Trabalhadores fabricam bolas da Nike no Paquistão (AP Photo/K M Chaudary)

As marcas cada vez mais fazem as camisas no Brasil, muitas vezes nas mesmas fábricas

As grandes marcas de material esportivo no mundo estão no Brasil. Adidas, Nike, Puma, Umbro, todas elas vendem seus produtos por aqui. Mas onde são fabricados? Em parte, no próprio Brasil. Há uma indústria forte de confecção no Brasil e toda uma estrutura que está sendo usada por essas marcas para expandir a sua participação no mercado brasileiro. Aquela camisa do Manchester United que você compra pode não ter como origem Taiwan ou Indonésia, como normalmente se imagina. Pode ser ter saído de uma fábrica da Lapa, em São Paulo, ou de Cascavel, ou mesmo de Caxias do Sul. As marcas são internacionais, mas nem sempre as peças são importadas.

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Calma, não é que o Brasil tenha virado uma grande Indonésia. A maior parte das fábricas das marcas de material esportivo estão na Ásia, de fato. A Adidas, por exemplo, tem 67% das suas fábricas naquele continente, 20% nas Américas e 13% na Europa, Oriente Médio e África. A Nike tem 195 fábricas na China e 65 no Vietnã. A Ásia é, por vários motivos, a grande Meca têxtil do mundo. Mas não quer dizer que outros países, como o Brasil, não possam ter uma grande produção, até pela questão logística e de impostos. “Sempre adaptamos muitas coisas em fábricas locais, mão de obra nacional e em alguns casos, matéria-prima também. O design e o desenvolvimento das peças é feito todo lá fora, na sede em  Herzogenaurach, na Alemanha”, disse Adidas, via departamento de comunicação, à Trivela.

A Nike usa 55 fábricas no Brasil. De tudo que a marca produz por aqui, 65,5% são calçados, 32,7% são roupas e 1,8% equipamentos esportivos. São 22.592 trabalhadores nessas 55 fábricas, sendo que 66% são mulheres. A maior parte das fábricas está no Rio Grande do Sul, que sozinho tem 31. São outras cinco fábricas em Santa Catarina, três no Paraná, 10 em São Paulo, uma no Espírito Santo, três na Bahia e duas no Ceará.

Uma das fábricas que produz para a Nike é a Lupo que, curiosamente, também concorre no mercado de marcas esportivas, ainda que não seja a sua principal divisão. Com experiência no mercado brasileiro e alta capacidade de produção, a Lupo atende não só a Nike e a Adidas, mas outras marcas do setor, como a Puma, Reebok, Decathlon, Oakley, entre outras. “Operamos em quatro unidades totalizando aproximadamente 5.700 funcionários. Temos capacidade de produção anual de 120 milhões de peças distribuídas em vários segmentos”, diz Carlos Alberto Mazzeu, diretor industrial da Lupo, à Trivela.

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A fábrica é responsável por produzir as meias esportivas de todas essas marcas. Significa que boa parte das meias esportivas do Brasil saem da fábrica brasileira. “Iniciamos com os produtos básicos e agora temos uma gama muito grande em que a tecnologia para obter finalidades especiais passa a ser predominante nos produtos”, conta Mazzeu.

Com a alta demanda por suas fábricas, a empresa está criando unidades separadas para cada uma das marcas que atende. “Até o ano passado utilizávamos a mesma estrutura produtiva para todos os clientes. Em 2014 estamos dando andamento ao projeto de criar uma unidade específica para confeccionar os produtos private label. Esta modalidade é muito importante para o desenvolvimento da empresa. Ela nos ajuda a evoluir tecnologicamente mantendo as tendências globais. Na parte de gestão, as constantes auditorias e suas abrangências nos empurram para sempre manter os padrões internacionais de atuação”, diz ainda o diretor da empresa.

