Com colaboração de Leandro Stein e Pedro Venancio

Se a primeira rodada fosse no fim de semana que vem, o Campeonato Brasileiro começaria sem Vanderlei Luxemburgo, pentacampeão do torneio. Também não teria os cabelos brancos de Émerson Leão, nem o carisma de Joel Santana. Todos estão desempregados. Em um meio em que sempre se acha que os nomes são sempres os mesmos e há pouca renovação, a velha geração de treinadores tem mais dificuldade de se manter, e um grupo de jovens (alguns com idade que normalmente seriam comuns apenas para assistentes ou técnicos de categoria de base) começam assumir o comando das equipes.

Sete dos 21 clubes que, de uma forma ou outra, têm direito a um lugar na primeira divisão neste momento começaram 2014 com técnicos desconhecidos há poucos anos: Coritiba, Bahia, Goiás, Grêmio, Portuguesa, Botafogo e Flamengo. Desses, só o flamenguista Jayme de Almeida fica no meio do caminho entre “novato” e “veterano”, pois está em seu primeiro trabalho com um time principal, mas já tem 60 anos e é o quarto técnico mais velho do campeonato.

O motivo da chegada deles variam. Os altos salários fizeram muitos veteranos terem sua relação custo x benefício colocada em dúvida. Além disso, os treinadores novos trazem ideias e métodos diferentes, que podem criar um fato novo para o clube. Por exemplo, os estudos e o conhecimento teórico tem mais valor.

“Vem vindo uma geração mais estudiosa do que as antigas”, avalia Vágner Mancini, 47 anos, ex-técnico do Atlético Paranaense. “Acho que hoje, pela facilidade de informação, você consegue se atualizar melhor. A Europa não está tão distante do Brasil, os jogos são mostrados a todo instante, então dá para fazer uma reciclagem anual”.

Dado Cavalcanti faz isso. Sabe quem foi o português Vitor Frade, professor da Universidade do Porto, e o que é a Periodização Tática, uma metodologia de treino que favorece a intensidade em situações específicas de jogo a volume de treinamento. Usou GPS no Mogi Mirim, olha estatísticas e gosta de gravar jogos de adversários e do seu próprio time no iPad.

“Tenho a disciplina de buscar coisas novas, não só no aspecto tático”, explica. “Também em treinamentos, convivência com atletas, diálogo, trocar informações, estudar adversários, o que acontece fora do país, na Espanha, em Portugal, na Inglaterra, na Argentina. Essa procura por melhoria e busca de conhecimento é o que pode ajudar nosso futebol a crescer”.

A nova e a velha geração, lado a lado

A nova e a velha geração, lado a lado

Dado foi campeão estadual com 24 anos pelo Ulbra-RO em 2006. Ano passado, levou o Mogi Mirim à semifinal do Paulistão e ajudou o Paraná a brigar pelo acesso durante boa parte da última edição da Série B. O sucesso prematuro ajuda a ganhar o respeito dos jogadores porque os pelos no rosto não fariam isso. Na Vila Capanema, o técnico de 32 anos trabalhou com Lúcio Flávio, 34 , e Anderson, 33. Agora no Alto da Glória, Dado comanda Alex, de 36 anos.

O técnico coxa branca não tem muitos motivos para se preocupar com a diferença de idade para o capitão do time. Alex foi treinado por Marquinhos Santos, 34 anos, em 2013. Marquinhos tem um perfil bem parecido com o de Dado. Jovem, estudioso, busca informações em outros países, mas tem menos experiência que o companheiro. Não tinha trabalhado no profissional antes de assumir o Coxa, e foi demitido depois de perder do Itagüí, da Colômbia, pela Copa Sul-Americana. Ganhou uma nova chance no Bahia.

“Vejo que os novos treinadores estão vindo com uma capacitação maior, e isso é importante. O próprio atleta hoje é muito mais exigente, e se sentir que o trabalho não é bom, ele mesmo fala com a diretoria e pede mudanças”, comenta o experiente Paulo Angioni, que já foi dirigente de Corinthians, Santos e do próprio Bahia, até maio do ano passado.

A renovação é necessária

Não sou que estou dizendo que os técnicos brasileiros estão atrasados em relação aos de outros países, mas o tetracampeão mundial Carlos Alberto Parreira, Paulo Autuori, hoje no Atlético Mineiro, e o próprio Marquinhos Santos, representantes de pelo menos três gerações diferentes. Por isso alguns clubes estão se sentindo mais à vontade no momento de dar oportunidades a caras novas, muitas vezes desconhecidas da torcida e da imprensa.

“Essa nova geração de técnicos é que vai fazer o Brasil dar o salto de qualidade necessário no aspecto técnico para alcançar outros países”, afirma o gerente de futebol do Figueirense, Rodrigo Pastana. “Ficamos para trás nessa questão, e isso é notório. É essa nova geração que vai nos ajudar a crescer novamente”.

Eduardo Hungaro pode, enfim, mostrar serviço

Eduardo Hungaro pode, enfim, mostrar serviço

Por que alguns desses treinadores estão aparecendo apenas agora? Eduardo Hungaro assumiu o Botafogo no lugar de Oswaldo de Oliveira e tem sua primeira chance de verdade aos 50 anos. Enderson Moreira, 42, e Claudinei Oliveira, 44, também não são exatamente jovens, mas podem ser considerados da nova geração porque suas carreiras eram ligadas apenas a categorias de base até há poucos anos.

“Isso é culpa também dos dirigentes, e eu me incluo nessa lista. Acho que antigamente contratávamos muito os técnicos por causa do currículo”, admite Pastana.  Geninho, do Sport, tem 65 anos e é o técnico mais velho dos clubes da primeira divisão. Ele acha que mesmo os jovens precisam mostrar resultados antes de serem considerados pelos times maiores. ”A partir desse momento, ele é procurado”, diz o veterano.

Aos poucos isso vai acontecendo. Botafogo, Flamengo e Grêmio disputarão a Libertadores com técnicos de pouco nome. O desempenho deles na competição pode dar um impulso ainda maior a esse processo, e fazer que outras potências nacionais se aventurem com comandantes dispostos a mudar o sistema de trabalho das comissões técnicas.