitchell Thomas, bom apoiador, que seria vendido ao Tottenham em 1986. O meia Ray Daniel e o ponta-esquerda nigeriano Emeka Nwajiobi completavam o contingente.

A rivalidade com o Watford

Vizinhos em duas localidades próximas, nas franjas da região metropolitana de Londres, Luton (de Bedfordshire) e Watford (de Hertfordshire) vivem rivalidade que remonta ao fim do século XIX e se acirrou a partir dos anos 1960. Os dois clubes disputam o chamado “Beds-Herts Derby”, também conhecido como “M1 Derby”, em alusão à rodovia que corta ambas as cidades. Em 1982, quando os dois clubes conquistaram juntos o acesso na segunda divisão, esta rivalidade foi transportada para a elite.

O Watford viveu sua era de ouro no futebol inglês naquele período. Presidido por Elton John, dirigido por Graham Taylor e contando em campo com talentos como John Barnes e Luther Blissett, o clube obteve um surpreendente vice-campeonato na liga (ainda que bem atrás do Liverpool) em sua temporada de estreia e também chegaria à decisão da FA Cup em 1984, perdendo para o Everton. Por outro lado, não chegaria a levantar algum troféu importante, ao contrário do Luton (como veremos mais adiante) e teve período mais curto na elite, sendo rebaixado em 1988, quatro anos antes do rival. Mas ali a rivalidade pegou fogo.

Nos 12 confrontos pela primeira divisão, o Luton leva ligeira vantagem no retrospecto, com sete vitórias e cinco derrotas (os dois jamais empataram). O Watford, porém, marcou mais gols (21 contra 17) e registrou as vitórias mais elásticas: 5 a 2 em abril de 1983 e 3 a 0 em março de 1985. Em duas temporadas, os Hatters fizeram a “dobradinha” no duelo, vencendo em casa e fora: em 1985-86, fizeram 2 a 1 no campo do rival, em Vicarage Road, e 3 a 2 em casa. Já em 1987-88 (última temporada dos dois juntos na elite) fizeram 1 a 0 fora e 2 a 1 em casa. Os Hornets, por sua vez, podem se gabar de terem vencido os dois confrontos justo na melhor campanha do rival na elite, em 1986-87, quando ganharam ambas as partidas por 2 a 0.

Nesse período, o derby também aconteceu pela FA Cup em duas ocasiões. A primeira na temporada 1983-84, em confronto válido pela terceira fase (a primeira em que ambos entraram). O empate em 2 a 2 em Luton levou a um jogo extra, agora em Watford e vencido pelos Hornets – que chegariam à final naquele ano – pelo movimentado placar de 4 a 3. A revanche dos Hatters veio logo na campanha seguinte, no duelo pela quinta fase (equivalente às oitavas de final): após empates em 0 a 0 em Kenilworth Road e em 2 a 2 em Vicarage Road, o time de David Pleat bateu o de Graham Taylor por 1 a 0, gol de Wayne Turner.

As duas semifinais da FA Cup

A vitória sobre o Watford fez parte de uma das duas boas campanhas do Luton na FA Cup no período. Nas temporadas 1984-85 e 1987-88, o clube esteve a um passo de repetir o feito de 1959, quando disputou a final da taça em Wembley (e perdeu para o Nottingham Forest). Mas a chance acabou desperdiçada em confrontos dramáticos pelas semifinais.

Na primeira campanha, os Hatters eliminaram Stoke (no replay), Huddersfield, Watford (após dois replays) e o Milwall, em jogo turbulento (veremos a seguir), antes de se deparar com o Everton, que cumpria uma temporada memorável, nas semifinais. Na época do jogo, 13 de abril, os Toffees estavam bem no meio de uma série de dez vitórias consecutivas que lhes dariam o título bem antecipado da liga. Além disso, dali a alguns dias receberiam (e venceriam) o Bayern de Munique no Goodison Park, classificando-se para a decisão da Recopa europeia.

