Claro que o principal enfoque nos obituários de Marcelo Rezende – falecido neste sábado, aos 65 anos, vítima das complicações de um câncer no pâncreas – será sobre seu trabalho na editoria policial, fazendo reportagens e apresentando programas nas TVs Globo, Record, Rede TV e Bandeirantes. Sua passagem pelo jornalismo na editoria de esportes será pouco lembrada. Injusto: de 1968, ano em que começou a carreira, até 1989, quando mudou para as reportagens policiais e políticas, o jornalista carioca teve uma passagem longa, profícua e muito elogiável pelo jornalismo esportivo.

Tal passagem se iniciou, como supracitado, em 1968, no Jornal dos Sports. De modo quase acidental: fazendo um curso técnico de mecânica, tinha um primo (Merival Júlio Lopes), que trabalhava no tradicional diário carioca das páginas rosas. Um dia, visitando a redação da publicação, ajudou um jornalista a datilografar – sem saber que era o editor-chefe do jornal. Saiu de lá com uma proposta para se tornar repórter. Aceitou. E seu destino estava traçado.

Em 1972, Marcelo se transferiu para O Globo, inicialmente focado na cobertura dos esportes amadores. Mais um ano, e tornou-se redator do caderno de esportes. Na função, revisava textos de colunistas de grosso calibre, como Nelson Rodrigues e João Saldanha. Ainda assim, não era o que ele queria, como revelou ao livro “Onde o esporte se reinventa: histórias e bastidores dos 40 anos da Placar”, dos jornalistas Marcio Kroehn e Bruno Chiarioni. Cansado de ficar na retaguarda, fazendo o que chamou de “aporrinhação”, pensou: “Eu não posso começar por onde os outros terminam, eu tenho que começar normalmente. Eu queria ser repórter!”. Em 1974, pediu a transferência para a reportagem ao editor do caderno de esportes d’O Globo, Celso Itiberê. O azar de outros colegas foi a sua sorte: após a Copa do Mundo daquele ano, parte da equipe do jornal carioca foi demitida. E Marcelo virou setorista da Seleção Brasileira.

Nessa função ficou até 1979, quando uma nova aposta virou o seu momento mais marcante na cobertura de esportes. Aposta vinda num telefonema de João Areosa, que fora seu colega n’O Globo e então era editor da revista Placar em São Paulo. Areosa disse que iria ao Rio de Janeiro para conversar com Marcelo. O diálogo era sucinto: um convite para integrar a redação da revista – que, segundo João, “tinha um probleminha: estava fechando”. Conforme contou a Márcio Kroehn e Bruno Chiarioni, Marcelo reagiu se opondo: “Porra, João, lá no esporte d’O Globo eu sou rei, João. Sou eu que viajo para tudo quanto é canto, eu que faço a Seleção e você quer me levar para uma roubada dessas? Você é maluco?!”

João ganhou algum tempo com uma evasiva: “Mas a gente vira a revista…”. Marcelo já começou a se convencer. E decidiu aceitar definitivamente ao ouvir a oferta salarial, quase três vezes mais do que ganhava n’O Globo. Estreou na Placar cobrindo os Jogos Pan-Americanos de San Juan, em 1979. Mas logo se encontraria no futebol, seu habitat natural: primeiro como repórter da sucursal fluminense da editora Abril, depois como editor da revista no Rio, o flamenguista Marcelo foi figura de destaque na Placar.

Dele foram a maioria dos textos sobre a ascensão do Flamengo no início dos anos 1980, de campeão brasileiro a campeão mundial, passando pela Copa Libertadores. Merece destaque a citação do final de “Campeão até morrer”, texto sobre o título carioca do Flamengo em 1981, já após a conquista da Libertadores – e após a morte de Cláudio Coutinho: “Olho para Carpegiani agradecendo à torcida e confundo seu rosto com o de Cláudio Coutinho, que vi tantas vezes nesse mesmo gesto de campeão. Olho Carpegiani levantar os dois braços e vejo Cláudio Coutinho sorrindo e chorando para seu povo. E só nesse instante, só agora, descubro o que é ser Flamengo até morrer”.

Aproveitando a experiência como setorista da Seleção Brasileira n’O Globo, Marcelo também trabalhou pela Placar nas Copas de 1982 e 1986. Em 1982, o trauma da derrota para a Itália foi grande, conforme o jornalista comentou ao livro sobre a história da publicação, semanal na época: “Eu lembro que saí do estádio, queria ficar sozinho. Fui andando do Sarriá até o nosso hotel, o Colón, que ficava na parte histórica, em frente à catedral que é a mais antiga de Barcelona. E eu fui a pé, literalmente a pé, chorando. Ali talvez tenha acabado o meu encanto com o futebol, até porque foi uma covardia a Seleção ter perdido. Foi um desserviço ao futebol mundial. Era como se o Guga, em seu grande momento, perdesse. E ele não perdeu no grande momento dele, porque foi tricampeão de Roland Garros”.

Em 1986, além de escrever sobre todos os jogos da Seleção, Marcelo foi dos raros repórteres a conseguir entrevistas exclusivas com Telê Santana, que teve vários problemas com a imprensa durante aquele Mundial. Ainda na revista, Marcelo também começou a tratar do lado interno do futebol. Não só na seção De Primeira, que editava com pequenas notas de bastidores, mas com a série de reportagens O livro negro do futebol brasileiro, iniciada em março de 1985, com denúncias de falcatruas em federações de futebol pelo país.

Após oito anos de passagem, Marcelo seguiu para a TV Globo, em 1987. Lá, começou como repórter e editor do programa Globo Esporte. Continuou muito próximo do meio do futebol – principalmente do Flamengo, cobrindo conquistas como a Copa União de 1987. Além das várias entrevistas com Zico, também esteve em momentos marcantes como a aparição do atacante Gaúcho, defendendo dois pênaltis como goleiro improvisado, em Flamengo x Palmeiras, pelo Campeonato Brasileiro de 1988.

Em 1989, Marcelo ainda começou cobrindo os jogos da Seleção Brasileira, como repórter nas transmissões da TV Globo. Segundo descreveu em seu livro de memórias, Corta pra mim (Planeta, 2013), procurava trazer estatísticas ao longo das transmissões, método ainda não popularizado então na cobertura esportiva. Porém, uma coincidência acabou servindo para mudar sua trajetória: já cansado da editoria, acabou cometendo um erro durante a transmissão de Brasil x Venezuela, pelas Eliminatórias da Copa de 1990. Achou que seria demitido. Não foi, mas ali pediu para mudar de editoria. Em entrevista ao UOL, em 2013, Rezende justificou: “Pensei comigo mesmo: ‘Ladrão por ladrão, eu vou lidar com os originais’”.

De fato, foi como repórter policial que Marcelo Rezende fez mais fama. Ainda assim, deixou mais uma ocasião marcante relacionada ao esporte: a edição do programa Globo Repórter, em 2001, na qual fazia denúncias de enriquecimento ilícito por parte de Ricardo Teixeira, então presidente da CBF.

Além do mais, mesmo distante da editoria de esportes, Marcelo Rezende já deixara sua marca nos 20 anos em que atuou nela. E dela tirou um aprendizado definitivo, conforme comentou ao UOL em 2013: “O jornalista esportivo é o único que vê o antes, o durante e o depois. Vê treino, jogo e vestiário. Vê se alguém participa da reunião do conselho monetário? Pode até saber o que aconteceu depois, mas durante não. O esporte tem essa vantagem. É impressionante como você acompanha tudo. O esporte foi a minha grande formação”.