Conhecida como fabricante de meias e peças íntimas, como cuecas e lingerie, a Lupo mostrou a sua cara na produção de materiais esportivos com mais destaque em 2013. Foi a a fornecedora do Atlético Mineiro durante a bem-sucedida campanha da Libertadores. A marca é a fornecedora de material esportivo da Portuguesa e do América-MG. Deixou o Galo em 2014, substituída pela Puma, mas já tinha cumprido o seu papel. Expôs a sua marca, que é o principal motivo para patrocinar um time de futebol.

A prática de usar fábricas com conhecimento de mercado e alta capacidade de produção é uma das estratégias utilizadas pelas empresas, até porque ajuda não só a diminuir o custo no volume, mas também pela facilidade que essas grandes fábricas oferecem em termos de logística, um dos gargalos para a produção industrial no Brasil. A Adidas também utiliza um grande número de fábricas parceiras no país. O número é parecido com o da Nike, 53. As fábricas também estão espalhadas pelo país, com unidades no Paraná, São Paulo, Rio Grande do Sul, Bahia, Santa Catarina e Ceará. Aliás, o Brasil é local onde a Adidas mais tem fábricas na América Latina.

Entre as fábricas da Nike, em São Paulo há a Drastosa, fábrica importante para a indústria têxtil e que fica no bairro da Lapa. A fábrica já prestou serviços para a Adidas no passado, mas atualmente trabalha para a marca norte-americana. É algo comum na indústria de confecção. Uma fábrica no Brás tem uma marca própria de jeans a preços populares, mas também presta serviço para marcas internacionais que querem produzir as suas peças localmente. Assim, recebe uma série de normas e procedimentos para que o produto daquela marca esteja de acordo com o padrão de qualidade exigido pela marca.

Sim, não se iluda: quando alguém diz que os produtos completamente diferentes entre si, de uma marca popular e de outra de grife, são feitos no mesmo lugar, ele pode estar falando a verdade. Se ele disse que é praticamente a mesma coisa e só muda a etiqueta, aí não é verdade. As fábricas desta indústria são prestadoras de serviço: recebem uma cartilha, que deve ser cumprida à risca e com contratos importantes de confidencialidade. Uma das consultadas pela reportagem pareceu temer falar sobre a produção. Alegaram que o contrato de confidencialidade impede a fábrica até mesmo de dar detalhes dela mesma, seja sua capacidade de produção e número de funcionários, seja para falar sobre a relação com as marcas que a contrataram.

Para dar um exemplo de fora do futebol, mas da mesma indústria, as confecções. Em uma mesma fábrica do Brás, região central de São Paulo, um jeans de uma marca bastante popular é produzido na escala de milhões a um custo próximo de R$ 1. A peça é vendida na loja a preços populares, em torno de R$ 30. Essa mesma fábrica, prestando serviço a uma empresa internacional, fabrica jeans a um custo de até R$ 30 por peça, que depois é vendida em lojas por R$ 150. Não é o mesmo produto com uma etiqueta diferente. O modo de produção é trabalhado para atender às exigências e padrões da marca contratante, além de uma preocupação com a preservação da fórmula usada por aquela marca para fazer os seus produtos. É um segredo industrial protegido a sete chaves.

O uso de fábricas locais é comum como forma de diminuir os custos para as grandes marcas internacionais. As grandes marcas esportivas fazem isso para produzir localmente parte de seus produtos. A Nike possui fábricas em 43 países do mundo, em um total quase um milhão de trabalhadores em 744 fábricas. A Adidas fabrica em 65 países, com mais de 1.200 fábricas. A Puma fabrica seus produtos em 42 países diferentes, com mais de 500 fábricas. No Brasil, a Puma mantém seis fábricas.

Portanto, quando você compra um material esportivo, há uma boa chance de ele ter sido fabricado perto da sua casa. Talvez do mesmo lugar de onde saiu o material do seu amigo, da marca concorrente.

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>>>> Parte 1: Ingleses, espanhóis, alemães e chilenos: todos eles pagam menos que você em camisas de futebol

>>>> Parte 2: O negócio de material esportivo é muito maior do que as camisas do seu time

>>>> Parte 3: Os impostos são altos, mas não são só eles que deixam as camisa de futebol caras

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