Mas na partida disputada no campo neutro do Villa Park, quem saiu dando as cartas foi o Luton. Depois de dominar o primeiro tempo, abriria o placar aos 38 minutos, em chute de Ricky Hill, aproveitando um rebote mal afastado pela defesa. Na verdade, os Hatters estiveram a cinco minutos da final: aos 40 da segunda etapa, Kevin Sheedy, num chute rasteiro em cobrança de falta, empatou para os Toffees, levando a partida para a prorrogação. No tempo extra, a cinco minutos do fim, em outra cobrança de falta de Sheedy, a bola foi alçada para a área, e o zagueiro Derek Mountfield cabeceou para dar a vaga ao time de Merseyside.

O caminho para a segunda semifinal, em 1988, começou com uma vitória diante do Hartlepool fora de casa e passou por triunfos sobre Southampton, Queens Park Rangers (no replay) e Portsmouth, até chegar ao duelo com o Wimbledon, clube que vinha em ascensão meteórica das ligas amadoras até a elite (a qual disputava pelo segundo ano). No jogo disputado em White Hart Lane, o Luton outra vez sairia na frente, com gol do centroavante Mick Harford. Mas a Crazy Gang empataria com John Fashanu, convertendo pênalti, e viraria com um gol de carrinho de Dennis Wise.

O tumulto contra o Millwall e o banimento de torcedores visitantes

A partida entre Luton e Millwall pelas quartas de final da FA Cup, realizada em Kenilworth Road no dia 13 de março de 1985, entrou para a história do futebol inglês pelos piores motivos: os distúrbios provocados pelos hooligans visitantes, que entraram em confronto com os torcedores locais e com a polícia, deixando um rastro de destruição do centro da cidade até o estádio, desde horas antes do início do jogo, perceptível também em carros, casas e lojas das imediações, enfureceu autoridades e nomes ligados ao futebol. Em um ano particularmente turbulento dentro e fora dos estádios ingleses (e até europeus), aquele incidente levou a medidas extremadas por parte do Luton.

Naquele dia, cerca de dois mil torcedores do Millwall entraram no estádio arrombando portões de saída e destruindo as catracas. Durante o jogo, que terminou com vitória do Luton por 1 a 0, eles arrancaram sete mil assentos do setor dos visitantes, atiraram até mesmo uma faca no gramado e invadiram o campo por duas vezes, sendo contidos da primeira, mas não da segunda, dando início a um tumulto que deixou 47 feridos, em sua maioria policiais. Na volta para Londres, mais destruição nos trens, aumentando em mais algumas dezenas de milhares de libras no somatório dos prejuízos já causados na cidade da partida.

Foi a senha para que o presidente do Luton, David Evans, lançasse mão de uma solução polêmica, a qual já vinha anunciando há alguns meses. Evans, eleito presidente do clube em novembro do ano anterior, era também um líder político local filiado ao Partido Conservador e aspirante a parlamentar. Pouco depois de chegar à presidência dos Hatters, deu entrevista a uma emissora de rádio expondo algumas de suas ideias controversas: “A era do torcedor visitante está chegando ao fim. Eles passarão a ir ao estádio de seu próprio clube para assistir às partidas fora de casa em telões”, previa.

Evans era um defensor ardoroso do sistema de entrada por meio de cartões magnéticos, distribuídos apenas a torcedores cadastrados e de comprovada fidelidade ao clube, o que era uma maneira de controlar os adeptos do clube e, principalmente, restringir o acesso dos torcedores visitantes ao estádio – de preferência, bani-los total e definitivamente. Era o tipo de ideia defendida também pela primeira-ministra Margaret Thatcher. Com a aprovação das autoridades, o esquema começou a ser colocado em prática em agosto de 1986, após um trabalho de recenseamento e cadastro dos torcedores do Luton.

