Depois dos 4 a 0 no jogo de ida, ninguém esperava que o Basel produzisse um milagre na casa do Manchester City. Nem o próprio clube inglês. Tanto que Pep Guardiola colocou alguns reservas em campo, em um jogo que teve uma rotação baixa. Aqueles que parecem treino. Diante desse cenário, o Basel não jogou pela classificação, mas sim pela história. E arrancou uma vitória diante do City, de virada, por 2 a 1, para alegria dos seus fanáticos torcedores presentes no Etihad.

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O início do jogo deu aquela sensação que o jogo seria de um lado só. Em uma típica troca de passes, a bola rodou por Sané e Bernardo Silvaa, que cruzou rasteiro para a segunda trave. Ali estava Gabriel Jesus, bem posicionado, para marcar quase embaixo da trave. Um gol recorrente na carreira do brasileiro, que tem muito mérito em se posicionar sempre bem em um time que cria muitas chances em passes trocados. Eram oito minutos do primeiro tempo.

Esta, porém, foi a única comemoração que a torcida do Manchester City pôde fazer na partida. Depois, o time parecia preguiçoso. Trocava passes continuamente, mas pouco interessado no jogo. Os 4 a 0 a favor na ida, claro, tinham um peso. O Basel tinha apenas uma motivação: tentar causar algum impacto para dar alegrias aos cerca de 1.500 torcedores presentes ao estádio Etihad. E conseguiu.

Aos 16 minutos, o Manchester City bobeou na marcação e o Basel tratou de fazer o seu. Jogada pelo lado esquerdo que Blás RIveros avançou, sem uma marcação muito forte, chutou cruzado, desviando a bola e sobrou no meio. Elyounoussi aproveitou e marcou, em um chute forte. O gol não incendiou o jogo, nem poderia, mas também não acordou o Manchester City. Embora o jogo fosse à noite, parecia ser um momento do chá na Inglaterra. Tranquilamente, o jogo se desenrolava, com o tempo passava.

O fim do primeiro tempo foi quase um alívio para quem assistia. O segundo tempo veio tão chato quanto o primeiro. O Basel até tentava fazer alguma coisa, mas o Manchester City usava a sua estratégia mais defensiva: a posse de bola. Tanto que terminou em 77,7%, com 1058 passes trocados ao longo do jogo.

A questão era em que setor do campo esses passes eram feitos e por quem. O jogador que mais fez passes foi Aymeric Laporte, zagueiro, com 167 passes, seguido por John Stones (163), Danilo (143), Zinchenko (136) e, fechando os cinco primeiros, Yayá Touré (119). Este último, aliás, teve um jogo bem fraco. Se o jogo serviu para alguma coisa para Guardiola foi para ver que alguns dos reservas não estão perto do nível dos titulares. Danilo foi outro que não impressionou, para quem busca um lugar no time.

O segundo gol do Basel saiu em um ataque eventual do Basel. Elyounoussi pegou uma bola no lado direito do ataque, girou em cima da marcação de Touré e achou Lang na área. O ala direito encheu o pé, pegando Bravo de surpresa: 2 a 1 para os suíços.

Assim como no primeiro tempo, o gol não mudou muito o panorama do jogo. Muitos passes de lado, posse de bola totalmente improdutiva do Manchester City. Nenhum time na Champions League até agora completou 1074 passes. Foi um banho de passes, mas o próprio Pep Guardiola assumiu depois do jogo que foram “passes pelos passes” e que “quando isso acontece, não é futebol”. O time pareceu gastar o tempo até o final. Ninguém lamentará muito o resultado, no final. Mas o time jogou realmente muito pouco.

“A partir de amanhã, nós estaremos felizes por estarmos nas quartas de final pela segunda vez neste clube. Nós estamos nessa posição. No segundo tempo, nós esquecemos de atacar. Você tem que passar a bola para o ataque. Passar por passar não é nada”, criticou o técnico do Manchester City. “Não é fácil jogar depois de um 4 a 0. Nós tentamos, falamos sobre isso. Nós criamos muitas chances quando estava 1 a 0 e nós fomos bem. Depois do 1 a 1, a melhor forma de criar era a construção de jogadas. Nós apenas passamos a bola para nós mesmos e isso não é futebol”, analisou Guardiola, na coletiva após o jogo.

