Foram frações de segundo. Milésimos que não permitiam qualquer raciocínio, e quem fosse suficientemente ousado a querer planejar, amargaria a caminhada solitária ao fundo das redes. Instantes que provocavam o instinto. E que só poderiam ser alcançados por um misto de crença inabalável, força incalculável, talento inquestionável.  Com estes elementos, Marcelo Grohe resolveu a equação do espaço-tempo nos átimos que a bola lhe ofereceu. E grata pelos lances que a engrandecem, como sempre, ela concedeu ao goleiro um lugar na memória eterna da Copa Libertadores da América. A partir desta quarta, será impossível falar do camisa 1 sem se lembrar da defesa que se grava na mente – graças ao mais puro espanto, diante da maravilha que ele foi capaz de proporcionar.

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Em 17 anos de clube, 12 deles como profissional, Marcelo Grohe experimentou as mais diferentes sensações do gremismo. Viu os anos copeiros se esvaírem, antes que a penúria tricolor se iniciasse na última década. Estava no banco de reservas quando Galatto fez o seu milagre na Batalha dos Aflitos e permaneceu em seu trabalho silencioso quando o Grêmio retornou a uma decisão de Libertadores. Ano após ano, seguiu se empenhando para conquistar seu espaço. Para ser a bandeira sob as traves, um símbolo tão inerente à história gremista.

Demorou para que confiassem no prata da casa. Mas, com o tempo, Grohe acabou se tornando um dos protagonistas do renascimento recente do Imortal – ainda que, com mais de 350 jogos nas costas, continue não sendo unânime entre os torcedores. Há quem o considere um ídolo. Há quem o veja frequentemente suscetível às falhas. Nesta Libertadores mesmo, o camisa 1 chegou a alternar atuações excelentes e erros preocupantes, que poderiam ter colocado em xeque a campanha. Mas não existe a possibilidade de não exaltar seu talento diante do que aconteceu em Guayaquil na noite desta quarta.

Grohe fazia uma partida sem grandes sobressaltos. De longe, via o triunfo dos seus companheiros com a vitória parcial por 2 a 0. O Barcelona retornou ao segundo tempo disposto a reagir. E o goleiro, predestinado a emoldurar uma intervenção com ares lendários. A bola desviada no centro da área foi suficiente para transformar o lance. Ariel, livre de marcação, invadiu a pequena área e se aprontou para o duelo num piscar de olhos. A menos de um metro da linha, o impulso. Armou seu estilingue e soltou o chute feroz. O gol certo que acabou negado pelo voo monumental.

Diante do argentino, Marcelo Grohe não teve tempo para qualquer planejamento. Agiu como o mais instintivo dos seres vivos. Acompanhou a bola enquanto ela cruzava a pequena área. E, quando Ariel acertou a bomba, ele se atirou no vazio. O ponto cego em que enxergou a luz mais brilhante para um goleiro. O camisa 1 dependeu de seu impulso. Dependeu da elasticidade para se aproximar dos centímetros exatos. Dependeu do tempo de reação na construção de todo o lance. Méritos muitos de um trabalho que se faz no dia a dia. De um talento aprimorado nos treinamentos.

A defesa de Grohe, de certa maneira, sequer entra no rol do que os goleiros de futebol estão acostumados a fazer. O jogo particular dentro de campo costuma ser reativo, para proteger o patrimônio de mais de sete metros sem dar margem aos movimentos desnecessários. O gremista, neste átimo de inspiração, foi explosivo como um arqueiro de handebol. Aqueles que precisam atacar a bola e se agigantar para cobrir os espaços de seu quadrilátero. Por isso mesmo, o apogeu do tricolor impressiona tanto. Ele reduziu distâncias em seus próprios méritos. A área enorme sob as traves se tornou submissa ao esforço de seu corpo. E que possam dizer que há “sorte”, isso não exclui o punhado de virtudes para se chegar ao ponto exato ao qual o arremate seguia.

Logo após a defesa, Grohe sentiu as dores pelo impossível. Estirou-se impulsionado pela mente, mais do que um movimento natural permitiria. O símbolo de uma intervenção acima das possibilidades. Enquanto isso, a reação de Ariel foi emblemática. O argentino já parecia olhar para dentro do gol, e se perdeu quando não viu a bola estufando as redes. Ao percebê-la dormente nos braços do gremista, o centroavante se desesperou. Colocou as mãos na cabeça, boquiaberto. Parecia não saber onde estava, olhando para diferentes lados, como se fosse jogado em outra dimensão. A relatividade das luvas tricolores.

Já nas arquibancadas ou diante da televisão, o mais natural era compartilhar o sentimento de Ariel: incredulidade. Ficar boquiaberto, colocar as mãos na cabeça, se perder diante do ocorrido. Demorou algum tempo até que, enfim, se percebesse que aquela defesa foi mesmo possível. Que o gol certo realmente não aconteceu. E talvez alguns torcedores do Barcelona ainda estivessem de braços erguidos, petrificados pelo milagre, quando terminaram atônitos com o terceiro gol do Grêmio. O gol de Luan, um duro choque de realidade para confirmar que aquilo tudo não era uma mera ilusão de ótica.

O Grêmio tem mais um jogo pela frente até se confirmar na decisão da Libertadores. Está a um palmo da final. O palmo do infinito de Marcelo Grohe. E, independentemente do desfecho da competição, a defesa já se colocou na história, graças a quem a viu e a quem a recontará por muito tempo. Para os gremistas, ainda assim, é o tipo de lance que os faz acreditar mais. O tipo de lance em que se torna elo entre o incrível que se vive no presente e que o prometido júbilo no futuro.