De fato, a segurança aumentou no estádio, já que apenas um número ínfimo, se tanto, de torcedores visitantes passou a se arriscar. Mas logo começaram os problemas. Antipatizados com o clube, os adeptos dos outros times passaram a hostilizar os visitantes do Luton em seus estádios. Além disso, com a torcida única, as receitas de bilheteria em Kenilworth Road diminuíram, e também surgiram comentários sobre a “falta de atmosfera” no estádio, sem o contraponto da torcida visitante.

Mas o dilema mais prático, que afetou mais diretamente o clube, partiu da Football League: o veto a torcedores de fora desrespeitava o regulamento da Copa da Liga, que obrigava os clubes a reservarem 25% dos ingressos em seus jogos em casa aos adversários. Como o clube, em princípio, não abriu mão de sua nova orientação, a entidade acabou por excluir o Luton do torneio enquanto a medida não fosse revertida. O clube tentou apelar judicialmente, mas perdeu. Na temporada seguinte, no entanto, o clube suspenderia parcialmente o veto, apenas para aquela competição, sendo prontamente reintegrado – o que seria decisivo para sua história, como veremos mais adiante.

Grama sintética em Kenilworth Road e o título da Guinness Soccer Six

Outra medida um tanto impopular aplicada pelo Luton por volta desta mesma época (precisamente a partir da temporada 1985/86) foi a substituição do gramado natural pelo piso sintético em Kenilworth Road. O clube foi o segundo na Football League a adotar a grama artificial em seu estádio, depois da experiência do Queens Park Rangers em Loftus Road de 1982 em diante. Mas, diferentemente do empregado no campo do clube londrino (basicamente um tapete de grama estendido sobre o chão de concreto com apenas um pouco de areia entre eles para amortecer), o tipo adotado pelos Hatters tinha estrutura mais complexa.

O piso, chamado Sporturf, tinha como base uma camada de brita sobreposta por outra de macadame betuminoso, que facilitava a drenagem. Só então vinha a camada de areia, coberta por uma base de borracha sintética com capacidade de absorção de impacto. Por cima de tudo, o gramado propriamente dito, feito de polipropileno. Embora fosse um piso bem mais macio e bem menos propenso a provocar lesões que o de Loftus Road, sofreu do mesmo modo com críticas dos times visitantes, especialmente no que dizia respeito a queimaduras provocadas pelo material e pelo quique fora do comum da bola.

O clube, entretanto, não deu ouvidos e manteve o piso até 1992, quando a Football League vetou de forma oficial a grama sintética no futebol inglês. Até lá, fez ótimas campanhas em casa na elite da liga, mantendo um aproveitamento de 60% dos pontos disputados (chegou a ser de 69% nas três primeiras temporadas). Um dos primeiros clubes a sofrer no piso artificial foi o Southampton, goleado por inapeláveis 7 a 0 em 19 de outubro de 1985. Mesmo na temporada em que acabaria rebaixado (1991-92), o Luton fez ótima campanha em seu estádio, registrando dez vitórias, sete empates e apenas quatro derrotas.

A experiência com o piso sintético também deve ter sido de grande valia cinco anos depois, na conquista de um torneio muito curioso: o Guinness Soccer Six. Tratava-se de um campeonato que transportava os times da primeira divisão para algo como uma mistura de futsal, indoor, soçaite e o que mais os leitores quiserem. Iniciado em 1982, era jogado em algum feriado bancário no mês de dezembro, quando o inverno rigoroso já começava a dar as caras, em um ginásio de Manchester, o G-Mex.

Os times contavam com um goleiro e cinco jogadores de linha (em sua maioria reservas, mas às vezes algum astro dava as caras) e atuavam em dois tempos de sete minutos e meio cada, numa quadra fechada de dimensões reduzidas, onde a bola não saía (exceto, é claro, se isolada por cima do gol ou para as laterais), e respeitando algumas regras próprias. Em todos os anos, o torneio teve cobertura ao vivo da BBC, atraindo cada vez mais o público a cada edição. A derradeira, de 1990, foi novamente disputada no G-Mex, entre 2 e 5 de dezembro e terminou com o Luton campeão.