No lado do Basel, a avaliação foi de uma saída honrosa depois do desastre do primeiro jogo. Desde a imprensa, passando pela torcida e os jogadores e técnico, todos saíram de campo felizes com o que conseguiram. Foi a primeira derrota do Manchester City em casa em 36 jogos. A última vez tinha sido em dezembro de 2016. “Você não vence o Manchester City todos os dias”, declarou Fabian Frei, logo após o jogo.

“Nós sempre tivemos espaços, mas fomos um pouco afobados demais”, disse o técnico do Basel, Raphaël Wicky. “Ninguém pode tirar isso de mim. Quando eu tiver filhos, eu poderei explicar isso para eles”, continuou. “Nós podemos ficar orgulhosos do nosso desempenho hoje. Eu espero que esse jogo nos dá uma auto-confiança adicional para os desafios à frente”.

Um dos pontos mais destacados pelos jogadores foi a torcida. Muito presente no Etihad, as 1.500 vozes no estádio fizeram barulho durante todo o jogo, se fazendo presente e festejando, mesmo sabendo que seu time não reverteria o resultado do jogo de volta. Não importava. Valia a festa. E ganharam uma vitória inesperada de presente.

“Onde quer que a gente vá, eles são muito fortes. Nos sentimos quase como se estivéssemos jogando em casa hoje. Nós temos essa incrível torcida nos apoiando toda vez que jogamos”, disse Elyounoussi, autor do primeiro gol e que deu o passe para o segundo. “Eu tento ir a campo e aproveitar o jogo, ajudar o time o quanto for possível. Hoje foi um bom jogo para mim e eu estou muito feliz por isso”, disse. “Todo mundo sabe que o City vai ter muito a bola, especialmente em casa. Nossos principais objetivos eram ir a campo e aproveitar. Tentar criar chances e jogar o nosso jogo. Quando nós estivemos calmos com a bola, nós criamos chances e poderíamos ter marcado outro gol”.

No frigir dos ovos, o Manchester City se classifica e o único dano foi perder a invencibilidade jogando em casa nesta temporada. O time só tinha perdido duas vezes até então: para o Shakhtar Donetsk, na última rodada da fase de grupos; e para o Liverpool, na Premier League. Soma mais uma, a menos importante das três.

Avança para as quartas de final, algo já superior ao que fez na temporada passada, embora ainda pouco para a ambição que o clube tem, que é de levantar a taça. A partir de agora, tudo indica que os adversários serão mais pesados. Talvez até com um confronto caseiro, com outro inglês.

Ficha técnica

Manchester City 1×2 Basel

Local: Etihad Stadium, em Manchester (ING)
Árbitro: Pavel Královec (TCH)
Gols:
Gabriel Jesus aos 8’/1T (Manchester City), Elyounoussi aos 16’/1T e Lang aos 26’/2T (Basel)
Cartões amarelos:
Gabriel Jesus (Manchester City), Leo Lacroix (Basel)
Cartões vermelhos:
nenhum

Manchester City

Claudio Bravo; Danilo, John Stones, Aymeric Laporte e Oleksandr Zinchenko; Ilkay Gündogan (Brahim Diaz aos 21’/2T), Yayá Touré e Phil Foden (Tosin Adarabioyo aos 44’/2T); Berbardo Silva, Gabriel Jesus e Leroy Sané. Técnico: Pep Guardiola

Basel

Tomás Vaclik; Marek Suchy, Fabian Frei e Léo Lacroix; Michael Lang, Geoffroy Dié, Luca Zuffi e Blás Riveros; Valentin Stocker (Kevin Bua aos 23’/2T) e Mohamed Elyounoussi; Ricky van Wolfswinkel (Dimitri Oberlin aos 29’/2T). Técnico: Raphaël Wicky