O Cristo Redentor com o estádio do Maracanã ao fundo (AP Photo/Felipe Dana)

Maracanã mudou, mas a reverência ao templo do futebol continua a mesma

Templo do futebol. Não tem jeito melhor nem mais corriqueiro para descrever o palco da final da Copa do Mundo. O Estádio do Maracanã, ao longo de seus 64 anos de idade, um idoso se vivesse de acordo com as leis humanas, virou um personagem. Seu nome ecoa no imaginário dos apaixonados por futebol, como o de Pelé, Garrincha, Tostão e outros antigos símbolos do futebol brasileiro. Embora de cara nova, reformado tantas vezes que perdeu um pouco da identidade, a reverência continua a mesma.

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O Maracanã foi construído para a Copa do Mundo de 1950 e recebeu, segundo a lenda, 200 mil pessoas que viram o gol de Ghiggia quebrar o espírito do futebol brasileiro. Ganhou ainda mais importância com os shows do Santos de Pelé e do Flamengo de Zico. E foi eternizado pela crônica esportiva carioca, de Nelson Rodrigues e Armando Nogueira, por exemplo, pródigos em metáforas e em acrescentar romantismo ao futebol.

O povo do Rio de Janeiro tem um privilégio que nem sempre valoriza. Tem mais oportunidades do que qualquer outro de acordar em uma manhã de domingo e ver um jogo de futebol no Maracanã. Uma chance de participar dessa história pela qual muitos esvaziariam a poupança. Como Ronald Bardick, alemão de Berlim, tão apaixonado por estádios – e em especial pelo Maracanã – que usa o nome como apelido na internet. Nasceu no ano do primeiro título mundial da Alemanha, era um jovem de 20 anos no segundo e um adulto no terceiro. Nunca imaginou que a possibilidade do tetracampeonato viria justamente no seu campo favorito. “É o melhor lugar do mundo para ser campeão”, afirma.

Uma sensação muito poderosa é sentar à janela do metrô e de repente avistar no horizonte toda a grandeza do Estádio Mario Filho. Acontece também em Londres, no caminho que leva ao Wembley, talvez o único palco que rivalize com o brasileiro quando o assunto é mística. Paul Murphy, morador da capital inglesa, não pronuncia uma frase sobre o Maracanã sem mencionar Wembley. A insistência era tamanha que a pergunta foi inevitável: qual a diferença? “Wembley é um pouco maior, a entrada é mais fácil, o acesso também, tem mais trens”, explica, patriota, orgulhoso, querendo dizer que é melhor em tudo, mas sem usar essas palavras.

O estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro (AP Photo/Felipe Dana)

O estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro (AP Photo/Felipe Dana)

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O Maracanã não tem mais a capacidade exagerada para uma ou duas centenas de milhares de pessoas. Foi diminuindo a cada reforma, e a lógica é muito simples: para sustentar uma arena moderna, o preço dos ingressos subiu. O futebol do Rio de Janeiro ganhou a tal estrutura padrão Fifa. E perdeu o povo, sem condições de arcar com o custo elevado. “Você vai me perguntar: eu preferia vir com 150 mil pessoas e ficar todo apertado? Sim, preferia”, admite Sidnei Magaldi, 58 anos, flamenguista de carteirinha, antes de garantir que a sua história se mistura com a do estádio, afirmação que deve ser repetida por todos os cariocas que cresceram na geral do Maracanã.

Ele nem sempre foi carinhoso com o povo brasileiro. Recebeu, afinal de contas, a maior decepção futebolística do país, pode ser palco do título da principal rival e sequer viu o Brasil na Copa do Mundo de 2014. Não por culpa dele, mas de quem apostou que a Seleção Brasileira chegaria à final e não viu por que garantir um jogo dela no Maracanã antes disso. O palmeirense Edson Pera, de 55 anos, viu o time nacional pelas Eliminatórias da Copa de 1990 e vê a relação do estádio com o futebol brasileiro enfraquecida pela campanha dos comandados de Felipão no torneio que termina neste domingo. “Antes, não tinha essa internacionalização toda. Agora, temos que escolher para quem torcer. Na nossa própria casa!”, enfatiza. “O estádio não é mais para a seleção brasileira. Agora é para o mundo”.

Não necessariamente isso é algo para lamentar. O Maracanã continuará sendo a grande casa do futebol brasileiro. Está apenas emprestada para os estrangeiros e por que eles não deveriam ter a chance de acordar na manhã de um domingo, ir ao Maracanã, torcer para o time pelo qual são fãs, mas sem os foguetes e bandeiras, como versa a música. Porque o estádio mudou, está diferente e realmente perdeu um pouco da mística. O lado bom é que todas as alegrias e lágrimas que presenciou não foram destruídas. Não vivem no concreto, mas na memória dos torcedores. Este domingo é dia de argentinos e alemães construírem as suas.

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