Depois de empatar em 1 a 1 com o Tottenham e de superar Coventry, Derby, Charlton e Manchester United nas séries eliminatórias, o Luton enfrentou na decisão o Liverpool, que levava à quadra nomes como Jan Molby e Peter Beardsley, frente a um público de 5 mil pessoas, a lotação máxima do ginásio. Mesmo assim os Hatters não tomaram conhecimento e golearam por 4 a 0, gols de Sean Farrell, Lars Elstrup, Julian James e David Preece. Além do título, o Luton levou para casa um prêmio em dinheiro de £ 52 mil.

A grande temporada na liga em 1986-87

Ao contrário de Graham Taylor, treinador do rival Watford e fã do futebol ao velho estilo inglês de bola longa, David Pleat preferia o jogo de passes e toques curtos. Sendo assim, não foi surpresa quando, em maio de 1986, o mentor da ascensão do Luton foi anunciado como novo comandante do Tottenham, clube com longeva reputação de privilegiar o futebol mais técnico, de bola ao chão. Diante da saída de Pleat (que levou com ele para White Hart Lane o lateral-esquerdo Mitchell Thomas), os Hatters preferiram olhar para dentro do clube e apontaram o discreto auxiliar John Moore para o cargo vago.

Ex-zagueiro do clube nos anos 60 e 70, o escocês Moore acabaria levando o Luton a sua melhor campanha de todos os tempos na elite. Mantendo o esquema semelhante a um 4-3-3, também usado pelo treinador anterior, aquele time começava pelo goleiro Les Sealey. Na defesa, Tim Breacker continuava pela terceira temporada como o dono da lateral direita, enquanto do outro lado Rob Johnson se revezava com o irlandês Ashley Grimes (que também atuava como meia por aquele flanco). Já fixado na zaga, Mal Donaghy tinha a companhia de outro nome experiente: Steve Foster, ex-Brighton, que se celebrizou por usar uma faixinha na cabeça e que esteve na Copa de 1982 com a seleção inglesa.

No meio-campo, Ricky Hill seguia como o motor da equipe, ao lado do galês Peter Nicholas, ex-Arsenal e Crystal Palace. Em tese, o terceiro homem do setor seria David Preece, mas o armador (que ficaria no clube até 1995, tendo atuado quase 400 vezes com a camisa dos Hatters) sofreu com lesões durante boa parte da temporada. Assim, alguns nomes, como Robert Wilson e o já citado Ashley Grimes apareciam em seu lugar. Na frente, o tridente ofensivo começava com Brian Stein, atuando mais recuado, ajudando a municiar os dois jogadores mais agudos, mas também chegando para concluir (marcaria 12 gols em 38 jogos).

Um dos dois centroavantes era Mike Newell, formado na base do Liverpool, mas sem nunca ter tido chance em Merseyside. Apesar de ser o artilheiro da equipe naquela campanha (junto com Brian Stein), ficou no Luton pouco mais de uma temporada, saindo para o Leicester. Jogaria ainda no Everton e no Blackburn, integrando o time dos Rovers que venceu a Premier League em 1995. Seu companheiro de frente era Mick Harford, goleador do time nas duas temporadas anteriores e que chegaria à seleção inglesa em 1988, mas que naquela temporada também sofreu com lesões, ou Mark Stein, atacante ágil e esperto, irmão mais novo de Brian e agora já plenamente integrado ao elenco.

Mesmo sem a Copa da Liga para disputar em paralelo, o começo da campanha foi um tanto irregular, com três vitórias (contra Southampton e Manchester City em casa e Chelsea fora), cinco empates (quatro deles em 0 a 0) e três derrotas (todas como visitante). Em 25 de outubro de 1986, porém, teria início uma sequência de quatro triunfos importantes. O primeiro deles, diante do poderoso Liverpool, vencedor da dobradinha na temporada anterior. Os Hatters haviam marcado apenas um gol (o da vitória sobre os Citizens) nas últimas seis partidas, mas decidiram descarregar sua munição contra os Reds, com Mike Newell em estado de graça diante de seu antigo clube da base.

