Para quem é brasileiro é difícil de entender. Nós somos pentacampeões, temos o maior (ou segundo maior, tanto faz) jogador da história do futebol mundial, tivemos craques, grandes equipes, lembranças fantásticas…

Agora imagine o Chile…

O Chile teve grandes jogadores, mas nenhum inquestionável. Teve times razoáveis. Em 1962 ficou em terceiro na Copa do Mundo que organizou. Nunca venceu uma Copa América. Tem uma Libertadores e uma Sul-Americana para se gabar em nível de clubes e pouco mais que isso…

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Em 1989 o Chile que tinha pouco passou a ter vergonha. Na partida contra o Brasil no Maracanã o goleiro Rojas fingiu que foi acertado por um rojão e caiu. Com ele caiu também todo o parco orgulho que o Chile poderia ter de seu futebol.

A vergonha chilena ficou aço mesmo depois de 1998, quando La Roja foi à Copa e perdeu para o Brasil nas oitavas. Apesar daquela classificação a seleção seguia sem saber ao certo o que era e o que podia fazer. Os chilenos eram o quê afinal de contas? Raçudos como uruguaios? Habilidosos como brasileiros? Técnicos e vibrantes como os argentinos? Pragmáticos como a escola britânica? Irresponsáveis como os colombianos? Time de toque? Time de posse? Time de defesa? Ataque? Nenhum? Algum?

Demorou muito para esse cenário ser alterado, mas ele começou a mudar em 2007. Naquele ano Marcelo Bielsa decidiu sair do exílio que havia se imposto desde 2004 para assumir a seleção nacional chilena. Era um também envergonhado Marcelo Bielsa que em 2002 sequer passou da fase de grupos com um dos melhores times que a Argentina já teve.

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Com métodos e resultados contestáveis Bielsa aos poucos mudou a seleção dentro, mas principalmente fora de campo. A identididade do futebol chileno enfim foi construída. O Chile virou altivo. Um time intenso, rápido, que quer ter a bola sempre. Que não dá chutão e que encara quem quer que seja de peito aberto sem abrir mão de suas convicções.

Bielsa levou o time às oitavas de final na Copa de 2010.

Quatro anos depois Sampaoli, admirador confesso de El Loco, conseguiu ainda mais. Com a filosofia chilena se impôs contra a atual campeã mundial, deu uma aula de futebol e conseguiu a maior vitória da história de La Roja.

O Maracanã da vergonha de 1989 é agora o Maracanã do orgulho chileno.