Não há rivalidade regional maior na França do que o chamado “derby rhônalpin”. Saint-Étienne e Lyon sustentam uma das maiores rixas da Europa Central, alimentada por duas torcidas extremamente passionais e uma série de episódios conflituosos. As provocações e as brigas são um tanto comuns. Mas não no nível do que aconteceu neste domingo, no Estádio Geoffroy Guichard, casa dos alviverdes. O Lyon ia massacrando os seus rivais. Capitão pela primeira vez no clássico, Nabil Fekir protagonizava a sua equipe e liderava o potente ataque. Aos 39 do segundo tempo, anotou o seu segundo gol, que ratificou a goleada por 5 a 0. Resolveu mostrar sua camisa à torcida. E viu o caos tomar o gramado, com vários torcedores raivosos do Saint-Étienne invadindo o campo. A partida precisou ser paralisada e, depois de 40 minutos, com as arquibancadas vazias, os minutos finais aconteceram.

As expectativas para o clássico eram bastante altas desde os dias anteriores, com as duas torcidas cobrando o resultado. Contudo, o ótimo momento do Lyon preponderou. Não demorou para que os Gones abrissem vantagem, anotando dois gols antes dos 25 minutos do primeiro tempo. Memphis Depay abriu o placar ao chutar por entre as pernas do marcador, após bom passe de Houssem Aouar. Já o segundo veio com Fekir, que dominou na intermediária, avançou com liberdade até a entrada da área e bateu cruzado.

A situação do Saint-Étienne piorou logo aos dois minutos da segunda etapa, por pura falta de controle, quando Léo Lacroix deu um carrinho criminoso em Fekir na lateral e recebeu o vermelho direto. O caminho para a goleada se abriu. Mariano anotou o terceiro aos 13, em jogada que nasceu em uma bola primorosa de Aouar. Em contra-ataque, Bertrand Traoré fez o quarto aos 19. E o Lyon diminuiria o ritmo até fechar a conta aos 39, em enfiada de Mariano Díaz para Fekir, que, de frente para o gol, não teve dificuldades para marcar. O capitão tirou a braçadeira e, na sequência, a camisa, exibindo o número 18 tal qual Lionel Messi no Barça x Real.

Quando Fekir ainda mostrava seu uniforme, os torcedores do Saint-Étienne já tentavam invadir o campo no setor mais próximo, contidos pelos stewards. E quando os jogadores do Lyon retornavam para o círculo central, precisaram correr diretamente aos vestiários, já que o pandemônio vinha do outro lado, onde ficam os ultras. A maioria dos atletas do Saint-Étienne também correu para se proteger nos corredores. A polícia entrou em cena com escudos, contendo os mais exaltados. Então, decidiu-se que as arquibancadas seriam esvaziadas para que os últimos cinco minutos fossem retomados, evitando a reagendamento dos instantes finais.

Depois de cerca de 40 minutos de espera, os dois times voltaram a campo. E sem Fekir, substituído pelo técnico Bruno Génésio. O capitão, que recebeu o cartão amarelo por tirar a camisa, sequer ficou no banco de reservas. Não havia qualquer clima para futebol naquele momento e, depois de cinco minutos protocolares, o árbitro resolveu soar o apito final cinquenta segundos antes que o relógio da transmissão completasse os 45 regulamentares.

Após a partida, Génésio lamentou a postura de Fekir, embora o presidente Jean-Michel Aulas tenha chamado o atacante de herói em suas redes sociais. Fekir, por sua vez, não mostrou sinais de arrependimento.  “Eu comemorei meu gol sem malícia, sem segundas intenções. Talvez fosse um gesto a não se fazer. Estava 5 a 0, mas o placar faz parte do futebol. Isso jogou um pouco de pimenta também. Se eu devo me desculpar? Não, eu não me arrependo pela comemoração”, declarou. Ficará marcado, pelo bem e pelo mal, por aquilo que fez. Será parte inerente da história do dérbi. Mas também precisará lidar com as consequências.

Esta foi a maior goleada do Lyon na história do clássico, e a maior do confronto desde os 6 a 0 do Saint-Étienne em 1970. Os Gones pegam embalo na Ligue 1. A equipe soma a quarta vitória consecutiva e aparece na terceira colocação, a sete pontos do Paris Saint-Germain. Fekir, também pela bola, é um dos grandes responsáveis pela ótima fase. Já o Saint-Étienne estaciona na sexta posição, sete pontos atrás dos rivais, com apenas uma vitória nas últimas seis rodadas. E com uma dor de cabeça daquelas.