O atacante marcou duas vezes no primeiro tempo, com Ricky Hill se aproveitando de uma pixotada de Grobbelaar para fechar o marcador parcial em 3 a 0. Na etapa final, Newell completou seu hat-trick aproveitando o rebote de uma bola no travessão, enquanto Jan Molby, de pênalti, faria o gol de honra dos Reds (4 a 1) perto do fim do jogo.  Os Hatters também marcariam quatro vezes na última vitória da série, diante do Nottingham Forest de Brian Clough, com destaque para os irmãos Stein: Mark anotou dois e Brian, um, com o zagueirão Steve Foster completando a vitória por 4 a 2. No fim de novembro, o time pularia para a quinta posição ao bater o Charlton por 1 a 0.

No mês seguinte, o time venceria o futuro campeão Everton por 1 a 0, mas sofreria a primeira de suas únicas derrotas em casa na liga no derby contra o Watford (2 a 0) no Boxing Day. Dois dias depois, um empate com o Nottingham Forest no City Ground (2 a 2) marcaria o início da recuperação: os Hatters atravessariam invictos os meses de janeiro e fevereiro, vencendo cinco jogos e empatando dois. No meio deste período, também registrariam outra vitória categórica diante do Liverpool, agora pela FA Cup: 3 a 0, com um belo gol de falta de Brian Stein, um de pênalti de Mick Harford e o terceiro de Mike Newell.

A partir de março, no entanto, o time voltou a oscilar, enfileirando sequências “vitória-empate-derrota” quase automáticas. Mas ainda naquele mês, ao registrar vitórias importantes em casa sobre o Manchester United e o Tottenham, ainda se mantinha numa surpreendente terceira posição, brigando palmo a palmo pelo título com Liverpool e Everton. Em meados de abril, em meio à oscilação, a equipe já havia sido ultrapassada pelos Spurs, mas se mantinha numa respeitável quarta posição.

A sequência final, entretanto, derrubaria ainda mais a colocação dos Hatters: foram três derrotas (uma delas, a segunda em casa em toda a temporada, diante do Oxford), um empate e apenas uma vitória nos cinco últimos jogos. Antes da última rodada, em 9 de maio, o Luton já ocupava a quinta posição, também atrás do Arsenal. Com a derrota para o Everton, coroado campeão da liga, e as vitórias de Norwich e Wimbledon, o time terminaria na sétima colocação. Frustrante pelo que foi a campanha, mas ainda assim ótima pelo tamanho do clube, afinal representava a melhor posição de sua história na elite.

O título da Copa da Liga em 1988 (e o vice no ano seguinte)

Na temporada seguinte, agora dirigido por Ray Harford (John Moore não quis continuar no cargo), o Luton faria muito bom proveito em seu retorno à Copa da Liga com o fim da suspensão. Na edição de 1987-88, estrearia batendo com facilidade o Wigan em dois jogos (vitórias por 1 a 0 fora e 4 a 2 em casa). Na etapa seguinte, eliminaria o Coventry, vencedor da FA Cup no ano anterior, com um 3 a 1. Na quarta fase, o triunfo viria fora de casa, diante do Ipswich (1 a 0). E na virada do ano, pelas quartas de final, outra classificação tranquila com um 2 a 0 sobre o Bradford.

Na semifinal, em dois jogos, o adversário seria o Oxford United, vencedor do mesmo torneio dois anos antes, e que vinha de derrubar o Manchester United na etapa anterior (depois de já ter deixado pelo caminho o Leicester e o Wimbledon). Quatro dias antes do jogo de ida, os dois clubes também se enfrentaram pela liga, num jogo que terminou com o bizarro placar de 7 a 4 para o Luton. Na Copa da Liga, os gols saíram em menor quantidade, mas os Hatters também levaram a melhor: 1 a 1 no Manor Ground e vitória por 2 a 0 em Kenilworth Road, que valeram a ida a Wembley.

Na final, repetindo a sina de encarar um recente vencedor de copa, o Luton teria pela frente nada menos que o Arsenal, atual campeão do torneio, depois de vencer o Liverpool por 2 a 1 no ano anterior. Vindos de eliminar o Everton com duas vitórias na semifinal, os Gunners eram francos favoritos a reter a posse do troféu na tarde de 24 de abril de 1988 em Wembley. Mas os Hatters não queriam ser apenas os figurantes, e também desejavam fazer melhor papel do que haviam cumprido um mês antes, no mesmo palco, quando foram goleados pelo Reading por 4 a 1 na final da Full Members’ Cup, um torneio caça-níqueis.

Assim, com uma formação ofensiva, o Luton apertou desde o começo e foi recompensado com a abertura do placar aos 13 minutos. Após uma falta de Paul Davis em Kingsley Black na meia esquerda, David Preece fez o lançamento para a área e a defesa dos Gunners cortou mal. Na rebatida, o zagueirão Steve Foster fez um passe à frente para Brian Stein emendar de primeira, vencendo o goleiro John Lukic. A partir daí, começou a se destacar o galês Andy Dibble, substituto do titular Les Sealey no gol do Luton naquela final.

No segundo tempo, o Luton voltou a levar perigo numa cabeçada de Brian Stein, defendida de modo espetacular por Lukic e depois numa arrancada de Mark Stein pela ponta direita, driblando Kenny Sansom e chutando por cima, depois de ficar cara a cara com o arqueiro dos Gunners. Mas o Arsenal acabou empatando aos 26 minutos, numa jogada semelhante ao gol do Luton: cobrança de falta alçada para a área, confusão, bola rebatida e a sobra ficando com Martin Hayes, que tocou para as redes. Três minutos depois, a virada: Michael Thomas recuperou uma bola na intermediária do Luton e deu belo passe a Alan Smith, que invadiu e chutou sem chances para Dibble.

O Arsenal criou chances para matar o jogo, entre elas uma finalização no travessão seguida por outra na trave. Mas nenhuma mais clara do que o pênalti de Mal Donaghy em David Rocastle, depois que o meia entrara costurando a defesa dos Hatters pelo bico direito da área. O lateral Nigel Winterburn, entretanto, viu sua cobrança ser espalmada para escanteio por Dibble. A defesa levantou de novo o moral de um Luton antes entregue. E o empate inacreditável viria aos 37 minutos.

Kingsley Black apanhou a sobra de uma pixotada do zagueiro Gus Caesar, do Arsenal, e desceu pelo lado esquerdo da área até a linha de fundo. Driblou Winterburn e cruzou para trás, para o chute de Brian Stein, que parou em Lukic. Porém a bola voltou para o atacante, que fez outro cruzamento. O meia Danny Wilson, quase se abaixando, tocou de cabeça para o gol vazio. No último minuto, a segunda virada do jogo: o irlandês Ashley Grimes apanhou uma sobra pela ponta direita, passou por Sansom e cruzou para Brian Stein marcar, batendo de primeira, seu segundo gol na final. O gol do título. Na comemoração, após o apito final, a imagem mais marcante foi o abraço dos irmãos Brian e Mark Stein, fundamentais na conquista.

Infelizmente, o banimento dos clubes ingleses que vinha desde os incidentes de Heysel, em 1985, tirou do Luton a chance de estrear nos torneios continentais disputando a Copa da Uefa – competição para a qual era destinada há vários anos uma vaga ao vencedor da Copa da Liga inglesa. Os Hatters ainda voltariam à decisão da mesma taça no ano seguinte, após deixarem pelo caminho Burnley, Leeds, Manchester City, Southampton e West Ham. Desta vez, o adversário foi um renovado Nottingham Forest, ainda dirigido por Brian Clough, que venceu por 3 a 1 de virada e faturou o troféu.

Após TRÊS salvações seguidas na última rodada, a queda em 1992

Após três temporadas terminando na metade de cima da tabela (o sétimo lugar em 1986-87 ficou no meio de duas nonas colocações), o Luton precisou empreender mais uma grande escapada em 1988-89, nos moldes da que realizara em 1983, para se salvar do rebaixamento. Mesmo vencendo o Derby County por 3 a 0 em 29 de abril, terminava aquele mês na zona da degola, três pontos atrás do Sheffield Wednesday, o primeiro a respirar, mas em meio a uma briga acirrada entre oito candidatos à queda.

Os dois primeiros de seus três últimos jogos seriam confrontos diretos. No primeiro, uma goleada de 5 a 2 sobre o Charlton em casa deu um impulso aos Hatters na briga, mas o seguinte – derrota para o West Ham por 1 a 0 em Upton Park – trouxe de volta a esperança aos Hammers, que em virtude de vários adiamentos tinha ainda outros quatro jogos por fazer, contra apenas um do Luton. Mas a combinação de resultados e a existência de outros confrontos diretos na briga ajudaram o time de Ray Harford a se salvar na última partida, ao bater o Norwich em casa por 1 a 0, gol de pênalti de Danny Wilson.

Na temporada seguinte, a situação a ser revertida era ainda mais complicada: a três rodadas do fim, o Luton somava 34 pontos e era o antepenúltimo colocado, dentro da zona da degola, à frente apenas dos já condenados Charlton e Millwall e seis pontos atrás do Sheffield Wednesday, de novo o primeiro acima. Vinha de derrota por 3 a 0 para o Nottingham Forest no City Ground e não nutria muitas esperanças de salvação, embora tivesse pela frente dois jogos consecutivos em casa, contra Arsenal e Crystal Palace.

Mas em 21 de abril, uma vitória por 2 a 0 sobre os Gunners, aliada à derrota do Wednesday em Londres para o Queens Park Rangers reduziu a diferença entre os dois candidatos ao descenso para três pontos. Uma semana depois, o Luton bateu o Palace por 1 a 0, gol do centroavante norte-irlandês Iain Dowie, mas a desvantagem se manteve, já que os Owls derrotaram Charlton fora de casa por 2 a 1. A decisão ficaria mesmo para a última rodada.

Naquele 5 de maio de 1990, o Sheffield Wednesday era o amplo favorito à permanência: jogava em casa contra o Nottingham Forest e dependia de um empate, enquanto o Luton viajaria para enfrentar o Derby County precisando vencer, coisa que só havia conseguido longe de seus domínios uma única vez em toda a temporada. O milagre parecia se desenhar quando os Hatters abriram 2 a 0 com gols de Tim Breacker e Kingsley Black e, enquanto isso, Stuart Pearce marcava o primeiro do Forest em Hillsborough. Mas antes do intervalo, o Derby já havia empatado no Baseball Ground.

No começo da etapa final, após o Wednesday desperdiçar quase uma dezena de chances, o Forest ampliou, com Stuart Pearce marcando seu segundo gol. A 15 minutos do fim, quando mesmo diante da derrota do adversário o Luton não parecia capaz de reagir novamente, veio o segundo gol de Kingsley Black, chutando da meia-lua após um rebote da defesa do Derby. Quase no mesmo instante, viria o golpe de misericórdia em Hillsborough, com o terceiro gol do Forest. Os resultados garantiam a permanência do Luton por uma diferença de apenas dois gols no desempate pelo saldo, rebaixando os Owls.

Já em 1990-91, o Luton vinha fazendo uma campanha discreta, porém confortável, até acumular uma sequência de péssimos resultados a partir de março. Depois de bater o Aston Villa fora no dia 9, ficou nove jogos sem vencer, com sete derrotas e dois empates. Assim, chegou à última rodada ameaçado, empatado em pontos com o Sunderland, penúltimo colocado (naquele ano, dois cairiam). O Derby County, lanterna e já rebaixado, seria de novo o derradeiro adversário dos Hatters, desta vez em Kenilworth Road.

A quatro minutos do fim do primeiro tempo, o Luton abriria o placar de um modo inusitado: através de um gol contra (proposital, diriam alguns) do centroavante Mick Harford, antigo ídolo dos Hatters, numa cabeçada após cobrança de falta na área. Na etapa final, o dinamarquês Lars Elstrup (contratado em agosto de 1989 e artilheiro da equipe naquela temporada, com 18 gols) ampliaria também de cabeça, selando a permanência enquanto o Sunderland era rebaixado ao perder fora de casa para o Manchester City.

Mick Harford retornaria a Kenilworth Road na temporada seguinte, assim como o técnico David Pleat (no lugar de Jimmy Ryan) e o atacante Brian Stein (voltando após três anos na França). A intenção de reviver os bons tempos após duas brigas sucessivas contra a degola, no entanto, falhou miseravelmente. Especialmente após a saída de Lars Elstrup, que pediu para regressar à Dinamarca, e de Kingsley Black, que seguiu para o Nottingham Forest já com a temporada iniciada.

A primeira metade da campanha foi particularmente desastrosa: até a derrota para o Leeds em Kenilworth Road no dia 7 de dezembro de 1991, a equipe havia sido derrotada em 11 de seus 19 jogos e vencido apenas dois (Southampton e Oldham, ambos em casa). Só balançara as redes em seu quinto jogo e sofrera goleadas em mais da metade dos jogos como visitante (terminaria por ter a defesa mais vazada do campeonato). Durante aquele mês, no entanto, ensaiaria uma reação, vencendo em casa o Coventry, o Arsenal (na rodada de Boxing Day), e o Chelsea (dois dias depois).

Após um mês de janeiro tão ruim quanto os primeiros, o time começou a demonstrar um pouco mais de consistência a partir de fevereiro. Entre o triunfo sobre o Norwich, no dia 8, e o contra o Aston Villa na penúltima rodada, em 25 de abril, a equipe acumulou exatas cinco vitórias, cinco empates e cinco derrotas e já via uma luz no fim do túnel. Chegou à última partida na antepenúltima posição, com 42 pontos, dois atrás do Coventry e três do Norwich. Mais abaixo, Notts County e West Ham já tinham a queda confirmada.

Os três que ainda brigavam contra a queda jogariam fora de casa na rodada decisiva. Mas o papel do Luton – vencer o frágil e condenado Notts County – era considerado o mais acessível. Coventry e Norwich, por sua vez, visitariam o Aston Villa e o campeão Leeds, respectivamente. Os adversários “fizeram sua parte” e perderam. Já o Luton viu a possibilidade de uma nova história de escapada dramática começar a ser escrita aos 17 minutos, quando o lateral Julian James abriu o placar após confusão na área. Mas o time da casa reagiu, empatou ainda na primeira etapa e virou o placar no segundo tempo.

A tarde de 2 de maio de 1992 marcaria o fim de uma era para os Hatters, agora fora da elite inglesa depois de dez memoráveis anos. Tristemente, o clube perderia seu status de equipe da primeira divisão logo às vésperas da grande revolução ocorrida com a criação da Premier League. Daí em diante, o Luton seguiu ladeira abaixo: cairia para a terceira divisão em 1996 e para a quarta por uma temporada, a de 2001-02. Ainda faria parte do caminho de volta, chegando à Championship em 2005.

Mas a queda que se seguiu foi ainda mais arrasadora. Em meio a administrações desastrosas e à retirada de 30 pontos pela liga por irregularidades financeiras, entre 2007 e 2009 o clube desceria da segundona até a non-league, depois de 89 anos consecutivos como parte da Football League. O calvário na categoria abaixo da League Two durou cinco anos. Em 2014, o clube enfim retornou à quarta divisão, e desde então vem tentando se reerguer e fazer o trajeto de volta à elite, na esperança de brilhar, ou de pelo menos incomodar, como foi sua rotina naquele decênio inesquecível para seus torcedores.